A vasta série de casas em declives e morros na comunidade Paraisópolis tornaram o bairro a segunda favela mais populosa da cidade de São Paulo, segundo estimativas, entre 70 e 100 mil habitantes. Separados por um muro dos vizinhos mais próximos: os luxuosos prédios do Morumbi, a favela reproduz o contraste da desigualdade social presente no Brasil.

De um lado, aqueles que vivenciam um cenário de oportunidades. De outro, aqueles que vivenciam um cenário de vulnerabilidade. Mas, apesar disso, no contexto da pandemia da COVID-19 a comunidade tem conseguido se articular em bem-sucedidas iniciativas de saúde para o atendimento de sua população.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Pólis, houve um aumento de 237% no número de mortes causadas pela doença entre maio e agosto deste ano. Entretanto, é fato que, já em março de 2020, Paraisópolis se consolidava com uma taxa de mortalidade média bem abaixo em comparação com a do município: 21,7 pessoas contra 56,2 por 100 mil habitantes.

E muito desse sucesso inicial na luta contra o Novo Coronavírus, que provoca a SARS-CoV-2 – doença que já ocasionou a morte de mais 100 mil brasileiros, segundo o consórcio de veículos de imprensa do Brasil – se deve às Organizações Não Governamentais (ONGs), associações de moradores e serviços de saúde instalados no bairro.

Dentre esses serviços destacam-se os de Atenção Primária à Saúde (APS) em Paraisópolis, realizados na região há mais de 15 anos pelo Hospital Albert Einstein. A APS, de acordo com a Portaria 648/GM de 28 de março de 2006 que instituiu a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), são um “conjunto de ações, no âmbito individual e coletivo, que abrangem a promoção e a proteção da saúde (…) dirigidas a populações de territórios bem delimitados”. Definição mantida nas atualizações da PNAB de 2012 e mesmo de 2017.

Hospital Albert Einstein e a Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis

Conhecido por ser uma das melhores instituições médicas privadas latino-americanas, o Hospital Israelita Albert Einstein, abrigado no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, é uma referência na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças na área da cardiologia, oncologia, ortopedia, neurologia e cirurgia.

Por se localizar no Morumbi, zona sul de São Paulo e região próxima à comunidade de Paraisópolis, desde 1998, realiza o Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis (PECP). Também definido como Centro de Apoio e Capacitação para a Atenção Especializada da Rede Básica, o projeto desenvolve atividades voltadas à saúde e educação, além de atendimentos diários e gratuitos à população local.

Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis
Unidade Morumbi do Hospital Israelita Albert Einstein.
Crédito: Divulgação

Por isso, estão presentes hoje na comunidade três Unidades Básicas de Saúde (UBS), um ambulatório de pronto-socorro e um Centro de Promoção e Atenção à Saúde (CPAS). Todos implantados e geridos pela Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein (SBIBAE) em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

Essa parceria público-privada começou em 2001, com o intuito de implementar e gerir unidades e equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), um modelo assistencial proposto pelo Ministério da Saúde em 1994 para reorganização e fortalecimento da atenção primária à saúde no Brasil.

O modelo assistencial da ESF, segundo o site oficial do Hospital Albert Einstein, “busca favorecer a aproximação da unidade de saúde às famílias, promover o acesso aos serviços, possibilitar o estabelecimento de vínculos entre a equipe e os usuários, a continuidade do cuidado e aumentar, por meio da corresponsabilização da atenção, a capacidade de resolutividade dos problemas de saúde mais comuns, produzindo maior impacto na situação de saúde local”.

Em decorrência disso, atualmente a SBIBAE atua “na região da Supervisão Técnica de Saúde de Campo Limpo, pertencente à Coordenadoria Regional de Saúde Sul, de São Paulo, em 13 Unidades Básicas de Saúde (UBS), com 87 equipes de saúde da família (eSF), 30 equipes de saúde bucal (eSB) e 06 Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASF), totalizando atualmente 1.128 profissionais”, conforme informações do portal oficial do hospital.

 

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Principal porta de entrada de Paraisópolis no SUS 

Segundo a professora de medicina da Faculdade Israelita de Ciência da Saúde Albert Einstein Patrícia Chueiri, os serviços de Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis são a principal porta de entrada dos moradores para o Sistema Único de Saúde (SUS). “As unidades são bem cuidadas, a integralidade é bem feita e os princípios da APS estão sendo respeitados, incluindo a orientação familiar e comunitária”, conta a profissional.

Conforme consta na página oficial do hospital, o Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis já ofereceu cerca de 4,2 milhões de atendimentos, disponibilizando “atendimento médico especializado e multiprofissional (assistência social, assistência materno-infantil, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia, nutrição, terapia ocupacional), exames complementares de laboratório e imagem, atividades educativas, medicamentos órteses e próteses”.

Apesar disso, as três Unidades Básicas de Saúde instaladas na comunidade não cobrem toda a população. Na verdade, de acordo com Patrícia, o fazem apenas em 70% do território e apresentam problemas estruturais. Entre eles, o número de pessoas por equipe e o rodízio constante de profissionais no atendimento aos moradores. O que dificulta a criação de uma cultura de familiaridade e aproximação entre médicos, enfermeiros e pacientes.

Para a professora, essa dificuldade de aproximação com os moradores se constitui como um dos principais desafios ainda persistentes na adoção da Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis. Principalmente para os alunos de medicina do Einstein, que realizam o internato hospitalar (estágio obrigatório do curso) no local. “Os alunos não têm um ambulatório, eles ficam andando junto com a equipe médica, o que dificulta nessa questão da aproximação”, aponta.

Já de acordo com Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, a relação dos moradores com as Unidades de Saúde tem se mostrado eficiente nos últimos anos. “O programa Saúde da Família consegue monitorar os moradores de forma eficaz e os agentes comunitários são da própria comunidade, então, acabam se relacionando mais com as famílias”, conta ele.

Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis
Complexo de Saúde de Paraisópolis inaugurado em 2011 contendo a terceira Unidade Básica de Saúde (UBS), o terceiro Centro de Apoio Psicossocial Adulto (CAPS) e Assistência Médica Ambulatorial (AMA) 24 horas.
Crédito: Divulgação/ Prefeitura Municipal de São Paulo.

A Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis no meio da pandemia de COVID-19

Os serviços de Atenção Primária à Saúde são compreendidos como a porta de entrada às Redes de Atenção à Saúde. Afinal, ao buscar uma unidade de referência em sua comunidade, o indivíduo, em contato com a APS, passa a receber um cuidado integral e atento. 

Sendo assim, desde a Portaria 648/GM de 28 de março de 2006, que instituiu a Política Nacional de Atenção Básica, é função do serviço proporcionar ações de caráter individual e coletivo, garantir acesso a diversas unidades de atendimento que resolvam as necessidades do paciente e ordenar o funcionamento das diversas redes de saúde. E, num contexto de pandemia como o atual, a iniciativa se torna ainda mais essencial.

Os três serviços de Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis continuam cuidando de pessoas com doenças crônicas e gestantes ao mesmo tempo em que orientam moradores sobre o isolamento social, a fim de evitar o contágio por coronavírus. “Chegamos a ter oito ambulâncias de gravidade em um dia. Também temos uma equipe de avaliação e telemonitoramento de casos sintomáticos leves. O médico fazia a primeira avaliação e outros profissionais reforçavam os cuidados ao longo dos dias. E a APS é isso, né?”, detalha Patrícia Chueiri.

Entre as funções da Atenção Primária à Saúde, uma que se destaca é a capacidade de resolução. Por meio da comunicação com diversos serviços de saúde e da compreensão das condições culturais da região em que atua, a APS é capaz de se articular para tornar o sistema de saúde mais eficiente.

Sobre essa capacidade, Patrícia aponta que foi importante realizar parcerias com diversos agentes de Paraisópolis já no começo da pandemia. “Fizemos uma ótima parceria com os gerentes das unidades básicas de saúde e pronto-atendimento. Além da associação de moradores principal, também fomos articulando com lideranças religiosas, outras associações de moradores e de mulheres para ocupar espaços no território”. 

Ainda a esse respeito, o instrutor médico do Hospital Israelita Albert Einstein, Alexandre Sizilio define que foi necessário estabelecer relações articulando tecnologias de organização e atores para melhorar o atendimento na comunidade. “A gente precisava que os moradores soubessem as iniciativas disponíveis para potencializar o combate à pandemia”.

 

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Projeto Casulo: união entre Einstein, ONG e moradores

Em relação ao Novo Coronavírus, Paraisópolis tem demonstrado um diferencial quando comparada a outras comunidades de São Paulo. Na comunidade, o combate a pandemia tem sido resultado de uma atuação conjunta que envolve o trabalho de diferentes organizações da sociedade civil e diversos agentes de postos de saúde. 

Resultado dessa atuação integrada, o Projeto Casulo criou um centro de isolamento na comunidade de Paraisópolis em uma das escolas do bairro. Com o envolvimento da Faculdade Albert Einstein, da ONG Parceiros da Educação e da União dos Moradores e do Comércio da comunidade, a iniciativa propõe um espaço de isolamento para pessoas infectadas pelo Coronavírus na pandemia.

Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis
Camas dispostas em uma das escolas usadas no Projeto Casulo.
Crédto: Divulgação/ Governo do Estado de São Paulo.

Além da ação, o Casulo também oferta outros benefícios para os moradores de Paraisópolis. Entre eles: testes RT-PCR, exame que identifica e confirma a COVID-19, álcool em gel, máscaras para 14 dias, para caso o paciente prefira permanecer em sua residência, e acompanhamento da pessoa.  

Como explica a professora de Medicina da Faculdade Israelita de Ciência da Saúde Albert Einstein e uma das idealizadoras do projeto Casulo, Patrícia Chueiri, a oferta de itens é fruto de uma construção entre moradores e agentes de saúde. “É óbvio que é muito difícil as pessoas saírem de suas casas para um centro de isolamento. Então, também teve um aprendizado: é uma oferta e a pessoa vai se quiser. Tínhamos uma expectativa de que muitos iriam preferir se isolar ali, mas não aconteceu. Aí revimos e ofertamos mais máscara e álcool em gel”.

Apesar de Patrícia lamentar a baixa hospedagem de moradores no centro de acolhimento, cerca de 50% dos testados positivos para o Coronavírus até o momento de abertura do Casulo chegaram a se isolar no local, segundo Gilson: “Conseguimos isolar 583 pessoas das 1.155 que haviam sido contaminadas até o início do projeto. Além disso, os agentes comunitários de saúde, que monitoram as famílias de risco e os idosos, puderam contar com o apoio dos presidentes de rua, que, a cada 50 casas cuidam de 50 famílias, monitorando e acompanhando e fazendo chegar rápido o socorro quando necessário”. 

Diferentes perspectivas 

Segundo o Mapa da Desigualdade 2019, feito pela Rede Nossa São Paulo, a Vila Andrade, distrito de São Paulo onde Paraisópolis se localiza, tem a maior proporção de domicílios em favelas em relação ao total de domicílios na cidade: 49,15%. De acordo com o mesmo estudo, o índice de emprego formal a cada dez habitantes com idade ativa na região é de 2,33%. 

Assim, mesmo tratando-se de uma atitude recomendada pela comunidade científica, o isolamento social acabou sendo furado por moradores que precisavam sair de casa para manter os vínculos informais. Mais que isso, segundo entrevista de Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis para o portal Ecoa, 60% da população que trabalha em Paraisópolis é formada por diaristas, empregadas domésticas, porteiros e motoristas de aplicativos.

Contudo, de acordo com Patrícia, essa realidade não atrapalhou a atuação da Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis. “Não foi conflituosa a relação com os moradores. Acho que foi mais um aprendizado sobre o local”. 

Outro ponto que merece destaque na atuação do sistema de saúde em Paraisópolis no contexto da pandemia é a atividade da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. De acordo com Patrícia, diversas mudanças de protocolos feitas pela Secretaria prejudicaram o fluxo de trabalho dos médicos e ignoraram a importância da APS: “Apostamos mais na Atenção Primária do que a Secretaria, que deslocou muitos profissionais e não teve esse olhar pro cuidado primário que, no contexto da comunidade, é a principal abordagem em relação ao Coronavírus. Então, estávamos sempre avisando o que estávamos fazendo, mas fazíamos coisas além, por autonomia mesmo”. 

Resultados

Por mais que a pandemia não tenha acabado e que os números apontem que os efeitos do Coronavírus ainda estejam distantes de um fim, a atuação da APS em Paraisópolis já gerou alguns efeitos. Segundo Patrícia Chueiri, da perspectiva do aprendizado para os trabalhadores da área médica, o processo tem se mostrado valioso. “Nosso atendimento não parou. Então, os alunos que estavam no serviço puderam ver as transformações positivas e negativas da rotina. Também nos aproximamos das UBS e do território”.

Atenção Primária à Saúde em Paraisópolis
Outra escola utilizada como local de isolamento para os moradores de Paraisópolis.
Crédito: Divulgação/ Governo do Estado de São Paulo.

Já de acordo com Alexandre Sizilio, por mais que não se estenda a todos os moradores, a estrutura do Sistema de Saúde em Paraisópolis foi um dos elementos responsáveis pelos resultados da comunidade. “Mesmo eu tendo críticas, que compartilho com colegas atuantes na Atenção Primária à Saúde, ao governo Federal e ao governo do Estado de São Paulo na pandemia, a existência de uma rede de atendimento básico à saúde gerou frutos. Também tenho a convicção de que se o combate fosse um pouco mais organizado, poderíamos ter feito ainda mais”.

Por fim, mesmo com as variações características da taxa de mortalidade, Paraisópolis, assim como todo o mundo, segue no desafio de se acostumar a um “novo normal”, com mais higiene e distanciamento social. “O que pretendemos fazer agora é manter esse trabalho funcionando e criar alternativas para que as pessoas possam ter trabalho e renda, e acesso a produtos de higiene, principalmente máscaras e álcool em gel”, finaliza Gilson.

Texto por Daniele Olimpio de Campos e Matheus Rodrigo dos Santos

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