Bernardino G. A. Souto1

Em geral, epidemias começam pelo surgimento de casos de uma doença cujo número de novos casos diários aumenta, ao longo do tempo, até certa quantidade, a partir da qual este número começa a cair. Desse modo, podem ser descritas por meio de curvas gráficas representativas do número de casos (eixo Y) pelo tempo (eixo X) que começam subindo, atingem um pico e depois começam a descer até a linha de base.

Ao se detectar que uma epidemia está acontecendo, é preciso adotar medidas de contenção mediante estratégias destinadas a evitar novos casos da doença e curar os que já adoeceram. No caso de uma doença contra a qual não há vacina nem tratamento que cura, a única possibilidade é, portanto, adotar medidas preventivas para reduzir o número de casos, a morbimortalidade e outros impactos da epidemia. Em se tratando de doenças de transmissão interpessoal, uma dessas medidas é o isolamento social atualmente proposto como meio para controlar a COVID-19.

Obviamente que, enquanto a curva epidêmica (número de novos casos diários) estiver subindo, é imperativo manterem-se ou até radicalizarem-se as medidas de contenção. A flexibilização dessas medidas só se torna possível a partir do início de uma queda sustentada do número de novos casos. De outro modo, perde-se o controle da epidemia. Portanto, no caso da COVID-19, em que a única medida de contenção que existe em nosso meio é o isolamento social, qualquer tentativa de flexibilização deste isolamento poderá elevar o custo e as perdas, tanto econômicas quanto humanas.

É importante ter em mente que é impossível não ter nenhuma perda ou dano diante de uma epidemia do porte desta que estamos vivendo. Nesse caso, nosso objetivo torna-se reduzir tais perdas e danos, minimizando a intensidade da epidemia em termos de morbimortalidade. Quanto mais intensa e agressiva a epidemia for, maior será o conjunto de perdas e danos, inclusive nas esferas econômica e social. Portanto, o isolamento social torna-se investimento ao invés de custo. Não fazê-lo poderá tornar a epidemia mais grave e mais cara em todos os aspectos. Assim, a tentativa desesperada de flexibilizá-lo antes do início da queda sustentada da curva epidêmica é uma medida contraproducente. Precisamos ter paciência e estratégias para que o isolamento social seja possível e acessível a todos.

A esse respeito, temos visto movimentos, capitaneados especialmente pelo setor político e econômico, propondo a flexibilização precoce do isolamento social a partir da consideração de que, havendo meios assistenciais em quantidade suficiente para suportar um grande número de doentes, não há problema. Como se houvesse algum meio terapêutico contra a COVID-19 capaz de impactar significativamente em favor dos indicadores de mortalidade populacional específica por este agravo.

A verdade é que internação em UTI é muita cara, tem elevada morbidade, alto risco de eventos adversos hospitalares e, ainda assim, pode resultar em alta mortalidade, especialmente de pessoas em ventilação mecânica. Portanto, nossa meta não pode ser a de tolerar que as pessoas podem ir para a UTI, mas a de evitar ou até impedir que precisem de UTI. É importante termos UTI para socorrer os casos graves, mas temos que trabalhar para que ninguém com Covid precise dessas UTIs.

A eficiência do recurso hospitalar terciário no controle da COVID-19 é nulo para o controle da epidemia em comparação com o isolamento social e a qualificação da vigilância epidemiológica e da atenção básica de saúde. Lamentavelmente, a maioria dos esforços têm se concentrado no setor hospitalar terciário, sob o equivocado argumento de que o investimento neste setor oportunizaria o retorno da atividade econômica com a curva epidêmica ainda na fase ascendente. Ou seja, a proposta de flexibilização precoce do isolamento social sob o argumento de que já existem ventiladores mecânicos e leitos de UTI disponíveis em quantidade suficiente para suportar a demanda de doentes graves não considera a carga e o custo de doenças ou a morbimortalidade no cômputo da epidemia. O resultado está nos números da Covid no Brasil.

Pensando em tudo isso, o Comitê para o Controle e Cuidados relacionados ao Novo Coronavírus da UFSCar tem insistido no isolamento social e nas medidas de apoio às pessoas para que possam cumprir esse isolamento até que a curva epidêmica caia de forma sustentada. A esse respeito, várias projeções sugerem que, talvez, a partir da segunda semana de agosto esta curva comece a cair em São Carlos, mas é grande a imprecisão dessas projeções devido à insuficiente quantidade, qualidade e disponibilidade em tempo real das informações epidemiológicas usadas para tais projeções.
Por outro lado, independente de quando a curva cairá, é prudente que o retorno à nova normalidade, a partir do momento em que esta tentativa for segura, seja gradativo e feito mediante etapas que considerem o risco de reascendência da curva epidêmica. Na prática, não haverá flexibilização, mas racionalização do isolamento social.
Além disso, o retorno não permitirá que as práticas e os costumes sejam como antes. Uso de máscaras, estratégias de distanciamento físico entre as pessoas, cuidados especiais com idosos, crianças e portadores de doenças crônicas, entre outras coisas, terão que ser, ainda, mantidos por tempo prolongado.

Portanto, é importante que todos comecem a se preparar para a nova era que virá, provavelmente, ainda este ano. No âmbito da UFSCar, por exemplo, a sugestão é que os professores, estudantes, técnicos-administrativos, departamentos e cursos comecem a planejar seu futuro laboral e operacional. É necessário considerar, por exemplo, que não será mais possível aglomerar estudantes em salas de aula, corredores, portas de entradas ou laboratórios; que essas salas e laboratórios não poderão ficar fechados ou com pouca ventilação quando alguém estiver ali presente; que não será seguro o uso de condicionadores de ar ou de ventiladores; que precisará haver observância contínua sobre a higienização das mãos, dos equipamentos, dos artigos pessoais e superfícies no ambiente de trabalho ou de estudo; que o uso de alguns meios de proteção contra doenças de transmissão respiratória poderá não ser prioridade de profissionais de saúde; que só deverão ser realizadas presencialmente as atividades que não têm como ser à distância e, ainda assim, com a participação do menor número possível de pessoas ao mesmo tempo. Ou seja, os fluxos e modos de funcionamento das coisas, a organização física dos ambientes e as práticas pessoais, sociais e didático-pedagógicas terão que se adaptar mesmo depois que a racionalização do isolamento social for possível.

O Comitê de Controle e Cuidados relacionados ao Novo Coronavírus da UFSCar está atento a tudo isso, bem como emitirá recomendações e apoiará toda a UFSCar no processo de racionalização do isolamento social no momento oportuno. Não obstante, ainda precisamos manter este isolamento para o controle da COVID-19 e não temos prazo definido para seu fim, ainda que existam projeções imprecisas com as quais, portanto, não podemos contar com certeza.

1Presidente do Comitê de Controle e Cuidados relacionados ao Novo Coronavírus – UFSCar.

Créditos da imagem: Marcello Casal Jr no Fotos Públicas

 

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