Autoria: Janaina Goulart.

Descrição da obra: O período em que vivemos é extremamente doloroso, mas podemos buscar espaço nos nossos pensamentos para identificar algumas pequenas coisas boas, antes imperceptíveis. A obra tenta dar luz à estas pequenas coisas, que, não menos poderosas, permitem alguma leveza ao cotidiano.

Expressão: Literatura.

 

Algum alívio 

 

O café tenta me levantar da cama fazendo cócegas no meu nariz. Eu quero levantar, mas tá tão bom aqui com a brisa do vento fazendo a cortina dançar e as luzes brincarem de esconde-esconde na parede. 

Tem alguém assobiando um sambinha lá no pilotis, parece Cartola. A manhã de outono conforta o coração enquanto o mundo está caindo. Eu me apego a coisas que antes não dava atenção. Estiveram sempre lá. Faltava que eu as reconhecesse no meu dia, no meu tempo, na minha falta de mim mesma. 

As árvores lá fora são as mesmas há tantos anos. A poeira dos meus pensamentos não me deixava vê-las inteiras, mesmo gostando tanto do zunir que fazem quando o vento está forte, ou das casinhas de joão-de-barro que abrigam pacientemente, por tantas crias de uma mesma família. 

As pessoas não parecem contentes. Falta poesia, falta empatia, falta dinheiro e a fome vem. Sem poder sair de casa para evitar um mal maior, todos se esforçam sem saber para onde a curva vai. 

A curva que ninguém quer ver subir, mas muitos não se animam a agir para que não suba. O ser humano é mesmo estranho. Faz mal a si, como se não bastassem os males que desafiam nossa presença no planeta. 

O ser humano não tem deixado o planeta respirar. Até parece, tem horas, que o planeta se defende e responde à altura, tirando o ar dos pulmões desse habitante tão insípido e nada cortês. 

03/05/2020 

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