É a Oeste do Estado do Pará, mais especificamente entre a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex) e a Floresta Nacional dos Tapajós (Flona), que se localiza a única estrada dos povos ribeirinhos: o Rio Tapajós, afluente da margem direita do Rio Amazonas. Principal meio de transporte e comunicação das comunidades ribeirinhas dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, localizadas nos municípios de Santarém, Aveiro e Belterra, é às margens dos rios que residem milhares de famílias. 

E é também pela correnteza dos rios que a saúde chega aos Povos das Águas. O barco-hospital Abaré, cujo nome indígena significa “amigo, cuidador”, pode ser visto atracado no rio Arapiuns, de onde segue em direção aos locais de mais difícil acesso na Amazônia. Através dele, a primeira embarcação do Brasil qualificada pelo Ministério da Saúde como Unidade de Saúde da Família Fluvial, são atendidas cerca de 70 comunidades e 13 mil ribeirinhos. 

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Embarcação Abaré – Imagem: Divulgação-Saúde e Alegria

Pela mesma embarcação, as comunidades vêm recebendo atendimentos e kits de higiene para prevenção e contenção da COVID-19 desde fevereiro de 2020. Um trabalho de Atenção Básica que mescla a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS), o papel essencial das Instituições de Ensino e a união de diversos atores do território, como organizações sociais, lideranças comunitárias e sindicais, e movimentos de populações quilombolas e indígenas.

 Assim, isolados do restante do país e cercados pelas águas, sua maior fonte de subsistência, os povos ribeirinhos da Amazônia encontraram sua própria forma de sobreviver ao Sars-Cov-2 e terem acesso a uma saúde gratuita e de qualidade. 

O Abaré: saúde que flutua nos rios

Chamados assim em contraposição aos Povos da Floresta – habitantes tradicionais da floresta amazônica, como indígenas, serigueiros, castanheiros, etc -, os Povos das Águas são assim caracterizados por terem um estilo de vida muito associado ao ciclo da natureza, principalmente pelas cheias e vazantes de rios, igarapés, igapós e lagos, bem como pelos dias de sol e chuva.

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Barco-hospital realiza atendimentos às comunidades ribeirinhas
Imagem: Divulgação/Saúde e Alegria

Desse modo, as atividades econômicas são comumente desenvolvidas e reguladas conforme a sazonalidade. Em momentos de intensa chuva, por exemplo, devido à enchente dos rios, a agriculta de subsistência, os roçados e a pesca são comprometidos. Por isso, a adaptação às mudanças climáticas e a convivência com as águas é parte da rotina dos ribeirinhos.

Foi pensando, então, em atender às demandas do Sistema único de Saúde (SUS) dos Povos das Águas, que foi criado em 2006 o barco-hospital Abaré. “Se a comida, roupa, diesel, tudo chega por barco, a saúde também tem que chegar”, aponta Rui Harayama, antropólogo e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). 

Através do Projeto Saúde e Alegria (PSA), dedicado ao desenvolvimento integrado e sustentável de 150 comunidades da Amazônia e do Pará, em parceria com as prefeituras locais e com apoio da ONG holandesa Terre Dês Hommes (TDH), na época então proprietária do barco-hospital, o Abaré começou a navegar em áreas remotas e de difícil acesso do Rio Tapajós, indo do Mato Grosso ao Rio Amazonas. 

Inicialmente, atendia a uma demanda de 15 mil pacientes ribeirinhos de 72 comunidades das áreas rurais de Santarém, Belterra e Aveiro, alcançando lugares distantes e excluídos do sistema público de saúde. Com visitas a cada 40 dias, a embarcação conseguia taxas de 93% de resolução dos quadros apresentados – ou seja, apenas 7 em 100 pacientes precisavam recorrer a centros urbanos e não encontravam soluções a bordo do Abaré. 

Por conta de tamanha resolutividade do barco-hospital, o Ministério de Saúde, por meio da portaria n.º 2.191, lançou em 2010 o Programa da Saúde da Família Fluvial para toda a região amazônica legal e pantaneira. Dessa maneira, o Abaré I foi integrado ao SUS e credenciado como a primeira Unidade Básica de Saúde Fluvial (UBSF) do Brasil. Em seguida, o PSA disseminou o modelo e adquiriu um segundo barco, o Abaré II. Com o tempo, outras UBSF passaram a levar atendimento e serviços básicos de saúde aos ribeirinhos que vivem em locais isolados. 

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Sala de emergência do barco-hospital
Imagem: Divulgação/Saúde e Alegria

Desde agosto de 2017 o Abaré pertence à Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Por isso, hoje é mantido pela instituição de ensino em acordo com a Prefeitura de Santarém, através da Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA); sendo a UFOPA responsável pela manutenção e guarda da embarcação, e a SEMSA pelas ações assistenciais de saúde. Por estar ligado ao ensino, o navio também funciona como um hospital-escola para atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Segundo Rui, o Abaré é uma conquista do Povo das Águas e foi desenvolvido no próprio território como um modelo de atenção à saúde específica, visto que a primeira portaria, de 2011, da Política Nacional de Atenção Integral do Campo, das Florestas e das Águas, ainda não incluía os ribeirinhos. “A população ribeirinha tanto do centro-oeste quanto da Região Amazônica reivindicou um modelo de atenção específica, porque a vida dela é toda beirando o rio e tem um contato muito forte com o ritmo das águas. Por isso, a população cobra a presença do Abaré”, conta.

Portanto, a inclusão dos ribeirinhos na Política Nacional de Atenção Integral do Campo, das Florestas e das Águas aconteceu somente em 2014, com a alteração da portaria. Com isso, o Abaré passou a seguir os princípios da Atenção Primária à Saúde (APS), que são: primeiro contato, longitudinalidade, integralidade, coordenação, abordagem familiar e enfoque comunitário. Princípios esses estabelecidos pela Portaria 648/GM de 28 de março de 2006, que instituiu a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), e que foram mantidos nas atualizações da PNAB de 2012 e 2017.

Para atender às diretrizes da APS,  “um conjunto de ações, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde (…) dirigidas a populações de territórios bem delimitados”, o Abaré oferece atendimento e cuidados em saúde bucal, pré-natal, prevenção, doenças crônicas e educação em saúde e sanitária. Chegando a oferecer cerca de 20 mil procedimentos anuais, como consultas, exames e cirurgias, bem como formação de agentes, oficinas de higiene e projetos de pesquisa. 

Para Rui, o barco-hospital marca a presença do Estado no território ribeirinho, auxiliando em questões que as comunidades não conseguem solucionar sozinhas. Isso além de levar a educação em saúde, tocando em pontos preciosos, tais como tratamento da água, uso do cloro, saneamento básico e higiene. “O Abaré é como se fosse uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que vai até à porta do ribeirinho; ela que flutua e não o paciente que tem que ir até lá, conseguindo acessar lugares distantes, levar atendimento de Atenção Básica, monitoramento e prevenção. Então, acho que é extremamente importante para a população”, salienta o antropólogo.

O Abaré na linha de frente contra a COVID-19

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Povos ribeirinhos recebem atendimentos contra a COVID-19 no Abaré
Imagem: Divulgação/Saúde e Alegria

Se a atuação do Abaré na saúde dos Povos das Águas já era de extrema importância antes da pandemia, com a chegada do Sars-CoV-2, vírus que causa a COVID-19, essa importância dobrou. Nesse sentido, Rui ressalta como a embarcação foi essencial para realizar o transporte de insumos básicos às populações, bem como distribuir máscaras, álcool em gel e medicações.

Segundo Rui, Eugenio Netto, médico, criador e coordenador do Projeto Saúde e Alegria desde 1987, e Manoel Edivaldo, mais conhecido pelo apelido de Peixe, morador da comunidade de São Francisco do Rio Arapiuns e atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém (STTR), e da cooperativa dos trabalhadores agroextrativista do Oeste do Pará, ao prever o impacto que a doença teria sobre esta população que precisa se deslocar constantemente à cidade para ter acesso aos serviços básicos, foi necessária a construção de uma rede de parceiros locais para evitar o alastramento do vírus. 

Assim, a PSA juntou-se aos agentes de saúde, à UFOPA, ao STTR, ao Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, e a demais movimentos e organizações quilombolas e indígenas da região para oferecer assistência à comunidade ribeirinha. Peixe conta que a organização em rede deu-se a partir da campanha “Saúde e Alegria Sem Corona”, a qual recebeu recursos externos e mobilizou equipes para a entrega de insumos básicos. “Cada material era entregue e recepcionado pelas lideranças das equipes, como presidentes de comunidades ou associações, delegados e delegadas sindicais, caciques, Agentes Comunitários de Saúde, professores, representantes de pescadores, entre outros. Tudo para evitar aglomerações”, detalha. 

As equipes que viajam nas missões do Abaré são compostas por médico, enfermeiros, técnicos em enfermagem, dentista, técnico em saúde bucal, farmacêutico e tripulantes; todos devidamente testados para a presença de Sars-CoV-2. Além disso, o barco fica ancorado num local distante das comunidades, portanto somente os profissionais de saúde pisam em terra para atendimento, com ajuda de lanchas para longos deslocamentos e uso permanente de Equipamento de Proteção Individual (EPI) e máscaras Face Shield fabricadas pela UFOPA. 

Conforme informa Eugenio, foram cobertas mais de 10 mil famílias da área ribeirinha, com identificação daquelas com carência alimentar e em situação de risco. A campanha entregou kits de higiene constituídos de sabão de coco, água sanitária, pano de chão, máscara, luva de limpeza, pano de prato e álcool. “São coisas que uma pessoa que não tem dinheiro para comprar comida não vai comprar”, afirma o médico. E continua: “Conseguimos doações e mobilizamos redes de parceiros doadores do Saúde e Alegria. Por isso, montamos e distribuímos quase 200 toneladas de materiais para 10 mil famílias”. 

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Kits de higiene são distribuídos à população ribeirinha por meio do barco-hospital
Imagem: Divulgação/Saúde e Alegria

Já as cestas básicas de alimentos entregues foram priorizadas em famílias numerosas, com mãe solteiras ou em situação de risco e gestantes. Tudo de modo a evitar que essas pessoas tivessem que frequentar espaços com alta circulação de pessoas para se alimentar. Ademais, junto aos Agentes Comunitários de Saúde, foi possível identificar as necessidades das UBS da região e captar equipamentos de saúde e de proteção para os profissionais do interior. 

Além das distribuições de alimentos e produtos de higiene, e atendimentos em saúde proporcionados pela navegação do Abaré, a UFOPA aplicou testes rápidos na maiorias das comunidades e ainda houve uma grande campanha educativa em prol da conscientização dos ribeirinhos. Programas de rádio e distribuição de materiais didáticos foram medidas tomadas. “Os barcos foram higienizados com água sanitária e indicamos cuidados. Então, se alguém tivesse que ir à cidade, iam as mais jovens, que fariam compras para todos, higienizariam os produtos e trariam no barco”, explica Eugenio. 

O criador e coordenador do PSA destaca que foi uma criada uma rede junto aos delegados sindicais, conselhos higienistas, conselhos de saúde, Secretária Especial de Saúde Indígena (SESAI), Fundação Nacional do Índio (Funai) e Secretaria Estadual para a arrecadação de recursos e cobertura de toda a população das águas. “Nós trabalhamos no sentido de apoiar o poder público. Conseguimos concentradores de oxigênio, máscaras Full Face, balas de oxigênio, máscaras Face Shield e uma rede de costureiras para a realização das máscaras”, diz. 

O antropólogo Rui Harayama frisa que as escolas também desenvolveram um papel essencial no local. Isso porque cederam espaços para atendimentos em comunidades,  e auxiliaram no repasse da compra direta de merenda escolar, garantindo a segurança alimentar dos alunos. “O Abaré não é só um modelo de atenção à saúde do ponto de vista biomédico, ele também leva outros tipos de cuidado. Então, no processo da pandemia, realiza o atendimento mais específico da síndrome gripal, monitorando os casos, e também se transforma num veículo de cidadania ao distribuir insumos e materiais básicos”, acentua. 

Solidariedade e SUS que vencem os desafios ribeirinhos

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Através do barco-hospital Abaré, a saúde é levada aos Povos das Águas
Imagem: Divulgação/Saúde e Alegria

Como exposto, muitos cuidados foram tomados para conter o espalhamento do novo coronavírus nas comunidades ribeirinhas. Contudo, a doença chegou, se instalou e fez muitas vítimas entre a população. Isso porque, apesar de todos os esforços dos movimentos e atores sociais envolvidos, as próprias características do território impossibilitaram o completo isolamento social. 

Manoel Edivaldo, o Peixe, comenta que, desde o início dos casos confirmados no país, em fevereiro de 2020, já era esperado que o vírus chegasse ao território amazônico e impactasse os Povos das Águas: “O deslocamento entre as comunidades ribeirinhas e a cidade é constante, pois é necessário suprir necessidades, como comercializar produtos, sacar dinheiro, comprar alimentos, etc, por isso as aglomerações são inevitáveis”, relata. 

Eugenio Netto complementa que, como as comunidades ribeirinhas vão até à cidade de Santarém para suprir suas necessidades e Santarém é diretamente ligada a Manaus – primeiro local a colapsar devido à quantidade de casos da doença -, a tragédia já estava prevista. “Num primeiro momento, as comunidades tiveram que sobreviver por remédios caseiros, porque não havia como acessar o serviço público que já estava colapsado em Santarém. Estamos tendo uma segunda onda e está de novo colapsado o município”, lamenta.

De acordo com Rui, a pandemia somente escancarou um problema que há anos é debatido na região. “Quando falamos da população ribeirinha, não adianta só isolá-los e evitar que saiam de suas comunidades. Se você não dá instrumentos para que eles permaneçam nelas, como acesso aos insumos básicos de alimentação, como eles vão viver? Resumindo, como é possível pensar que o modelo de Atenção Primária à Saúde vai ser o mesmo no país todo, quando falamos de regiões de grandes áreas isoladas e com pouca população como essas?”, questiona. 

Nesse contexto, o antropólogo critica a falta de financiamento e recursos nas UBS ribeirinhas, um problema crônico que se arrasta pela região e que piorou com o coronavírus. 

“As equipes de saúde são sempre escassas e tivemos algumas UBS ribeirinhas que não tiveram uma adequação apropriada para o enfrentamento da COVID-19 e para a Atenção Básica como um todo. Para fazer com que o cenário fosse um pouco melhor no território, deveríamos ter equipamentos mais robustos para fazer o atendimento e acolhimento da população”, declara. 

Peixe comenta que a demora da ação por parte dos governos municipal, estadual e federal para um trabalho preventivo, educativo e assistencial logo que foi anunciada a chegada do vírus no país, além da falta de atendimento em saúde nas comunidades ribeirinhas e ações por parte de algumas lideranças comunitárias foram os principais obstáculos na lutra contra a COVID-19. 

Apesar de tudo isso, experiência com o Abaré na linha de frente contra a pandemia tem sido permeada de conquistas e vitórias ao promover saúde gratuita e de qualidade às comunidades ribeirinhas. Com grande destaque para a solidariedade e para o SUS. “Nessa hora superamos as diferenças. Podemos nos juntar por um bem maior, respeitar os mais frágeis. Além disso, ficou a lição do quanto precisamos de um sistema público de saúde de qualidade, amplo e com equidade, que atenda a todo mundo respondendo a emergências”, finaliza Eugenio. 

Ainda em relação ao SUS, Peixe complementa que a pandemia expôs ainda mais como é preciso melhorar os recursos de saúde para atender às demandas e necessidades das comunidades ribeirinhas da Amazônia. Embora os recursos tenham sido insuficientes,  foi reafirmada a importância do SUS como patrimônio para o povo brasileiro, principalmente aos que tem pouco poder aquisitivo, as pessoas mais vulneráveis. Daí a necessidade de mais investimentos na infraestrutura das UBSs  e das Unidades Fluviais de Saúde Ribeirinha”, opina. 

O SUS tem uma enorme importância aqui na região norte, pois a população é quase toda dependente dele. Inclusive em alguns procedimentos de média e alta complexidade, o SUS é a única saída possível. Então, o sistema público de saúde é uma questão central que mobiliza a população. Penso que mesmo sendo extremamente subfinanciado, o SUS conseguiu dar uma resposta aos Povos das Águas durante a pandemia”, conclui Rui.

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