Autoria: Aline Faria.

Descrição da obra: Aprender a conviver consigo em tempos de isolamento não é tarefa fácil. A vida sempre foi tão corrida e pouco tempo tínhamos para apreciar a nossa própria personalidade. Muitas foram as surpresas que esse período trouxe.

Expressão: Literatura.

 

Confinada.

Sequestrada pela vida, eu me vejo aprisionada em um apartamento de 90m². Tão pequeno, entulhado de recordações de outra época, na qual podíamos sair à vontade para seguir o rumo da história. 

Com armários cheios de roupas que seriam usadas para trabalho e lazer, acabo me restringindo as roupas mais simples e confortáveis. Elas servem bem o propósito de aquecer e cobrir o corpo, que permanece dentro de um apartamento há 3 meses. As bolsas seguem guardadas. Os sapatos vão se desfazer sem uso, ressecar e deteriorar. Depois de tanto tempo usando meias, não sei se meu pé vai aceitar ser aprisionado novamente em tênis e sandálias. 

Meu corpo permanece restrito a uma cela confortável que a vida me deu. Meu espírito, entretanto, voa. Esse não pode ser contido em agruras da vida e em momentos de recolhimento forçado. Ele anseia em ver o mar e meditar no topo das montanhas. Urge pela liberdade que gozava junto ao corpo, nos tempos em que andar, muitas vezes, era considerada uma cansativa perda de tempo.

Então, ele magicamente adormece o corpo em frente a televisão e se põe a viajar para lugares distantes. Cordilheiras, florestas, mares, tudo isso é alvo da busca incessante por ação e aventura. Não há por que permanecer inerte, aceitando a sina imposta.

Aventuras são produzidas em avalanche. Novas amizades e amores, romances antes não imaginados, passam a fazer parte da rotina que não existe, já que a cada dia mudam-se os destinos do coração. Uma oração é lançada ao vento, agradecendo ao criador por tanta beleza e magia, escondidas do mundo pelos costumes endurecidos pela incerteza.

Quando finalmente retorna, traz novo ânimo para a matéria e a alegria sentida nos momentos de lazer místico renova a força para continuar seguindo.

Cada dia que passa, despertada para as possibilidades infinitas que existem no universo, me sinto mais apertada no espaço físico que divido com as lembranças que parecem pertencer a outra vida. Anseio pela liberdade do espírito. A possibilidade de novamente andar a esmo e buscar a satisfação de viver nas coisas simples e corriqueiras e, ao mesmo tempo, mágicas e fantásticas.

O confinamento não vai durar para sempre. Mas a mudança que trouxe, essa sim é permanente. Não existe mais espaço para esperar o fim de semana, o fim do mês, o ano seguinte. 

Adiar a vida se mostrou uma perda de tempo e fonte de infinitos aborrecimentos. A ideia de que precisamos estar preparados, adia planos e mata esperanças. O momento de viver é agora. Sonhos precisam sair do papel imediatamente, oportunidades precisam ser aproveitadas. O crescimento somente é limitado pelo medo de viver e aprender errando. E esse medo, existente na pessoa que eu era, não faz mais parte da pessoa que me tornei.

One thought on “Confinada

  1. Gloria Pinheiro says:

    Sensibilidade de espírito e boa prosa é o que precisamos no momento.
    Como nao se identificar com o que descreve a autora do conto?
    Como nao pensar que podemos sair, ao menos em espirito, do passivo para o ativo e ressignificar nossos pensamentos e ações?
    O momento de hoje carece de análises profundas, e é isso que o conto da Aline nos fornece: um incômodo fundamental em direção à evolução.
    Fui incomodada ao ritmo de palavras e frases bem compostas e com estilo próprio, fazendo do incômodo um prazer também literário

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