O cuidado paliativo objetiva aliviar o sofrimento humano desencadeado pela vivência de um adoecimento grave. Tais práticas consistem em cuidados holísticos ativos, compreendendo o sujeito como um ser dotado de valores e desejos associados a um repertório biográfico. Dessa maneira, em um processo avaliativo, ao constatar a presença da dor, faz-se necessário um olhar ampliado do profissional de saúde para que ele possa entender as dimensões envoltas nessa manifestação.

Uma das esferas da dor que acarreta sofrimento é a dimensão emocional, tema de interesse da psicóloga Daniela Cristina Mucinhato Ambrósio, nossa convidada para esta entrevista. 

Professora de graduação e tutora de pós-graduação em Psicologia da Universidade de Araraquara (Uniara), mestre em Ciências pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP – USP), especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia e especializada em Cuidados Paliativos e Terapia de Dor pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Daniela afirma que, quando abordamos a temática da dor em cuidados paliativos, especialmente sob a ótica emocional, é preciso estar atento à relação do indivíduo em cuidados paliativos com a família e também olhar para as dores e sofrimentos dos familiares, englobando as pessoas do círculo sociofamiliar no processo de assistência. 

Ela explica que o modo como quem está ao redor vai se sentir e reagir frente à doença e às dores da pessoa em cuidados paliativos interfere diretamente na forma como ela vai vivenciar esse processo, tornando-se necessário o cuidado de todos os envolvidos, inclusive dos profissionais que os assistem: em suas dores, seus sofrimentos e seus lutos. Os profissionais também têm dores e lutos, especialmente nesse momento de pandemia.

Considerando o conceito de dor total empregado nos cuidados paliativos, quais são os principais aspectos vinculados à dimensão emocional que devem ser observados?

Quando falamos sobre a dimensão emocional da dor em cuidados paliativos, devemos lembrar em primeiro lugar que, pelo próprio conceito de dor total, essa dimensão não se desvincula dos demais aspectos que envolvem a condição física, espiritual e social. Todos eles são intrinsecamente relacionados. Nesse sentido, ao avaliarmos a dor que o indivíduo e a família em cuidados paliativos apresentam, precisamos estar atentos a medos, temores, isolamento ou introversão, expressões de solidão, tristeza, raiva, ansiedade e depressão. Além disso, é importante observar questões relacionadas a conflitos familiares, problemas profissionais e/ou financeiros, dificuldades de comunicação, sentimento de culpa, de vazio e de perda de sentido de vida, de sono e repouso, entre outros que vão necessariamente interferir na condição emocional. É preciso ter clareza de que afetam a dor: a desinformação; ausência de rede de apoio sociofamiliar; desumanização dos cuidados; ineficácia e burocratização dos serviços prestados; a perda de papéis sociais; a sensação de perda de controle sobre si, sobre o corpo e a vida; a desesperança e o sofrimento espiritual, entre outros.

Na prática dos cuidados paliativos, quais são os instrumentos para uma avaliação dessa dimensão? 

Primeiramente, é preciso reconhecer que a dor é uma experiência subjetiva e complexa, ou seja, não é fácil avaliá-la e é imprescindível acreditar na dor relatada pelo indivíduo que a sente. Não se deve duvidar da dor ou de sua intensidade. Identificar, nesse contexto, a natureza da dor é o caminho para melhor tratá-la.

Para avaliação da dor total será necessária uma anamnese, colher a história da dor (localização, início, intensidade, tempo de duração, oscilações, repercussões nas atividades diárias, modos de alívio, etc), exame físico, resposta prévia a fármacos. É também possível (e indicado) o uso de escalas unidimensionais (numéricas ou visuais), como a Escala Visual Analógica, em que o indivíduo classifica sua dor em uma intensidade de zero a 10 como leve, moderada ou intensa. E há ainda escalas multidimensionais. Para avaliação da dimensão emocional (que, reforço, não se separa das demais dimensões) faz-se necessária uma avaliação psicológica que evidencie psicopatologias pregressas, significados atribuídos à vivência do adoecimento e da dor; fatores de risco e proteção, entre outros elementos, havendo, se preciso, a possibilidade de utilização de escalas de avaliação de depressão e ansiedade.

Quais profissionais devem estar envolvidos nessa avaliação?

A avaliação da dor total deve sempre ser multiprofissional e interdisciplinar. Cada área de assistência ao paciente e à família em cuidados paliativos deve avaliar os aspectos da dor que competem à sua área de atuação, mas sempre inseridos no contexto da dor como um todo e essa avaliação deve ser construída e dialogada entre os profissionais. Ou seja, não é porque eu sou psicóloga que vou me limitar a prestar atenção apenas aos componentes psicológicos da dor. Devo estar atenta a todos os componentes da dor, pois o indivíduo com dor é único e uno. Não existe essa separação entre físico, emocional, espiritual e social. A pessoa é um todo: sua dor, seu sofrimento e sua doença englobam e afetam seu todo.

O que é possível realizar para atender as necessidades do usuário e sua família diante dessa dor?

Para atender às necessidades do usuário e de sua família diante da vivência da dor é preciso cuidado. Entendendo, contudo, que para cuidar do outro é necessário primeiro que eu compreenda qual a necessidade DELE. Caso contrário, eu estarei cuidando daquilo que eu entendo que o outro precisa e, nesse caso, poderei estar cuidando, na verdade, do que me aflige frente à dor do outro. Para cuidar do usuário e da família preciso compreender o que eles desejam, o que eles precisam. A partir daí, conseguimos elencar recursos para atender as suas demandas. Pode-se lançar mão de recursos medicamentosos ou pode-se ofertar acolhimento e escuta, psicoterapia, técnicas de relaxamento, meditação, mindfulness, musicoterapia, estimular o cuidado espiritual, mediação de comunicação e conflitos, processos de diretrizes antecipadas de vontade, de despedida, de elaboração de luto antecipatório, etc. 

Em sua opinião, o que é importante destacar neste cenário de pandemia?

São tantas coisas que podem ser destacadas… tentando fugir um pouco de tudo o que se tem dito sobre a condição emocional da sociedade como um todo, os agravos à saúde mental, a importância da comunicação esclarecida e a busca por informações verídicas, a evitação de um volume grande de informações, os processos de luto e despedida frente à ocorrência da morte etc, destaco o quanto a pandemia da COVID-19 trouxe à tona as discussões sobre doença, morte e a importância do cuidado à saúde. À saúde como um todo. E já que estamos falando da dor total, da dor como um todo, acho importante estimularmos que cada indivíduo olhe para si, para suas dores e seus sofrimentos e busque cuidar de si, independentemente se diante de um cuidado paliativo, de uma pandemia, mas diante da vida.  

 

Créditos da imagem: Sasi no Rawpixel

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