Há algum tempo que ouvimos falar a respeito de saúde mental, e durante o isolamento social esse termo ganhou ainda mais destaque, seja na produção de materiais com indicações de “como cuidar da saúde mental”, seja no vocabulário popular. Você consegue se lembrar da última vez que ouviu alguém dizer “minha saúde mental não está nada boa” ou então “a quarentena está acabando com a minha saúde mental”? Conseguiu fazer uma retomada de situações e contextos diferentes em que você ouviu esse termo? Pois bem, apresentamos uma breve discussão sobre a saúde mental e sua interface com a cultura.

Saúde mental é uma concepção muito usada, no senso comum, para definir a ausência de doença, ou sofrimento psíquico. Um exemplo que podemos usar é quando ouvimos, ou até mesmo reproduzimos a frase “não tenho saúde mental para isso”, estamos considerando, de certa maneira, a saúde mental como pleno bem-estar. Mas na verdade, é essencial que possamos compreender como ela enfrenta os desafios da vida e busca manter nossas emoções e sentimentos em equilíbrio.

Quando passamos por situações difíceis temos um repertório para lidar com elas, cada um à sua maneira. Alguns precisarão de dias para absorver e compreender os sentimentos, e terão fazer isso sozinhos, outros necessitarão ser ouvidos e assim por diante. Buscamos encontrar infinitas possibilidades de lidar, enfrentar ou superar uma mesma situação. Desse modo, a saúde metal diz sobre a nossa capacidade de manter em equilíbrio os pensamentos e sentimentos complexos que permeiam nosso cotidiano, mantendo nossa capacidade de realizar as ações que são importantes e que tem significado para nós. A forma como respondemos tem relação direta ao nosso contexto, trajetória e a maneira que construímos e aprendemos com experiências de vidas, necessariamente inseridas em nossa cultura.

O Plano Nacional de Cultura (PNC) apresenta a cultura em três dimensões: cidadã, econômica e simbólica, todas relacionadas com o direito ao exercício, acessibilidade, promoção e expressão da cultura. A dimensão cidadã se refere a como o exercício da cidadania, como a expressão cultural de cada grupo, tempo e histórias se relaciona com minha existência e capacidade de articulação governança, ampliação e promoção de direitos. A econômica põe foco na capacidade de geração de riqueza da cultura, desde as relações de geração de renda mais colaborativas e solidárias até o mercado cultural em si. Por fim, a dimensão simbólica representa todas as formas de existência que performam nossas vidas através de nossos fazeres, crenças, tradições e rituais que constituem quem somos como pessoa e coletivo.

Vamos entender brevemente onde a cultura se entrelaça com a tal da saúde mental e onde ela se faz potência e possibilidade de ação?

Entendendo as dimensões da cultura podemos pensar em uma pessoa fictícia. Essa pessoa cresce em um determinado lugar e com isso aprende símbolos, significados e assim vai moldando sua forma de ser e estar no mundo.

Ao pensarmos na saúde mental dessa pessoa e a forma como ela enfrentará as situações de sua vida, é necessário compreender que a cultura permeia todos os seus sentires, molda sua subjetividade e dá suporte as suas estratégias de enfrentamento.

Quando essa cultura, essa forma de existir, ser e agir no mundo é valorizada, ou seja, potencializada, estamos possibilitando que ela possa criar espaços de ação, experimentar possibilidades e que possa ser ouvida e valorizada.

Em um momento de pandemia, no qual se configura uma situação completamente nova, somos cobrados por responder aos diversos sofrimentos que surgem. Assim, dia a dia precisamos descobrir ou revisitar formas de enfrentamento às situações que antes não conhecíamos. Para essa adaptação precisamos incorporar saberes novos e gerar significados a eles. A cultura aqui se faz presente e essencial para que possamos nos experimentar e fluir entre as mais diversas possibilidades de existir e estar no mundo.

A cultura como expressão de si e todo um coletivo, de um tempo e espaço ou de uma dada vivência, tal como as artes, é capaz de contar, comunicar, expressar pensamentos, emoções, sentimentos, relações essas que muitas vezes estamos com dificuldade de compreender. Quando perguntamos “como você tem conseguido lidar com seus medos, angustias com o distanciamento social?” ou “como tem cuidado de sua saúde mental?”, recebemos como respostas que as pessoas têm direcionado seu tempo para ler um livro, ver um filme ou uma série, escutar música, assistir um show ou ainda pintar, costurar, cozinhar, enfim uma série de atividades humanas que nos ajuda a sossegar, refletir, elaborar, esperançar.

As artes e a cultura nos ajudam pois são formas e expressões nas quais podemos dizer, de formas éticas e estéticas, as palavras nos faltam e os pensamentos que não dão conta de significar o que sentimos. Utilizamos elas também para homenagear os trabalhadores de serviços essenciais, como os trabalhadores da saúde, entre outros, para celebrar esperanças, para protestar ou denunciar, para fazer campanhas solidárias, para compor coletivos em prol de uma ideia, para arrecadar fundos, para promover lutas e até mesmo honrar a vida daqueles que perdemos.

A cultura é a forma de expressão de nossa humanidade, fazendo com que aprendamos a nos humanizar e assim, poder buscar formas possíveis e diversas de existir, de vivenciar o sofrimento como experiência humana de crescimento, de respeito e cuidado de si e por isso, do outro.

Este texto foi escrito por Alice Fernandes Andrade e Carla Regina Silva.

Alice é estudante do quarto ano do curso de Terapia Ocupacional na Universidade Federal de São Carlos. Desde 2017 desenvolve atividades pesquisa e extensão no Laboratório de Atividades Humanas e Terapia Ocupacional. Atualmente é pesquisadora no campo da saúde mental da juventude negra em cumprimento de medidas socioeducativas.

Carla é docente do Departamento de Terapia Ocupacional e do Programa de Pós-Graduação em Terapia Ocupacional (UFSCar). Coordenadora do Laboratório de Atividades Humanas e Terapia Ocupacional (AHTO). PhD em Perspectiva Crítica Decolonial em Terapia Ocupacional pela Universitat Central de Catalunya, Espanha.

 

Créditos da imagem: Equipe Festival CultivAR-TE

 

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