Autoria: Petrus Faria

Descrição da obra: Trata-se de uma explanação fictícia sobre um homem que tenta encontrar o sentido da arte em tempos de pós-Corona.

Expressão: Literatura

 

Ano 1 d.C. – carta aberta

 

Estamos no ano 1 depois do Corona. Antigamente chamavam de “novo” Corona. Cortamos o adjetivo, pois ninguém se lembra do Corona anterior. Antigamente é um termo que, nos tempos de agora, define tudo que precedeu o atual coronavírus. Antiga é, por exemplo, qualquer pessoa letrada e a maioria das iletradas. Os que morreram durante o Corona foram enterrados em um mundo antigo. O que não é antigo ainda engatinha. É o caso de Tirésias – cujo nome já era antigo antes da civilização atual. Ele nasceu com os olhos voltados para dentro. Alguns dizem que só enxerga a própria escuridão. Outros que, mesmo sem enxergar, ele contempla a luz e o breu que cada um traz dentro de si. Há quem prefira dizer que ele vê, como se esculpidos em ébano, os sentimentos das pessoas. Não sei se essa faculdade tornaria sua vida mais fácil. Sei que escrevo sobre ele na busca de uma metáfora.

Enquanto escrevo, dada a proximidade distante dos vizinhos, ouço quando Tirésias chora. Não sei o motivo do pranto. Se chora para atrair cuidados para si ou se seu pranto se derrama feito um manto noturno a envolver os dias, feito os braços de uma madona a enlaçar uma criança cuja vida se extingue, mas cujo calor, na inconsciente resiliência da matéria orgânica, todavia irradia uma esperança abstrata, quase metafísica.

A sirene do choro de Tirésias é sangue que circula, vida que pulsa em emergência; não encerra em si nenhum parentesco com a morte, nem mesmo aquele que se dá entre primos distantes com rios cumpridos de volumosos leitos apartando as terras em que se ergueram suas casas, em que se edificaram suas meninices, em que a juventude fez seus puxadinhos. À margem da meia idade, dessas terras se evadiram em busca de águas frescas em que se poderiam banhar, em que poderiam submergir ávidos pela descoberta de Atlântida ou pela reinauguração, não de reinos, mas de anarquias submersas.

As águas mudam, os homens mudam, as mudas dão em plantas, as plantas dão em casas, os homens se mudam das casas, banham-se em outros rios, tornam-se outros homens, perdem-se e se encontram desde Heráclitos a Caetanos, desde Chopins aos herdeiros de Miltons, em odisseias (ou ulisseias) que apalpam a terra para que as rosas e os Rosas se semeiem entre os olorosos pigmentos de Van Gogh e os táteis girassóis das almas em dança.

O mundo é reticente feito o choro de um bebê desprovido da faculdade da visão, alertando, às cegas, a vizinhança sobre sua fragilidade milagrosa, sobre nossa fragilidade bruta, sobre a frágil metáfora rediviva quando todos já se amarguravam, já se enterravam em trajes escuros para curtirem o luto da literatura, para espalharem as últimas notas em torno ao sepultamento do derradeiro suspiro da música.

Estamos no ano 1 d.C. e, ao contrário do que pregavam os prognósticos proféticos, na contramão do que rezavam os céticos cientistas, a arte não ruiu.

Não se sabe se em algum momento Deus morreu, ou que deuses restaram. Sabe-se que as musas persistem em seu canto, sente-se que as sereias podem desafinar eventualmente, mas não perderam seus encantos ou encantamentos.

Ouço daqui, dessa proximidade distante que a todos avizinha, o silêncio festivo de Tirésias. Ele cedeu ao sono, posso adivinhar. Afunda-se e se aprofunda em aventura onírica, certamente, embevecido pelas ondas físicas e sonoras que ecoam pelo tecido labiríntico de seu diminuto corpo, como se os dedos de uma sereia, evocação estética de alguma musa ruiva de Gustav Klimt, tamborilasse teclas invisíveis sob sua pele amalgamada de sonhos que o precedem e de esperanças que embalam a eternidade nos volteios do berço.

Seus olhos fechados, abertos para dentro, amaciam o horizonte, feito as  águas que, ora cristalinas, ora turvas, lapidam nas velhas pedras os renascidos homens.

 

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