Autoria: Henrique Meira

Descrição da obra: O conto descreve a rotina diária de uma família durante a quarentena, não podendo sair de sua casa.

Expressão: Literatura

E se as máquinas tivessem ganho no filme Matrix

– Uuuuuuaaaaaaaaaaaahhh …. glub! glub! … ic! ronc! …aaaahhhhhhhh, click!
São cinco e vinte da manhã e ele acordou. Mas por costume, verificou o e-mail e redes sociais, muitas mensagens novas, e inúteis. Não falava nada, para não acordar a esposa que ainda dormia a seu lado, então apenas falava em seus pensamentos.
Mas está muito cedo, parece que a cada dia que passa nessa casa, menos eu durmo. Bem, vamos zapear – Presidente isso, presidente aquilo, ele é bom, ele é mau, ele é mito. Comunismo está chegando, ele é bom, ele é mau, ele está certo. Mil novos mortos, mil novos infectados, mil novos curados. Sim, mais tempo em casa, ainda não é seguro sair. Meu Deus!
Sempre a mesma coisa. Nossa, seis e meia já, vamos levantar.
– Amor, ainda está escuro, deita mais um pouco. – Reclama sua esposa.
– Smack. Tá na hora.
Bem, cheguei na sala. Uma jornada sempre começa com o primeiro passo. Vamos as atividades do dia, segura com o dedo uma parte específica da tela do celular e:
– Alexa, por favor, … não, não. Não se fala por favor. Alexa, atividades desta manhã, por favor. Aiiiii ….
– Bom dia, seis e trinta, Yoga, sete horas, exercícios cardio, sete e trinta, remada, oito horas, meditação, oito e trinta, fazer a barba, nove horas, café-da-manhã, nove e trinta, revisão do to-do, dez horas, revisão do material a ser apresentado à tarde, onze e trinta, preparar almoço.
– Mas como assim, ninguém começa exercícios no meio da semana, isso é um absurdo. Se não fiz na segunda-feira, passemos para a próxima segunda-feira. Barba?!¡!? É só não ligar a câmera, ninguém vai saber. Já sei, meditação pode ser considerado exercício, pronto é isso. Aplicativo instalado, internet funcionando, vamos lá.
– Sente-se em uma posição confortável, feche os olhos …. blaaaammmmm
– Ronc, Ronc!
– … …
– Uuuuuuaaaaaaaaaaaahhh …. glub! glub! … ic! ronc! …aaaahhhhhhhh, nossa, oito horas, esse negócio de meditação funciona mesmo, tô novo em folha. Vamos adiantar o café-da-mãnha, assim faço as coisas do trabalho direito, sem pressa.
Ele vai ao celular mais uma vez, novo aplicativo e liga um de seus áudio-books, geralmente são livros que massageiam o ego, inspira a fazer o seu melhor ou te motiva a feitos jamais pensados antes. O de hoje era “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, que promete te tornar igual as mais bem-sucedidas biografias de todos os tempos.
Áudio-book tocando, ele começa a preparar o café-da-manhã de todos. Misto-quente e café com leite para sua esposa, é impressionante que como uma simples cápsula faz um expresso em 30 segundos. Leite com chocolate, com espuminha, e cereal recheado de chocolate, para seu filho, bem tem coisas que não mudam. Chá-verde e um ovo cozido para ele, dieta keto, mais uma no difícil desafio de perder peso. Ele não ouviu uma palavra do livro.
Tudo pronto, troca o áudio-book, pelo Spotify. Musiquinha tocando, todos comiam juntos, na sala de jantar, trocando experiência sobre sonhos e buscando seus significados na internet. O emprego de cartomante já havia sido substituído por máquinas. Todos alimentados, cada um para seu posto.
O filho vai para um tablet que improvisa um computador para suas aulas online. Mesmo nessa idade, com esta situação no mundo, ele assiste 2 aulas pela manhã de 30 minutos cada uma, onde são passados deveres a serem feitos à tarde.
Antigamente, era rua e futebol, até a mãe gritar que o almoço estava pronto. Hoje, já querem aprender a escrever e fazer contas. Para quê?
Ela vai para sua parte do escritório, onde dá andamento aos seus projetos e sua paixão, a descoberta de novas maneiras de satisfazer seus clientes. Ela sim, seguiu os ensinamentos do seu avô e conseguiu conciliar a paixão com o trabalho.
Muita coisa por fazer, sempre com novos e motivantes desafios. Computador sempre a tira colo.
Ele vai para sua parte do escritório, mesmo querendo ser alguém importante e famoso, esportista, ator ou ministro da economia, decidiu estudar tecnologia, já que era a moda de sua época. Apesar de parecer bem importante em um
aplicativo de rede de trabalho, com muitos seguidores, recomendações e provas de sua eficiência, ele não vê bem assim e entende que são apenas aparências. Neste momento, ele precisa apenas revisar o material de uma apresentação que fará esta tarde.
Tudo pronto, mas ao ligar o computador aparece uma nova dieta, uma que funciona com os artistas da Globo. Antes de ler, ele a envia por mensagem a sua esposa. Estranho, eles estão dividindo um cômodo de 8 metros quadrados. Pior, ela respondeu por mensagem, o incentivado a tentar esta nova maravilha, que consistia em instalar um novo aplicativo que calculava as calorias do que era consumido através de fotos, e tinha integração com o Instagram, para compartilhar com todos as delícias que estava comendo e que minavam sua dieta. Nunca se importou muito com calorias.
Hora de preparar o almoço, o pequeno fez suas 2 aulas, jogou muitas partidas de Fortnite (nessa idade ??) e assistiu vídeos curtos e inexplicáveis no YouTube. Ela revisou 2 projetos, os submeteu por e-mail e fez videoconferências para
explicar e deleitar seus clientes. E ele já estava expert nesta nova dieta que todos estavam falando.

Todos se juntavam, ele abriu um aplicativo em seu celular. Eles escolhiam, preparavam e comiam juntos, escutando músicas no Spotify. Mas claro, foto para o novo aplicativo e claro, em seguida Instagram, onde muitos likes eram esperados. Ele se chateava se não ultrapassasse os cem.
Mas sabe, nem sempre foi assim, antes ele almoçava com amigos, perto do escritório, e sua esposa e filho almoçavam em casa, aproveitando o que tinha na geladeira. Essa situação de hoje que os juntou para aproveitarem este momento
juntos. Ao menos algo de bom.
– Meu Deus, a reunião!!! Esqueci completamente. Hoje vai ser minha culpa.
Depois de uma desculpa qualquer à reunião era reagendada para o dia seguinte.
Aproveitando que não teria mais a reunião, ele se junta ao filho, para desfrutarem juntos aquela tarde, conversar e brincar.
– Papai, você também jogava Fortnite com seus amigos quando era pequeno que nem eu?
– Não, filho. Naquela época acho que nem tinha videogames. Mas a gente fazia algo parecido, bem, pelo menos no meu ponto de vista. Existia uma árvore, que não vejo mais, chamada pé de mamona, que tinha umas frutinhas, redondas e meio espinhentas, verdinhas…
– Igual o corona-vírus, papai?
– Ahahah, sim, meu filho, igual. Então, a gente pegava essas frutinhas, colocava no jornal, formava os times e cada um saía com seu estilingue, caçando o time inimigo para acertar essas bolinhas. Perdia o time com um integrante que
chorasse ao ser atingido.
– Mas não tinha pontos, papai? Morria quem tomava o tiro? Como revivia?
– Não era assim, filhão. Era um pouco mais simples, chorou, perdeu. Ou quando era hora de voltar para casa, quando sua mãe gritasse.
– E futebol, papai, vocês jogavam Fifa20? Tinha campeonato?
– Eheheh, também, filhão, era na rua, bola de verdade e na rua. Mas sempre era melhor quando você era o dono da bola.
– Pessoal – gritou a mãe – hora de encerrar com o videogame, já são seis horas, hora de parar.
– Que vamos fazer, mamãe?
– O que nossa imaginação pedir, filhinho querido.
– Vem – chamou o pai – está na hora de ligar para o seu tio, seus avós. Vamos.
– Ahhh, Pai, o tio nunca atende, para que você vai ligar.
– Hey, Filhão! Seu tio não atende porque ele é ocupado, mas eles pensam muito na gente. Vamos, vai. Promete que você vai ser legal?
– Prometo, Papai.
A primeira avó brincou com ele, ensinando-o a criar palavras, a ler, fazer contas. Ele ficou super orgulhoso quando, na frente de seu pai, mostrou que fazia as contas bem rápido, assim como ele. Sua mãe quase chorou quando viu seu menino formando palavras, lendo e com vontade de aprender.
Na segunda leva de avôs, ouviu histórias sobre um menino de madeira, meninas que andavam sozinhas em florestas, ou porquinhos que tinham casas. Sempre muito atento, curioso e não muito crédulo quando lhe diziam que tudo aquilo era
verdade. Afinal, não via vídeos a respeito disto no YouTube, mas fingia acreditar para que seus avôs se sentissem felizes.
Ansioso, ligaram para o tio. Seu pai até encolheu um pouco a barriga. Mais uma vez ele não atendeu. Seu pai explica que ele é muito atarefado, como quando ele não trabalhava de casa. Francamente! Não sabia se estava trabalhando de casa
ou morando no trabalho. Eram épocas confusas.
Mais uma vez o dia passou voando. Ele já se preparava para abrir o aplicativo com sons para dormir quando seu filho perguntou:
– Papai, por que antes a gente não ligava para todo mundo e não fazia esse monte de coisas juntos? Com todo mundo?
Esse aplicativo de ligar não existia?
Em um momento de reflexão, ele entendeu que tudo aquilo já existia, já era possível fazer tudo junto, até porque estavam todos a uma caminhada de distância. E entendeu que finalmente, não era a tecnologia que estavam mudando, mas sim eles.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *