Autoria: Silvio Soares

Descrição da obra: A crônica retrata um conflito de adaptação às novas rotinas de trabalho durante a pandemia. O conflito se relaciona com os receios e desejos que afloram no período de quarentena. Trata-se um retrato literário de vivências presenciadas por trabalhadores de serviços essenciais durante a pandemia.

Expressão: Literatura

Desejos do repositor SILVIO SOARES – Silvio Soares

O rapaz subiu as escadas do ônibus sonolento. Na catraca, foi indagado pelo cobrador se trabalhava em alguma atividade essencial. Júnior explicou que era repositor de produtos em um pequeno mercado na região central de Curitiba e apresentou seu cartão vale-transporte. O cobrador enfatizou a necessidade de usar a máscara durante todo o período de permanência no ônibus. A entrada foi liberada. O jovem pode escolher seu assento no coletivo que estava mais vazio que de costume.

Enquanto o veículo percorria as ruas desertas, Júnior lia as mensagens no aplicativo de seu celular. Tratavam da quarentena, dos cuidados psicológicos durante o distanciamento social, de benefícios emergenciais do governo e, entre outras coisas, do aumento do desemprego. Entre as preocupações decorrentes da pandemia, perder o emprego era a que mais lhe deixava inquieto.

Acostumado a passar os dias abastecendo as gôndolas, o jovem observou sua rotina mudar após a decretação da quarentena. Os clientes que antes se acotovelavam nos estreitos corredores, rarearam. Agora, para evitar o contágio pelo novo coronavírus, os fregueses realizam suas compras de casa. A mudança foi repentina e a solução encontrada pelo estabelecimento era rudimentar. Choviam pedidos pelo telefone e por aplicativos de mensagem, mas não havia uma loja virtual organizada. Júnior tornou-se responsável por selecionar e separar as mercadorias em caixas para entrega.

Ao lado de itens frugais, algumas listas de compras incluíam vinhos caros, queijos especiais, biscoitos importados e chocolates finos. Não existiam maiores especificações. Ligar para os clientes não era opção, pois a cada momento chegava uma grande quantidade de novos pedidos. O gerente de Júnior dizia para ele se colocar no lugar do cliente. Esse seria o novo normal para os repositores, teorizava o chefe.

Embora conhecesse bem a adega, o salário de Júnior não lhe permitia se dar o luxo de abrir uma garrafa de vinho após o expediente. Selecionar um produto refinado para os clientes mais ricos era um desafio assustador. Optou por um rótulo que estava na gôndola dos destaques. Situação parecida ocorreu em relação aos queijos, biscoitos e chocolates finos.

Superadas as dúvidas e hesitações, Júnior foi tomado por um sentimento que não sabia nomear. Queria impressionar o chefe, mas jamais imaginou escolher produtos como queijos e vinhos finos. Assim, ao selecionar cuidadosamente essas mercadorias, imaginou-se como os consumidores mais abastados que passavam o tempo lendo rótulos e procurando as novidades mais sofisticadas. Neste momento, sua postura mudou. Conduzia altivo e calmamente o carrinho de compras, como se fossem para si. Buscava informações sobre produtos que antes só conhecia como repositor.

Desafortunado, Júnior incorporou um cliente esnobe. Desprezava as indicações dos colegas. Reputava chinfrins os produtos do estabelecimento. Seus companheiros de trabalho estranharam a postura de Júnior. No início, tentaram contemporizar. Depois, estavam dispostos a iniciar uma dura discussão com o colega transtornado. Ao final, temiam pelo emprego do colega.

O gerente foi quem o resgatou de seu devaneio. Falando alto pelos corredores, o chefe reclamava da demora para separar os produtos, lembrando que o entregador aguardava esse pedido para partir.

Ao final do expediente, Júnior subiu no ônibus exausto. Usando máscara, espalhava álcool gel nas mãos enquanto escolhia o assento. Questionou-se se no novo normal haveria lugar para atitudes como as que protagonizara mais cedo. Balançava a cabeça enquanto pensava, como se respondesse negativamente. Ainda temia perder o emprego, mas trazia em seus braços uma garrafa de vinho da gôndola de destaque. Estava disposto a viver o novo.

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