Nas redes sociais circulam notícias sobre alimentação e Covid-19 com diferentes enfoques. Somos informados sobre listas de alimentos e nutrientes que podem aumentar nossa imunidade e nos proteger do coronavírus, orientações para higienização dos alimentos, cuidados com o preparo das refeições, organização da rotina durante o isolamento, e também notícias sobre as dificuldades das famílias e indivíduos no acesso à alimentação adequada durante a pandemia, além da divulgação de importantes iniciativas de colaboração e solidariedade, especialmente às populações mais vulneráveis. 

Neste texto vamos propor uma reflexão sobre alimentação à luz do “Guia Alimentar para População Brasileira” e do “Guia Alimentar para População Brasileira em tempos de covid-19”. Antes de iniciarmos, gostaríamos de deixar claro que, embora nosso foco esteja no cuidado das pessoas com deficiência, não abordaremos dietas especiais ou dirigidas para indivíduos com  deficiências específicas. Nosso intuito aqui é refletir sobre o direito humano à alimentação adequada (DHAA) que beneficiará a todos, sem exceção, além de fornecer algumas orientações sobre o assunto. 

Em primeiro lugar, é preciso entender que a alimentação é muito mais do que o ato de comer ou ingerir nutrientes. É sobretudo um ato político, capaz de gerar novos valores e modos de vida sustentáveis. Participa dessa ação política toda uma cadeia de produção agrária que envolve acesso à terra, produção de sementes, plantio, distribuição e descarte.

A escolha dos alimentos não é uma escolha apenas individual, depende do local de moradia, do valor dos alimentos, de hábitos sociais e culturais e de políticas públicas. Por isso, para uma boa orientação nutricional é importante reconhecer todos esses aspectos. 

Figura 1 – Alimentos in natura

Na hora de escolher, lembre-se que alimentos in natura ou minimamente processados devem ser preferidos. Uma base de alimentos de origem vegetal como a combinação de um cereal e uma leguminosa, o nosso típico arroz com feijão, acompanhada de alimentos de origem animal costuma ser excelente fonte de nutrientes. Os alimentos extraídos de comestíveis in natura, como óleos, gorduras, açúcar e sal, devem ser ingeridos em pequena quantidade. Deve-se restringir o consumo de alimentos processados, daqueles que adicionam sal e/ou açúcar para conservação, e evitar os ultraprocessados, aqueles cuja fabricação envolve diversas etapas e técnicas de processamento e vários ingredientes, muitos deles de uso exclusivamente industrial. Para saber mais sobre combinação de alimentos acesse o guia alimentar para população brasileira

Em tempos de covid-19, pode ser importante planejar as refeições. Faça uma lista de compras que inclua alimentos in natura e minimamente processados. Ter uma lista evita esquecimentos e minimiza as idas ao mercado ou centros de abastecimento. Prefira ir às compras em horários alternativos ou faça compras on-line.

Antes de colocar os insumos na geladeira, lave as embalagens com água e sabão e borrife álcool 70% ou água clorada. Retire frutas e verduras da embalagem e higienize-as com solução de hipoclorito se forem para a geladeira. As frutas mais resistentes, como maçã, laranja, melão, abacaxi, devem ser lavadas apenas antes do consumo. 

Para evitar desperdício e minimizar ida às compras, vale a pena conhecer técnicas de armazenamento e conservação de alimentos

O cuidado com a manipulação dos alimentos é uma medida importante para reduzir os riscos de contaminação. Recomenda-se lavar as mãos antes de manipular os alimentos, evitar tossir ou espirrar sobre eles, evitar consumir carnes e ovos crus, higienizar frutas, verduras e legumes em água corrente e colocá-los em solução de hipoclorito e manter os alimentos protegidos em embalagens ou recipientes. A cozinha deve ser mantida limpa, arejada e organizada. Deve-se dedicar tempo para limpar geladeira, fogão, armários, prateleiras, chão e paredes. 

Durante as refeições, um ambiente apropriado favorece a concentração durante o ato de comer, por isso deve-se evitar usar telefones celulares ou deixar a televisão ligada. É importante que as refeições tenham regularidade e duração adequadas e, embora o ato de comer com companhia seja recomendado, por evitar que comamos muito rapidamente e por ajudar a desfrutar de modo mais completo a refeição, neste momento de distanciamento social essa recomendação deverá ser relativizada, principalmente no sentido de evitar exposição ao risco de contaminação.

Importante destacar os obstáculos que podem dificultar a adoção dessas orientações, incluindo escassez de informações confiáveis sobre alimentação, problemas relacionados à oferta de alimentos in natura ou minimamente processados, custo relativamente alto de legumes, verduras e frutas, enfraquecimento da transmissão de habilidades culinárias, falta de tempo, além da publicidade massiva de alimentos ultraprocessados. 

Fazer escolhas requer mais do que vontade individual. Há a necessidade de adoção de políticas públicas e ações regulatórias do Estado. É importante incentivar a participação cidadã das pessoas, comunidades e organizações da sociedade civil nessa discussão. 

Infelizmente, hoje, no Brasil, estamos assistindo, perplexos, a medidas governamentais que vão em direção oposta a essas recomendações. Citamos a expansão do agronegócio em detrimento do incentivo à agricultura familiar, a ampliação da liberação do uso de agrotóxicos, a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), o crescente número de brasileiros em situação de miséria e fome. No contexto da pandemia pela Covid-19 e aumento de vulnerabilidades, olhar para nossa alimentação como um ato político é medida necessária e urgente.

Versão em Libras:

Referências:

https://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf

https://www.asbran.org.br/storage/downloads/files/2020/03/guia-alimentar-covid-19.pdf

http://www.scielo.br/pdf/ea/v31n89/0103-4014-ea-31-89-0185.pdf

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/25882-extrema-pobreza-atinge-13-5-milhoes-de-pessoas-e-chega-ao-maior-nivel-em-7-anos

https://idec.org.br/noticia/consea-permanece-extinto-apos-manutencao-do-veto-de-bolsonaro

https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2019/11/28/com-novas-aprovacoes-liberacao-de-agrotoxicos-ja-e-o-maior-da-historia.htm

Créditos das imagens: Congerdesign no Pixabay (Imagem principal); Sansoja no Pixabay (Figura 1)

 

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