Você sabe por que existe o dia da Consciência Negra?

O dia 20 de novembro é definido como o dia da Consciência Negra desde 1971. A representatividade presente em tal data foi proposta pelo Grupo Palmares do Rio Grande do Sul, em parceria com outros movimentos sociais e críticos, que questionavam a legitimidade do dia 13 de maio para o povo negro. Antes da proposta, o dia 13 era considerado o dia da Consciência Negra, em referência à data da promulgação da Lei Áurea. 

A centralidade da ação no dia 13 de maio deslegitimava toda a mobilização do movimento negro, inviabilizando a luta, a resistência e a corresponsabilização do povo negro no seu próprio processo de libertação. Embora a Lei Áurea tenha determinado o fim da escravidão no Brasil, ela não foi efetiva no que se refere à inserção social dessas pessoas, deixando-as às margens da sociedade e sem condições básicas para uma vida digna. 

O Grupo Palmares, que anteriormente tinha como objetivo ser um espaço de estudo de artes, literatura e teatro, era composto por Antônio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, Oliveira Silveira e Vilmar Nunes, e eles foram os principais nomes que pensaram em uma nova data para o Dia da Consciência Negra.

Durante o desenvolvimento do projeto, uma série chamada “Grandes Personagens da nossa história”, da revista Abril Cultural, da época, serviu de inspiração para essas pessoas discutirem uma nova data para a Consciência Negra. A série trazia a figura relevante de Zumbi dos Palmares, fortalecendo-o como um personagem marcante da história do negro no Brasil e destacando sua luta contra a escravidão e o poder colonial português. O livro “O quilombo dos Palmares”, de Édison Carneiro, também serviu como base para essa história. Zumbi dos Palmares foi assassinado em 20 de novembro de 1695, marcando a data de morte do último rei do Quilombo ao qual pertencia. Assim, tendo em vista a luta pela liberdade do povo negro, a data da morte de Zumbi foi sugerida como alternativa ao 13 de maio.

Mesmo que a articulação para a mudança na data ocorresse desde 1971, somente em 2011, por meio da Lei n°12.519, o dia 20 de novembro foi instituído oficialmente como o dia da Consciência Negra. A importância dessa data simboliza a resistência para o combate do racismo e para o fortalecimento da cultura afro-brasileira na sociedade. 

Tal história carrega consequências para a atualidade brasileira, uma vez que o país foi o último do mundo a abolir a escravidão e, ainda hoje, o racismo se faz presente. Atualmente, no Brasil, 52% da população se autodeclara negra (pretos e pardos). Além disso, o país abriga a cidade fora do continente africano com o maior número de pessoas negras: Salvador/BA.

Design por Amanda Penetta

Luedji Luna, cantora, compositora, negra, baiana, bissexual e artista musical em ascensão, traz em sua música “Um corpo no mundo” a expressão do que é ser um corpo negro e suas constantes lutas. A música apresenta o seguinte trecho: “Eu sou um corpo/Um ser/Um corpo só/Tem cor, tem corte/E a história do meu lugar/Eu sou minha própria embarcação/Sou minha própria sorte”. A esse respeito, nota-se a importância da corporeidade para as pessoas negras: o corpo como ponta de lança na interação com o mundo, mesmo que esse corpo seja atravessado constantemente pela solidão, violência e pelo silenciamento.

Para pensar a experiência de vida dos corpos negros em território brasileiro, é necessário considerar sua origem a partir de uma vivência inicial no continente africano, atravessada pelo forte processo de colonização e escravidão. Além disso, é preciso legitimar sua reorganização para a produção de vida. 

Envelhecer do corpo negro

Ao considerarmos a articulação entre nossa frente temática “Pessoas Idosas” e o dia em que se comemora a Consciência Negra, é importante refletirmos sobre o envelhecimento nas pessoas negras e quais são as suas particularidades. 

Uma das maneiras de se compreender o envelhecimento é a partir de uma perspectiva biopsicossocial, constituída por 3 fatores. O primeiro, o biológico, refere-se a mudanças fisiológicas e genéticas, como limitações nas capacidades funcionais e maior tendência à contração de doenças. O segundo fator, o psicológico, envolve processos como a adaptação do idoso a novos papéis sociais. Por fim, o terceiro fator está relacionado ao contexto social do indivíduo, no qual aspectos sociais e demográficos como idade, raça/etnia, sexo e escolaridade influenciam no processo de envelhecimento. 

Essa perspectiva proporciona uma visão integral e contextualizada da pessoa idosa. Nesse sentido, ao se falar sobre o envelhecimento de pessoas negras no contexto do Brasil é indissociável não considerar o racismo e, consequentemente, as desigualdades sociais enfrentadas por essa população. Desigualdades essas que geram grandes impactos para a saúde e a qualidade de vida dessas pessoas. A esse respeito, estudos apontam que, acima dos 64 anos, o percentual de pardos e pretos na sociedade decai absurdamente. Essa redução, por sua vez, não se verifica na mesma equivalência entre brancos e sinalizada, portanto, que os idosos pardos e pretos morrem precocemente.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a raça como um determinante social de saúde, uma vez que o racismo atua como um produtor de iniquidades e de vulnerabilidade na saúde das pessoas negras. Desse modo, o envelhecimento em idosos negros se difere de outros grupos raciais, pois reflete o acúmulo de desigualdades e falta de oportunidades vivenciadas ao longo da vida dessas pessoas, como o acesso a serviços de saúde, trabalho, educação, moradia, entre outros. 

Design por Ana Paula de Lima

A relevância desse assunto percorre pela ação de educar as pessoas objetivando corresponsabilizar a comunidade e os profissionais da saúde sobre o racismo, a fim de combatê-lo. Além disso, um olhar das políticas públicas para questões relacionadas ao tema também é fundamental. 

Assim, como meio de aproximação, isto é, buscando compreender o que é ser negro e provocando reflexões acerca do envelhecimento desse corpo a partir de perspectivas e vivências, ao longo das próximas semanas, traremos narrativas de pessoas negras, enfatizando os atravessamentos da negritude no processo de envelhecimento. Convidamos vocês a acompanharem essa série!

 

Autoras

Beatriz Borges Silva

Iara Rocha Barros

Milena Izaura Castro

Nicole Akemi Yamada

Revisão

Natália Sevilha Stofel

Claudia Valente

 

Referências

  1. BOSISIO, I. Religião, cultura, nação: articulações possíveis a partir de três datas comemorativas. Horizontes Antropológicos [Online], 52, 2018. Disponível  em: http://journals.openedition.org/horizontes/2633. Acesso em: 17 nov. 2020.
  2. BRASIL. Ministério da Educação (org.). Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica. 2003. Ministério da Educação. Brasília-DF. Disponível em: http://etnicoracial.mec.gov.br/images/pdf/publicacoes/educacao_acoes_afirmativas.pdf. Acesso em: 17 nov. 2020
  3. CASA DO SABER. Origens e ressignificados do corpo negro | Jaqueline Conceição. 2020 (6min33seg). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rniXzh4b_-4. Acesso em: 18 nov. 2020.
  4. LIMA, P. & DELGADO, E. I. A melhor idade do Brasil: Aspectos biopsicossociais decorrentes do processo de envelhecimento. Revista Ulbra e Movimento, Paraná, v. 1, n. 2, p. 76- 91, 2010.
  5. SPARTAKUS. Análise de Um corpo no mundo (Lueji Luna) | Spartakus Santiago. 2020 (9min47seg). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CCQJPTts6aw. Acesso em: 18 nov. 2020.
  6. WERNECK, Jurema. Racismo institucional e saúde da população negra. Saúde soc, São Paulo, v. 25, n. 3, p. 535-549, 2016. 
  7. SILVA, Alexandre da et al . Iniquidades raciais e envelhecimento: análise da coorte 2010 do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE). Rev. bras. epidemiol., São Paulo , v. 21, supl. 2, e180004, 2018.
  8. A cor da pele como um fator de desigualdade no envelhecimento. Revista Aptare, 29 ago. 2019. Diálogos. Disponível em: <http://revistaaptare.com.br/2019/07/29/a-cor-da-pele-como-um-fator-de-desigualdade-no-envelhecimento/>. Acesso em: 18 nov. 2020.

Crédito da imagem: ZaetaFlow em Pexels

 

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Categoria: Diversidade e cidadania

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