Autoria: Thales Baruffi

Descrição da obra: O isolamento trouxe a extrema vontade de sair de casa, de voltar ao que era antes, porém sabemos ser impossível. Escrevi um pequeno conto de como o nosso cotidiano, mesmo com a reabertura de comércios e o fim do isolamento, será permeado por pequenos novos hábitos.

Expressão: Literatura

 

A Cafeteria

A cafeteria reabriu, espaço de sobra entre as poucas mesas, prefiro assim, pode-se conversar sem as pessoas do lado serem parte da conversa. A garçonete traz meu espresso e uma torrada com geleia, ela de máscara, eu sem, liberaram sentar com o ar fresco na cara. Ela não faz nenhuma menção em me reconhecer, tenho quase certeza de que era ela que me atendia antes, imagino que ela esteja sorrindo e que se lembra de
mim, não quero que tenha me esquecido nesses meses. Ela põe o pedido na mesa e fala ‘bom apetite’, meus dedos vão à xícara e param no ar. Posso tocar? Meu álcool gel ficou no carro, ela está de luva, com certeza tudo é limpo, vou ali há anos, confio nessa cafeteria, na dona e na equipe, afinal entrei, sentei, pedi o café, toda a rotina a mais alta prova de confiança. Minha mão ainda no ar, não toco o café ou torrada, no espaço entre meus dedos e xícara moram os novos tempos, deveria ter pegado o álcool gel. Suspiro pelo passado de nem um ano atrás, levanto e vou ao carro, volto armado com álcool 70%, ensopo em guardanapo, ainda bem que não há fogo por perto, limpo a xícara com um guardanapo discretamente, talvez se ofendam com a desconfiança. A torrada será um risco, mas pelo menos saí de casa, encaro as paredes decoradas com pratos pintados com flores, confirmo, não são do meu quarto ou sala. Puxo fundo o ar, aprecio o cheiro que não é meu apartamento, prendo a respiração de repente, inspirei muito fundo sem máscara, solto o ar com medo.
Sim, pelo menos saí de casa.

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