O presente texto tem por objetivo explorar questões relacionadas ao conceito de angústia, suas manifestações e formas de enfrentamento para a população no geral e propor reflexões sobre esse processo para pessoas com algum tipo de deficiência. O contexto atual da pandemia pelo novo coronavírus reforça a importância de nos debruçarmos sobre essa temática, uma vez que os desdobramentos desse período na vida das pessoas têm sido alarmantes.

Alguns estudos sugerem que sintomas de depressão, ansiedade e estresse estão disseminados na população em geral e podem estar diretamente associados ao medo de contrair um vírus que pode ser fatal e que é pouco conhecido no que diz respeito a sua origem, curso e natureza (Asmundson & Taylor, 2020Carvalho et al., 2020; WANG et al, 2020). Além disso, as medidas de prevenção e de contenção da epidemia, que vão desde medidas de distanciamento social, higienização, uso de máscaras, etiquetas respiratórias, testagens, classificação de grupos de riscos e hiperabundância de informação (nem sempre confiável), também causam impacto na saúde mental. Para as pessoas com deficiências e seus cuidadores, alguns desses sintomas e temores também estão presentes no seu cotidiano.

Fonte: CAMPOS, 2020.

Desse modo, é possível afirmar que sintomas de estresse pós-traumático, confusão, raiva, preocupações com a escassez de suprimentos e perdas financeiras acarretam diretamente em prejuízos ao bem-estar psicológico (BROOKS et al, 2020; SHOJAEI; MASOUMI, 2020). Ornell e colaboradores (2020) apontam que, para além do medo da morte, a pandemia da COVID-19 apresenta implicações na organização familiar, com fechamento de escolas, empresas e locais públicos, mudanças nas rotinas de trabalho e isolamento, exposição a uma grande quantidade de informações, notícias falsas, incertezas, levando a sentimentos de desamparo e abandono.

Adentrando os aspectos mais conceituais da angústia, Martin Heidegger (1869-1976), importante filósofo alemão, estudioso da fenomenologia, buscou compreender como experimentamos estar no mundo. Para ele, a angústia participa da experiência do ser humano desde o nascimento. Quando deixamos um meio aquoso (que é o ventre materno) em direção a um meio aéreo e precisamos respirar através dos pulmões, acontece nossa primeira experiência com o sentimento de angústia e, com ela, o início da  nossa existência. 

Em sua obra seminal o “O ser e o Tempo”, Heidegger usa o termo alemão “Dasein”, traduzido para o português como “ser-aí” ou o “ser-aí-no mundo” ou ainda “existência”. Para ele, homem e mundo constituem um binômio indissociável: homem-no-mundo. Os homens são “lançados” no mundo, mas, como jamais estão aptos ou prontos para o  mundo, valem-se das possibilidades de criá-lo e criar a si mesmo indefinidamente.

Aqui vamos propor um exercício, imaginemos que esse “lançamento” ou “experiência de existir” aconteça em meio a um momento pandêmico. Isso certamente terá consequências notórias às pessoas e à sua saúde mental. Pois, à medida que  necessitamos nos adaptar a esse contexto, experimentamos estar num mundo no qual há um cenário de proporções catastróficas advindo de um contexto de muitos óbitos em todo o país e no mundo inteiro, o que nos faz experimentar uma  verdadeira ameaça a nossa existência.

É razoável imaginar que, nesse contexto, a angústia ou ansiedade passe a assumir uma amplitude muito maior, capaz de nos causar muitas dificuldades, exigir mudanças de comportamentos, gerar apreensões e inseguranças que podem acarretar somatizações como palpitações, alterações do sono, distúrbios alimentares, irritabilidade, nervosismo e intolerância.

Outro alemão, o médico Sigmund Freud, postulou um modelo para compreender as neuroses (afecção psicogênica em que os sintomas são a expressão simbólica de um conflito psíquico). Esse modelo psicanalítico tem importância clínica à medida que  pode nos fornecer pistas que nos auxiliem a pensar sobre o fenômeno e possíveis intervenções. Para Freud, um tipo particular de neurose, a neurose de angústia, se caracteriza pela acumulação de uma excitação sexual que se transformaria diretamente em sintoma, sem mediação psíquica. Do ponto de vista sintomático, ela se caracteriza pela espera ansiosa crônica, pelos acessos de angústia ou equivalentes somáticos como taquicardia, sudorese, tremores, sensação de aperto no peito. Muito resumidamente, podemos dizer que a angústia na neurose de angústia se caracteriza por estar inscrita no corpo e pela insuficiência de elaboração psíquica. Os sintomas somáticos causados pelo excesso de estímulo, como os que podemos vivenciar em situações traumáticas, por exemplo, não conseguem ser elaborados psiquicamente e acabam fazendo a “descarga libidinal” no organismo, produzindo uma série de sintomas.

Em situações de pandemia como a que estamos vivenciando, notamos que uma  atenção maior é dada aos componentes físicos e ao combate aos agentes patogênicos, sendo que aspectos da saúde mental não são vistos enquanto prioridades, ou até mesmo são subestimados e negligenciados (ORNEL et al, 2020). Mas é preciso sempre considerar a relação psicossomática: os sintomas somáticos têm componentes mentais. A ansiedade, portanto, pode ser sintoma de alguém que busca resolver o excesso de estímulos a que estamos submetidos no dia-a-dia. Muitas vezes, angústia e medo se associam e se confundem e trazem a sensação de ameaça, futura ou presente, que nos atinge, colocando-nos em estado de hipervigilância diante de um perigo futuro, desencadeando reações do nosso sistema nervoso conhecidas como reações de luta ou fuga, que, se perdurarem, nos colocam em estado de estresse crônico, trazendo prejuízos à saúde e à qualidade de vida.

Entender o que produz a ansiedade é importante para conseguirmos lidar com ela. Entretanto, isso pode ser extremamente difícil em algumas situações e, por outro lado, às vezes, mesmo conhecendo as situações que motivaram os sintomas, podemos nos sentir impotentes para sair do contexto. Ainda assim, para muitas pessoas é possível  aprender a lidar com a ansiedade à medida que descobrimos o que a produziu, ou seja, a descoberta pode ser indicativa de que você poderá reduzi-la se considerar alguns aspectos positivos de sua vida ou situações – em detrimento dos aspectos negativos que a própria ansiedade revela, ou seja, aumentar a capacidade de resiliência. Como já mencionamos, o medo é um sentimento adaptativo que nos prepara para lidar com situações de estresse, provocando uma resposta adaptativa do organismo, uma vez que envolve uma série de componentes biológicos que nos preparam para uma resposta a eventos que têm potencial ameaçador (ORNELL et al, 2020). Entretanto, quando o medo e a ansiedade são crônicos e desproporcionais, como no caso da pandemia, tornam-se prejudiciais, podendo até levar ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos ou intensificar os sintomas de transtornos pré-existentes (GARCIA, 2017; SHIN; LIBERZON, 2010; SHIGEMURA et al, 2020).

Então, como podemos nos proteger nessa situação?

  • Reconheça suas emoções e aceite-as. Pensar constantemente sobre a doença pode ser um fator que intensifica os sintomas de ansiedade;
  • Evite informações excessivas. Informe-se em horários reservados e busque sempre fontes de informações confiáveis;
  • Tente aproveitar esse tempo de quarentena para desacelerar, estar mais próximo a entes queridos e realizar atividades prazerosas e significativas;
  • Se possível, busque adaptar e praticar exercícios físicos em casa. Eles são ótimos combatentes ao estresse e à ansiedade;
  • Se for o caso, mantenha a sua fé e atividades religiosas e/ou espirituais dentro de sua rotina. Lembrando que, nesse momento, é ideal a utilização das plataformas digitais;
  • Busque manter o contato com amigos e familiares utilizando-se de ligações e mensagens afetivas e de apoio. Não se sinta sozinho(a)!
Fonte: CAMPOS, 2020

A adoção de medidas para redução de danos psicológicos na pandemia caracteriza-se como ação fundamental, uma vez que os prejuízos psicológicos podem ser muito mais duradouros e prevalentes quando comparados aos prejuízos diretos da COVID-19, atingindo diferentes níveis sociais (BROOKS et al, 2020; XIAO, 2020; ORNEL et al, 2020).

Uma das estratégias que podem auxiliar no controle desses sintomas psicológicos, é reconhecer os sinais de ansiedade e estresse que, inclusive, podem muitas vezes ser confundidos com a sintomatologia proveniente da COVID-19. Embora se considere que as manifestações são muito pessoais e, portanto, variáveis, é possível apontar os seguintes sinais:

 

SINAIS FÍSICOS

SINAIS EMOCIONAIS SINAIS COMPORTAMENTAIS SINAIS COGNITIVOS
Falta de ar (na ausência de algum problema respiratório);

Dor de cabeça;

Dores musculares;

Aumento dos batimentos cardíacos;

Alterações de apetite e sono (falta ou excesso);

Má digestão;

Diarreia;

Prisão de ventre;

Cansaço e falta de energia;

Tensão muscular;

Tremores;

Pioras no quadro geral de saúde (diabetes, hipertensão arterial, etc).

Emoções excessivas e persistentes de raiva, tristeza, culpa, medo ou preocupação;

Humor deprimido;

Desânimo;

Irritação;

Indiferença afetiva.

Discussões constantes com outras pessoas;

Limites de paciência mais evidentes;

Evitar expressar e compartilhar sentimentos;

Aumento do abuso de substâncias (álcool, medicações, cigarro e drogas);

Violência;

Agitação.

Dificuldade de lembrar informações;

Dificuldade de concentração nas tarefas;

Dificuldade de tomar decisões;

Confusão;

Pensamentos repetitivos e intrusivos sobre temas desagradáveis.

Uma vez colocados os conceitos e implicações da angústia para nossa saúde física e mental, vamos buscar refletir sobre o sofrimento mental  e as pessoas com deficiência. Partimos do processo de exclusão social pelo qual essas pessoas passam fora do contexto de pandemia. De acordo com Pereira e Saraiva (2017), as pessoas com deficiência têm uma longa e importante trajetória em busca da defesa e da garantia de seus direitos como seres humanos e cidadãos. Entretanto, embora haja uma série de conquistas, principalmente em linhas de políticas públicas, ainda há um distanciamento importante entre o que determina a lei e sua efetivação. 

É possível pontuar os impactos da pandemia pela COVID-19 como forma de expandir os prejuízos em saúde mental que podem ser causados para as pessoas com deficiência, as quais já se encontram com um repertório ocupacional restrito, com poucas oportunidades e, muitas vezes, dificuldades de acesso a sistemas básicos de saúde. A possibilidade do rompimento do processo de reabilitação devido ao isolamento social por exemplo, caracteriza-se muitas vezes como um fator de sofrimento e gerador de ansiedade, uma vez que o tempo e a frequência de atendimentos em serviços de reabilitação são fatores primordiais e até mesmo determinantes para a melhora do quadro funcional. Além disso, fatores como o afastamento do trabalho e de atividades de lazer, que muitas vezes já são restritas, acabam influenciando o bem-estar emocional dessas pessoas. 

A manutenção de um controle emocional positivo por pessoas com deficiência depende de um constante processo de adaptação do contexto vivido, influenciando diretamente no surgimento de ansiedade, medos e depressão (DUARTE, 2001). Durante esse processo, alguns comportamentos podem ser observados, tais como: “compensação desmensurada”, ou seja, a busca por compensar a deficiência dedicando-se em excesso a atividades que não encontram-se prejudicadas pela mesma; subvalorização de si mesmo e agressividade como mecanismo de defesa (AMARAL, 2001).

Atentar-se a essas perspectivas é fundamental neste momento de pandemia, uma vez que este pode ser um potencializador de processos de sofrimento e exigente no sentido de adaptações. Além disso, as pessoas com deficiências podem apresentar dificuldades para se expressar nesse sentido e nem sempre os sintomas físicos, emocionais, comportamentais e cognitivos como apresentados acima são claros e fáceis de se identificar. O reforço de atividades que busquem resgatar sentimentos positivos de dignidade e autoestima são importantes formas de suporte e de alívio do sofrimento.

O acolhimento dessas pessoas de maneira integral e a compreensão delas enquanto sujeitos únicos em sua complexidade se fazem fundamental não apenas neste momento de crise. Trata-se de uma busca para a melhor compreensão dos modos de expressão das angústias das pessoas com deficiência, o alcance de apoios mais efetivos, visibilidade e a ampliação dessas temáticas em pautas políticas.

Versão em Libras:

Referências:

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Asmundson, G. J. G., & Taylor, S. (2020). Coronaphobia: fear and the 2019-nCoV outbreak. Journal of Anxiety Disorders, 70, 102196. http://dx.doi.org/10.1016/j.janxdis.2020.102196

Brooks, S. K., Webster, R. K., Smith, L. E., Woodland, L., Wessely, S., Greenberg, N., & Rubin, G. J. (2020). The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The Lancet, 395(10227), 912-920. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30460-8.

CAMPOS, C. A. Retratos pandêmicos- lápis e extrato de nogueira sobre papel.45 x 62 cm. 2020.

CAMPOS, C. A. Retratos pandêmicos ll . Acrílico, extrato de nogueira, estêncil e lápis sobre papel. 70 x 90 cm . 2020

Carvalho, P. M. M., Moreira, M. M., Oliveira, M. N. A., Landim, J. M. M., & Rolim Neto, M. L. (2020). The psychiatric impact of the novel coronavirus outbreak. Psychiatry Research, 286(112902), 1-2. http://dx.doi.org/10.1016/j.psychres.2020.112902

Laboratório de Terapia Ocupacional e Saúde mental. Cuidando da sua saúde mental em tempo de coronavírus. 2020. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2479061909074148&set=pcb.2479062129074126&type=3&theater.

Duarte, E. (2001). Adaptação e a pessoa portadora de deficiência. In: IV Congresso Brasileiro de Atividade Motora Adaptada, Curitiba: Anais do IV Congresso Brasileiro de Atividade Motora Adaptada, 35-36. 

Garcia R. Neurobiology of fear and specific phobias. Learn Mem. 2017;24:462-71.

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