Cloroquina

 Por Paula Camila Mesti e Robert Moura Sena Gomes

 

Muitas informações circulam nas redes sociais sobre a COVID-19 e sobre os medicamentos usados para sua prevenção e cura. Entre eles, estão a cloroquina e a hidroxicloroquina. Não é raro ouvir/ler frases tais como “Toma cloroquina. Se não curar, mal não faz”. Você já escutou isso ou viu algum vídeo com esse tipo de conteúdo? É provável que sim. Persuadidas por um discurso tendencioso e não fundamentado em preceitos científicos, muitas pessoas têm buscado se prevenir e/ou combater o vírus SARS-Cov-2 ingerindo, sem prescrições médicas, tanto a cloroquina quanto a hidroxicocloroquina.

Mas, afinal, o que é cloroquina?

A cloroquina é um medicamento prescrito para o tratamento da malária, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico, sendo seu uso permitido apenas por prescrição médica e via oral. As palavras cloroquina e hidroxicocloroquina são substantivos femininos que trazem em sua composição linguística a presença e a ausência do prefixo hidroxi, que se refere à presença e à ausência da hidroxila (OH) em sua composição química. A cloroquina é formulada como sal de fosfato e a hidroxicloroquina é formulada como sulfato[1] e, por conter uma hidroxila (OH), torna-se uma opção mais estável e menos tóxica para o tratamento de algumas doenças[2].

Numa perspectiva histórica, sabe-se que no século XVII, no Peru, os povos indígenas extraíam a casca da folha da árvore de Cinchona e utilizavam seu extrato para tratar a febre e calafrios. Em 1633, essa erva medicinal passou a ser utilizada na Europa para os mesmos usos, e também para utilização contra a malária. A droga quinina foi isolada desse extrato em 1820 e a cloroquina provém dessa substância.

A cloroquina, tal qual a conhecemos hoje, foi descoberta em 1934 por Hans Andersag e seus colegas, mas foi ignorada por uma década porque era considera muito tóxica para uso humano. Posteriormente, os norte-americanos deram suporte aos ensaios clínicos para seu uso contra a malária e, logo depois, foi revelado que a cloroquina tinha um efeito terapêutico significativo como droga antimalárica, sendo aprovada em 1947 para usos clínicos[3].

Observa-se no recorte histórico que esse medicamento teve efetivamente o subsídio e a publicidade de sua eficácia patrocinados pelos Estados Unidos. Nesse sentido, transpondo o panorama histórico de 1947 para o atual cenário pandêmico mundial, não se pode fugir dos fatos: na busca por um remédio capaz de tratar, curar e prevenir a COVID-19, diversos trabalhos com vários medicamentos já existentes têm sido realizados às pressas e sem o rigor científico habitual, ou seja, sem a conferência/revisão das análises observacionais e clínicas[4]. Um desses estudos[5]sugeria que o fármaco seria capaz de inibir a proliferação do Sars-CoV-2 em pessoas infectadas, fato que incentivou os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil a promoverem o uso do fármaco contra a COVID-19[6]. Esse estudo influenciou o destaque desse medicamento, antes da comprovação da ineficácia da cloroquina para o tratamento da COVID-19, e foi um estudo-chave para colocá-la em evidência e não outros possíveis medicamentos para o tratamento da COVID-19.

Em 11 de março de 2020, a COVID-19 foi caracterizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia. Depois deste anúncio, circularam diversas fake news em toda a web, explicações de médicos e enfermeiros, pessoas públicas que apoiavam e incentivavam o uso indiscriminado da cloroquina. Em 21 de março de 2020, houve um pico de venda (aumento de 93%) de cloroquina e hidroxicocloroquina no Brasil, fazendo com que o preço do remédio disparasse (cerca de 75%) e sumisse das farmácias[7].

“A pessoa medicada corretamente [com a cloroquina], não tem efeito colateral”[8]. É verdade? O uso clínico indevido e indiscriminado da droga, sobretudo no Brasil, se demonstrou altíssimo, mesmo sem a devida comprovação científica. As pessoas se apegaram no preceito de que a droga funciona como um efetivo inibidor das complicações respiratórias pela síndrome aguda grave da SARS-Cov-2, a ponto do governo federal ordenar o aumento da produção do remédio pelo Laboratório do Exército[9] e prefeituras de pequenas cidades realizarem a distribuição gratuita do “kit cloroquina” para a população[10].

Diferentemente do que se divulgou, o uso indevido da cloroquina pode sim causar diversos efeitos colaterais. De acordo com Oliveira e Silva (2020)[11], os efeitos colaterais em doses terapêuticas por via oral são: coceira, náusea, vômito, dor abdominal, dor de cabeça, anorexia, mal-estar, turvação da visão e urticária. O tratamento prolongado com altas doses de cloroquina pode causar dor muscular e fraqueza, doenças que afetam o músculo cardíaco, dormência e dor nas mãos e nos pés devido a danos nos nervos.

“Ah, [a cloroquina] não tem comprovação científica. Eu sei que não tem comprovação científica”[12]. Então o que diz a Ciência? No Brasil, a discussão sobre a recomendação do uso da cloroquina nos protocolos seguidos pelos médicos se tornou um caso político: por não concordarem com esse protocolo, dois Ministros da Saúde pediram demissão. Coube a um militar, que assumiu a pasta de forma interina, liberar a cloroquina para todos os pacientes de COVID-19. Em 20 de maio de 2020 foi divulgado o novo protocolo que recomendava o uso do da cloroquina para casos leves, moderados e graves de COVID-19. O objetivo desse protocolo era de uniformizar as orientações para os profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS).

Dias depois, em 02 de junho de 2020, diante do aumento exponencial do uso não aconselhável da cloroquina, o Conselho Nacional de Saúde recomendou a suspensão imediata das orientações do Ministério da Saúde para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da COVID-19, como ação de enfrentamento relacionada à pandemia do novo coronavírus por não haver evidências científicas que justificassem a elaboração de um protocolo com recomendações para o uso de cloroquina e hidroxicloquina para a prevenção da COVID-19[13]. Mesmo assim, impera ainda no Brasil esse jogo político de que “Quem é de direita, toma cloroquina. Quem é de esquerda, toma Tubaína”[14].

Como todas as informações relativas à pandemia ainda são preliminares e tendo em vista que a doença causada pelo vírus SARS-Cov-2 impõe uma série de novas e complexas situações que geram lacunas de informação e de conhecimento relativos às taxas de letalidade, potencial de transmissão, tratamento, existência de outros efeitos ou sequelas no organismo dos que foram infectados, o que se sabe (ou deveria saber) é que até o momento os resultados demonstraram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não possuem eficácia para tratamento de pacientes com COVID-19. Cloroquina, hidroxicloroquina, azitomicina, ivermectina e dexametasona são todos fármacos que foram e ainda estão sendo testados como possibilidades de enfrentar os sintomas da COVID-19, porém sem confirmações de pesquisas científicas.

Diante de toda a atual realidade e o terrível número de mais 160 mil mortos no Brasil no início de novembro, pode-se afirmar que a adoção da cloroquina e hidroxicloroquina é uma decisão política tomada por não especialistas e que, segundo os dados do próprio Ministério da Saúde, as hospitalizações de pretos e pardos com síndrome respiratória aguda grave representam 23,1% do total, mas as mortes dessas parcelas da população somam 32,8%[15]. Este dado reforça os processos de extermínio promovidos pelo Estado brasileiro contra a população negra e outros grupos vulnerabilizados como indígenas, ciganos, quilombolas, moradores de favelas e em situação de rua, bairros periféricos, terreiros, assentamentos, populações do campo, etc. Neste sentido, pode ser adequado afirmar que o uso da cloroquina para fins de tratamento da COVID-19 põe em cheque todo discurso difundido pelos representantes do governo, sobretudo quando se observa a veiculação de informações disseminadas por meios de comunicação e por apoiadores inclinados a determinados pensamentos ideológicos[16]. E você? A qual grupo pertence?

 

Notas

[1] https://www.informasus.ufscar.br/cloroquina-e-covid-19-uma-abordagem-academica/

[2]  https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/hidroxi-cloroquina-ja-ouvi-este-nome/

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Cloroquina

[4] Um exemplo é o controverso estudo publicado pela Revista The Lancet em 22 de maio e retirado do ar em 04 de junho de 2020. Considerado um estudo amplo, pois apresentava a análise observacional com mais de 96 mil pacientes internados, passou a ser questionado devido a utilização da base de dados da Surgisphere Corporation no trabalho. Os cientistas se manifestaram publicamente afirmando que não tiveram condições de confirmar a veracidade dos dados apresentados. Para maiores informações, acesse: https://www.istoedinheiro.com.br/estudo-da-lancet-sobre-cloroquina-e-retirado-do-ar/.

[5] GAO, J., TIAN, Z. & YANG, X. Breakthrough: Chloroquine phosphate has shown apparent efficacy in treatment of Covid-19 associated pneumonia in clinical studies. Biosci Trends. v. 14, n. 1, p. 72-3. mar. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32074550/. Acesso em: 08 nov 2020.

[6] https://revistapesquisa.fapesp.br/o-arsenal-antivirus/

[7] SOBRINHO, W. P. Com alta na procura, preço dispara e cloroquina some das farmácias. Disponível em:https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/26/com-alta-na-procura-preco-dispara-e-cloroquina-some-das-farmacias.htm. Acesso em: 10 out. 2020.

[8] Presidente da Repúplica em live, de 26 de março de 2020. Disponível em: https://fb.watch/1GnmO_3__v/. Acesso em: 10 de nov 2020.

[9] https://reporterbrasil.org.br/2020/06/gasto-de-r-15-mi-com-cloroquina-pelo-exercito-nao-teve-aval-do-ministerio-da-saude-diz-mandetta/

[10] https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/cidade-no-interior-de-sp-distribui-kit-cloroquina-a-infectados-com-covid-19

[11] https://www.informasus.ufscar.br/cloroquina-e-covid-19-uma-abordagem-academica/

[12] Presidente da República em coletiva, de 22 de maio de 2020. Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos/2020/discurso-do-presidente-da-republica-jair-bolsonaro-durante-o-encontro-brasil-vencendo-a-covid-19-palacio-do-planalto. Acesso em: 10 de nov 2020.

[13] https://noticias.r7.com/saude/saude-nao-ha-evidencia-para-uso-de-cloroquina-na-prevencao-de-covid-19-02062020

[14] Enunciado proferido pelo Presidente em 19 de maio de 2020 durante sua participação em live ao Blog do Magno. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/05/20/governo-muda-protocolo-e-autoriza-hidroxicloroquina-para-casos-leves-de-covid-19. Acesso em: 11 nov 2020.

[15] http://conselho.saude.gov.br/recomendacoes-cns/1193-recomendacao-n-042-de-22-de-maio-de-2020

[16] Para que esse verbete fosse construído, foram observadas as publicações de quatro plataformas – Portal R7, Agência FAPESP, Revista FAPESP e InformaSUS UFSCar – durante o período de maio a agosto de 2020. Vale destacar que mesmo nos textos publicados no Portal R7, que a princípio demonstraria uma tendência a disseminar o uso da cloroquina justamente por questões políticas, não foram encontradas esse tipo de recomendação. Em suas reportagens, sempre ficava evidente a questão de que a Ciência ainda não teria comprovado a eficiência da cloroquina.

 

Crédito da imagem: Royalty Free Image em Rawpixel.

 

Veja também:

Projeto: Enciclopédia Discursiva

Envie suas dúvidas sobre COVID-19 para nós!

One thought on “Cloroquina

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *