Você sabe por que existe o Dia do Índio e por que ele foi definido como o dia 19 de abril? É importante que esta data seja evidenciada não só no Brasil, mas em toda América Latina, já que, neste dia, lideranças indígenas se reuniram no México e descobriram que, diante de suas dificuldades, poderiam unir forças e exigir soluções dos governos dos países em que se encontravam suas terras. Este dia traz visibilidade e também provoca reflexões sobre a diversidade cultural, seu reconhecimento e a grande resiliência dos povos indígenas ao longo dos anos. Em virtude do mês dos povos indígenas, lembramos uma conquista coletiva para estes povos, que ocorreu ao final do ano de 2020: a apresentação de um documento desenvolvido no 58° Congresso de Educação Médica (COBEM), que trouxe visibilidade para a temática da presença e respeito nas escolas médicas brasileiras.

Leonardo Tuxá | Discente UFPel

O encontro aconteceu de forma remota, diferentemente dos anos anteriores, para atender às demandas sanitárias causadas pela pandemia de Covid-19, e teve como tema a ‘’Educação Médica em Tempos de Incertezas: Qualidade, Equidade e Construção Coletiva”. A partir da oficina “Pintando a Educação Médica com Jenipapo e Urucum: o que todo médico deve saber sobre a saúde dos povos indígenas’’, foi elaborada uma carta pelos participantes. A oficina foi organizada pelo Grupo de Trabalho Populações (In)visibilizadas e diversidades da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM) e pelo Grupo de Interesse Especial em Saúde Indígena da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Leonardo Maia, do povo Tuxá, estudante de medicina da Universidade Federal de Pelotas e um dos organizadores discentes da oficina, afirma que a participação indígena foi fundamental para dar protagonismo aos estudantes enquanto sujeitos da própria transformação social. “Também nos colocou em um lugar de produtores de conhecimento”.

A carta foi aprovada como moção na plenária do congresso e, posteriormente, embasou as Recomendações da ABEM para abordagem das questões indígenas nas graduações de medicina. O documento defende e viabiliza a temática dos povos indígenas e o cuidado em contexto intercultural nas escolas médicas, além de estimular a presença de povos indígenas em cursos de medicina e demais cursos da área da saúde. Lança, ainda, pontos relevantes a se considerar, como a evidência o fato de que temos, no Brasil, mais de 900 mil pessoas autodeclaradas indígenas e, destes, um terço vive em cidades enquanto o restante vive em áreas rurais (IBGE, 2010). Somam ao todo 305 povos diferentes, que falam cerca de 274 línguas, além de estarem espalhados por todo território nacional. “A oficina também serviu para valorizar o nosso saber intercultural, a nossa ciência, a nossa diversidade, os nossos conhecimentos, e também a nossa capacidade de produzir conhecimento, tanto para os nossos povos indígenas como para a população em geral”, defende Leonardo Tuxá.

Cecília Malvezzi – Docente UFSCar. (Acervo pessoal)

O texto contextualiza a Política Nacional de Saúde dos Povos Indígenas, que defende o acesso dos povos à atenção integral à saúde, de acordo com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política, de modo a favorecer a superação dos fatores que tornam essas populações mais vulneráveis aos agravos da saúde de maior magnitude, além de estimular a transcendência entre os brasileiros, reconhecendo a eficácia de sua medicina. Outro ponto a se considerar são as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em medicina pois defendem a formação do médico com responsabilidade social e compromisso com a defesa da cidadania, da dignidade humana, considerando as dimensões da diversidade étnico-racial, superando preconceitos de qualquer espécie e tratando as desigualdades com equidade. A fragilidade histórica na formação de profissionais que prestam assistência ao campo da saúde indígena no Brasil também é citada. Para a professora Cecília Malvezzi, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que também trabalhou na organização da oficina, a publicação “pode significar uma inflexão na mudança dos ventos, que hoje pode ser imperceptível, mas que ao longo do tempo nos leve a um lugar diferente, mais inclusivo.”

Vandicley Atikim-Umã – Discente UFSCar. (Acervo pessoal)

A carta descreve ainda a necessidade de mudança em relação à elevada porcentagem da população branca nas universidades, mesmo com a presença das políticas de ações afirmativas. Ademais, com o período de pandemia por Covid-19, houve uma evidência das desigualdades sociais e das condições de atenção à saúde dos povos indígenas do Brasil. Outro argumento é o da fragilidade de conhecimentos voltados para essa área no campo acadêmico dos cursos de graduação, o que demonstra uma indiferença a tais temáticas. Vandicley Bezerra, organizador discente e orador do grupo na plenária final, acredita que, a partir da carta, “as instituições de ensino superior de educação médica venham refletir sobre o quão importante é um estudante ou um médico ter esse conhecimento sobre saúde indígena”. Vandicley é indígena do povo Atikum-Umã e estudante de medicina da UFSCar.

O documento sugere à comunidade médica 16 pontos de recomendações com o intuito de favorecer a presença e visibilidade dos povos indígenas nas escolas médicas e incentivar práticas de ensino sobre os temas da saúde dos povos indígenas e das especificidades que envolvem o cuidado dessas populações.

 

 

Referências:

https://website.abem-educmed.org.br/recomendacoes-da-abem-para-o-ensino-da-saude-indigena/

https://www.sbmfc.org.br/gie-de-saude-indigena/

https://website.abem-educmed.org.br/projetos-e-acoes/comissoes-e-gts-2/

https://indigenas.ibge.gov.br/images/pdf/indigenas/folder_indigenas_web.pdf

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=15874-rces003-14&category_slug=junho-2014-pdf&Itemid=30192

 

Autores:

Raniel Martinha de Souza

Juliana Lisboa

Willian Fernandes Luna

 

One thought on “Associação de Educação Médica faz recomendações para o ensino da saúde indígena

  1. Mariana da Silva Jardim says:

    Feliz de ver essa pauta na educacao medica e por ela estar vindo sob o olhar/recomendacao/organizacao da propria comunidade indigena dentro da area da saude. Nao adianta pensar em saude indigena para indigenas, hoje percebo a importancia de se pensar saude indigena COM os indigenas. Triste por saber que levarao anos para fazer escolas de medicina e medicos entenderem a importancia do contato e do conhecimento em saude Indigena.
    Sou uma colega medica, privilegiada e que agradece o esforco e dedicacao de voces.

    (desculpa a falta de acentos, meu computador nao tem essa configuracao)

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