Falar sobre o ato sexual feito por idosos quase sempre vem acompanhado de tabus. É um tema/assunto impregnado de preconceitos e que ainda provoca sentimentos de estranheza, mantendo assim uma falsa ideia que permeia nossa cultura de que o(a) velho(a) não tem desejo ou vida sexual ativa. Com a longevidade e a expectativa de vida em contínuo crescimento nas últimas décadas, essa realidade começa a mudar. Hoje, a maioria dos idosos são ativos e buscam incluir em suas rotinas atividades prazerosas. Entre elas, destaca-se o sexo.

Sendo assim, é notória a necessidade de derrubar a muralha de tabus que envolvem esse tema – tanto para a população quanto aos profissionais de saúde. Assim, não reforçamos essa crença equivocada de que pessoas idosas não fazem sexo e contribuimos para que haja uma melhor exposição de informações, atendimentos e debates sobre a vivência da atividade sexual enquanto prática importante do envelhecimento saudável.

Para conversar sobre a vida sexual e a saúde sexual na velhice, entrevistamos a gerontóloga e fisioterapeuta Natália Oiring de Castro Cezar para tratar desse assunto que ainda é um tabu para muitas pessoas.

A nossa convidada deixa o seguinte recado: sexo e prazer com saúde não tem limite de idade e fala sobre a necessidade de encarar e incentivar relações sexuais entre pessoas na chamada terceira idade. Por mais que a sociedade esteja em busca de diversidade, ainda há preconceito em torno desse tema.

Leia a seguir o conteúdo da entrevista com a especialista Natália Cezar.

InformaSUS: A sexualidade na velhice continua sendo um tema negligenciado pelos profissionais de saúde e pela sociedade de uma forma geral?

Natália: Acredito que, devido ao tema ainda ser considerado um tabu, a sociedade em geral, independente da profissão, desconsidera-o ou o trata de forma superficial, menosprezando a necessidade de abordar o assunto.

InformaSUS: O sexo na terceira idade ainda é um tabu para os próprios idosos?

Natália: Segundo a literatura, parece ainda ser um tabu, uma vez que raramente o assunto é estudado. Entretanto, embora tabu, o estímulo parece presente. Conforme o artigo de Uchôa e colaboradores, de 2016, que abordou a sexualidade sob o olhar da pessoa idosa, a grande maioria dos idosos relataram ter estímulo razoável ou muito estímulo sexual.

InformaSUS: Quais os impactos decorrentes da mudança do comportamento sexual no envelhecimento?

Natália: A ideia de que as pessoas permaneçam sexualmente ativas depois da terceira idade causa espanto na sociedade. Frequentemente se imagina que os idosos perdem seus desejos sexuais ou são fisicamente incapazes de realizar, mas isso nem sempre acontece. Embora hajam mudanças que podem gerar alguns problemas sexuais, também há tratamento para os mesmos. Entretanto, esses posicionamentos devem ocorrer quando é vontade de ambos parceiros. Além disso, as mudanças podem ser mais intensas em uma das pessoas do relacionamento, e é importante respeitá-la. A decisão de tratamento e de como fazê-lo deve vir do sujeito acometido. Além das alterações supracitadas, outros impactos recorrentes são o divórcio, a depressão, o isolamento e a maior ocorrência de DSTs e ISTs.

InformaSUS: Você julga relevante a discussão sobre a vida sexual e saúde sexual no contexto de envelhecimento e velhice?

Natália: Com certeza, esse assunto precisa ser abordado com maior frequência e a educação em saúde precisa focar essa temática, de modo a desmistificar os mitos e diminuir o tabu.

InformaSUS: Com o aumento da expectativa de vida e o avanço da medicina, o sexo entre idosos é cada vez mais comum?

Natália: Os idosos estão ficando cada vez mais ativos, tanto nos relacionamentos quanto nas relações sexuais. Com isso, a investigação para o tratamento de doenças e a busca por uma melhora no desempenho nas atividades de vida diária (dentre elas, o sexo) têm sido mais recorrente quando se compara à décadas anteriores. 

InformaSUS: As modificações no corpo e mudanças fisiológicas podem interferir no aspecto sexual da pessoa idosa? 

Natália: Com certeza. Principalmente devido ao climatério, que faz parte do relógio biológico da mulher cisgênero e de homens transgênero. Ou seja, a pessoa que tem genitália e órgãos reprodutores femininos. No caso da mulher cis, ocorre normalmente, entre 40 e 65 anos. E no caso do homem trans ocorre quando ele inicia a hormonização, que geralmente é a testosterona. O climatério é definido pela Organização Mundial da Saúde como fase biológica (não patológica) da vida que compreende a transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo da vida da mulher cis. Dentre os diversos sintomas relacionados ao climatério, destacam-se os transtornos da libido e da sexualidade e distúrbios urogenitais. Relacionado a estes, os principais são: dispareunia, que é a dor genital durante ou após a relação sexual, e a secura vaginal, seguido da diminuição do desejo sexual, de incontinência urinária, de prurido (coceira vaginal) e ardor, e por último, infecção urinária de repetição.

Diminuição da libido masculina e feminina, transtornos de ereção e orgasmo, alterações espermáticas, secura vaginal, afinamento da mucosa da vagina, desconforto durante a penetração e disfunção erétil. Isso tudo pode levar a diminuição da autoestima, aumento da ansiedade, comprometimento do relacionamento social e depressão, entre outros.

InformaSUS: É preciso tomar alguns cuidados específicos para ter uma vida sexual ativa nesta idade? Se sim, quais são as principais orientações para os idosos sexualmente ativos? Sobre o uso de preservativo e demais cuidados?

Natália: Os cuidados voltados ao idoso são os mesmos de alguém em outra faixa etária. Entretanto, vale ressaltar que a orientação de um profissional deve ocorrer sempre que houver necessidade de suplementação ou medicação relacionada à prática sexual. Além disso, também é recomendável procurar um profissional de saúde qualificado durante a andropausa e o climatério, a fim de obter um manejo correto diante das alterações. É fundamental procurar um profissional de saúde para conversar e entender todas as alterações e possíveis disfunções, a fim de tratá-las quando necessárias.

 

SEXO E PRAZER COM SAÚDE NÃO TÊM LIMITE DE IDADE  

A idade não impõe limite para o prazer sexual e o seu ato. A presença ou ausência do mesmo é decorrente da mente e das emoções individuais do ser. A sexualidade se faz presente enquanto existir vida, embora se modifique com o tempo, As vivências, a cultura e a pressão social moralista e preconceituosa. As limitações físicas, tais como queda hormonal ou falta de ereção, são comuns e recorrentes. Entretanto, apenas modificam a vida sexual, mas não a encerram.
Como o envelhecimento não é apenas sobre a idade cronológica do indivíduo, deve-se levar em questão o cenário em que este sujeito está inserido.
Não se pode negar que homens e mulheres apresentam um estado emocional mais saudável quando estão envolvidos em relacionamentos íntimos e afetivos, uma vez que a socialização e o suporte social são fundamentais para a qualidade de vida. 

 

Referências Bibliográficas

UCHOA, Yasmim da Silva et al. A sexualidade sob o olhar da pessoa idosa. Rev. bras. geriatr.  gerontol. [online]. 2016, vol.19, n.6, pp.939-949. https://doi.org/10.1590/1981- 22562016019.150189

SANTOS, S. S. Sexualidade e amor na velhice. Porto Alegre: Sulina. 2003. 

QUEIROZ, Maria Amélia Crisóstomo et al. Representações sociais da sexualidade entre idosos.  Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 68, n. 4, p. 662-667, 4 ago. 2015. Disponível em:  <https://www.redalyc.org/pdf/2670/267041639015.pdf>. Acesso em: 4 dez. 2020. 

CUNHA, Luana Miranda et al. Vovó e vovô também amam: sexualidade na terceira idade. Revista  Mineira de Enfermagem, Minas Gerais, v. 19, n. 4, p. 894-900, 26 nov. 2015. Disponível em:  <https://cdn.publisher.gn1.link/reme.org.br/pdf/v19n4a08.pdf.> Acesso em: 4 dez. 2020. 

RIBEIRO, A. Sexualidade na terceira idade. In: NETTO, M. P. Gerontologia. São Paulo: 2002.

Autoria
Alice Rosilho – estudante de Terapia Ocupacional
Beatriz Pugliero – estudante de Terapia Ocupacional
Luiz Tarley – estudante de Terapia Ocupacional

Revisão
Profa Dra. Claudia Aline Valente Santos

Observação
Este material foi produzido na Disciplina Terapia Ocupacional em Gerontologia

 

Créditos da imagem: Wayhomestudio no Freepik

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