Em memória às obras do célebre artista visual Arthur Bispo do Rosário, comemoramos o tão importante dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Essa data tão importante representa a luta pelo fechamento das instituições manicomiais e sua substituição por serviços abertos, de atenção territorial, respeitando os direitos humanos de seus pacientes, comprometidos em oferecer um cuidado humanizado.

Arthur Bispo do Rosário é um artista visual brasileiro que construiu suas obras trilhando os caminhos da arte e da loucura, sendo reconhecido nacional e internacionalmente. Nasceu na cidade  de Japaratuba/SE no ano de 1909. Em 1925 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Marinha Brasileira e na companhia de eletricidade Light. No ano de 1938, conta ter visto Cristo descer do céu, em direção à terra, rodeado por uma côrte de anjos azuis, e partir deste momento acreditou ter recebido a missão de recriar o mundo e apresentá-lo a Deus, no dia do Juízo Final. Logo após sua visão, Bispo se abrigou em um monástico, local no qual continuou determinado a cumprir a missão que foi-lhe conferida. Então é encaminhado ao Hospital dos Alienados, na Praia Vermelha, onde recebe o diagnóstico de esquizofrenia paranóide. Não apresentado melhora, por fim, é encaminhado à Colônia Juliano Moreira, instituição em que permaneceu até a sua morte, em 1989.

Bispo utilizava objetos cotidianos da Colônia para criar suas obras, como canecas de alumínio, botões, colheres, madeira de caixas, calçados, garrafas, entre outros. Produziu também obras por meio da técnica do bordado, utilizando como recurso lençóis, roupas e dos fios de seu uniforme, obtidos após desfiá-los. Assim, suas obras são pensadas para representar o mundo no dia do Juízo Final, criando-as de forma fidedigna aos mandos das vozes que afirmava ouvir. Para esse dia, preparou um manto que vestiria para apresentar-se diante de Deus.

Na década de 1980, através das reflexões advindas com o marco da arte contemporânea e com as mudanças assistenciais no campo da Saúde Mental, o trabalho de Bispo começou a ser reconhecido no setor das artes, culminando na exposição “À Margem da Vida” no Museu de Arte Moderno do Rio de Janeiro, em 1982. Atualmente suas obras estão reunidas no Museu Bispo do Rosário, localizado na antiga Colônia Juliano Moreira (ROSÁRIO, 2020).

A partir dos trabalhos de Bispo nos questionamos a respeito das definições do que seria considerado ou não um trabalho artístico, e sobre a utilização da arte no cuidado de pacientes em sofrimento psíquico. Hans Prinzhorn foi um psiquiatra que defendeu que todo ser humano possui um impulso criador, assim, mesmo com um diagnóstico psiquiátrico, essa força motriz seria capaz de ser expressa pela pessoa. O que coloca em questionamento as definições de arte como somente aquilo que uma pessoa produz com o fim de gerar um produto artístico. Já a psiquiatra Nise da Silveira, introduziu a terapia ocupacional como forma de tratamento de pacientes residentes em hospitais psiquiátricos, pois acreditava que a expressão através da arte tornaria possível a elaboração de emoções que até então, encontravam-se desorganizadas no inconsciente (THOMAZONI, FONSECA, 2011). A proposta de Nise foi inovadora em sua época, diante das inúmeras violências que os pacientes vivenciavam nas instituições psiquiátricas.

 

Texto escrito por Leticia Gomes Fonseca, estudante do quarto ano do curso de Terapia Ocupacional, na Universidade Federal de São Carlos. Atualmente desenvolve pesquisa no campo da saúde mental em interface com a cultura, gênero e relações étnico-raciais.

As fotografias das obras de Bispo do Rosário estão disponíveis em: http://museubispodorosario.com/bispo/.

 

Créditos da imagem: Equipe Saúde Mental e COVID-19

 

Referências 

BRASIL. Lei nº 10.216/2001 de 06 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.

BRASIL, Portaria nº 3.088 de 23 de dezembro de 2011. Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

CLAUS, Marta. Arthur Bispo do Rosário: a criação artística como reorganização do mundo. “Existência e Arte “- Revista Eletrônica do Grupo PET: Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei, 2006.

THOMAZONI, Andresa Ribeiro; FONSECA, Tania Mara Galli. Encontros possíveis entre Arte, Loucura e Criação. Mental, Barcelona – MG, p. 605-620, dez. 2011.

ROSÁRIO, Arthur Bispo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10811/arthur-bispo-do-rosario. Acesso em: 14  maio 2020.

 

Créditos da imagem: Festival CultivAR-TE

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