Durante esse período da pandemia da COVID-19, o Projeto PermaneSER iniciou uma série com publicações sobre arte através de entrevistas com artistas ligados à Universidade Federal de São Carlos. A primeira entrevista (15/10/2020) foi com a CIRA ARTE e você pode conferir AQUI. Hoje continuaremos a série com o artista BATATA SEM UMBIGO.

Práticas poéticas são anunciações de sensações e análises que envolvem a vida, mas como falar da vida sem considerar a política? Obras são manifestações de demandas e de necessidades de uma ou mais sociedades, podendo gerar sentimentos diversos, como felicidade, incerteza, desconfiança, desespero, raiva e/ou angústia. Assim, a representação artística do BATATA SEM UMBIGO pode ser declarada como uma forma de sobrevir por meio da resistência e da reivindicação. Confira abaixo a entrevista com o artista:

Como você descreveria sua arte?

Descrever a própria arte não é uma tarefa fácil porque geralmente eu tento criar algo, um desenho ou uma história desenhada a partir de traços mais sensíveis que estritamente “pensados”. Daí, o que não se para muito para pensar é mais difícil de descrever e quando a coisa cai nesse nível das sensações, creio que cada desenho deve valer por si mesmo, ao causar algo na pessoa que o observa; afetá-la, no sentido de produzir um afeto. Isso importa mais, pouco importando qual minha intenção quando desenhei alguma coisa. Nesse ponto, acredito então que descreveria a tentativa de meu trabalho como um “atingir as vísceras”, um “causar impacto”, um “afetar”. Arte para afetar os olhos e os sentidos… Está aí uma tentativa, incompleta, de descrição do que tento fazer com a arte.

Mais especificamente, como está representada a política, o corpo e a sexualidade em sua obra?

Desde que comecei a me desbravar no mundo das publicações independentes, lá para os idos de 2008 e 2009 em Campinas, com os fanzines – que são revistas de baixo custo e com temas e formatos múltiplos, geralmente fotocopiados e distribuídos ou vendidas de mão em mão -, o trabalho sempre se dirigiu a certo tipo de tom político, algo como denúncia e resistência, sem perder os tons de non sense e poesia.

Fiz parte de um coletivo chamado Miséria e bebíamos muito na fonte das produções brasileiras como as que eram publicadas no Pasquim e no Chiclete com Banana. Junto das publicações, dedicávamos tempo à realização de oficinas, não só entre as estudantes e os estudantes da Unicamp, ambiente em que estávamos, mas também junto de diversos movimentos sociais, como MST, MTST e na Fábrica Ocupada Flaskô. Esse contato direto com a luta dos movimentos sociais foi um elemento necessário e importante para ampliar a visão política do trabalho – tanto o trabalho real a nossa volta, como também o meu trabalho como criador de “coisas”: gibis, desenhos, charges, histórias em quadrinhos, mas também discursos, ao ensinar um pouco daquilo que sabia fazer. Assim, com o passar do tempo, creio que o trabalho se tornou mais responsável quando dedicado às questões que envolvem as outras e os outros que não eu, e mais livre e autônomo para buscar através da arte aquilo que eu sinto e que urge sair de mim.

Nesse ínterim, comecei a graduação de Filosofia na UFSCar. Aí, novos encontros, outra cidade, e o trabalho seguiu também a direção de destacar as questões que envolviam os temas da sexualidade, dos corpos, das diferenças e das exclusões. Assim, não apenas uma questão de fazer pensar através dos desenhos sobre questões de gênero e do trabalho em nossa sociedade, nosso mundo, mas também daqueles corpos sempre retirados do foco da lente da mídia, moradores de rua, grupos sociais deixados de lado… Creio que a questão da política, sem dúvida, permeia todo o trabalho. É como um sentir e fazer mostrar para afetar.

A sua arte traz bastante desconstrução. Como isso está ligado a você? Como você se identifica com a sua arte?

Acredito que mais do que desconstruir, a arte que tento fazer visa mais mostrar um outro olhar sobre as coisas. Como disse, eu geralmente não planejo muito de antemão aquilo que vai tomar corpo num desenho ou pintura. Acho que quando paro para desenhar, busco mais aquilo que me impressiona nesse mundo caótico em que vivemos e tento aplicar esse outro olhar, outra perspectiva, pintar a situação com outras cores. É nisso que me identifico naquilo que faço: tentar trazer uma outra forma de ver que, através do traço, pode se tornar visível a quem está em contato com ela.

Você tem inspirações específicas para sua produção?

Tenho muitas paixões que me inspiram na prática do desenho. Nas artes, a Laerte sempre me fascinou, mas também Marcatti e meu grande amigo cartunista João da Silva. Mas também tem muito de cinema nacional nisso tudo, e muito rap. Facção Central desde muito tempo continua sendo uma fonte privilegiada para o meu olhar o mundo.

Quando você deu início à sua arte/projeto?

Como disse, foi nos idos de 2008 e 2009 em Campinas. Nunca fiz aulas ou cursos de desenho ou artes. Sempre fui aprendendo no contato e troca com outras e outros artistas. Daí veio os quadrinhos e os fanzines; depois, as ilustrações e oficinas; depois, as aquarelas e as pinturas digitais… e continuo nessa toada até hoje.

Quais as maiores dificuldades que você encontrou no começo e atualmente?

No começo, o trânsito era mais do dia-a-dia. Eu vendia os fanzines de mão em mão nos bares da cidade ou estendia uma barraquinha em algum ponto estratégico de grande circulação. Mesmo quando me mudei para São Carlos, em 2016, continuava a fazer esse trabalho. Depois que consegui uma bolsa de iniciação científica, no segundo ano na filosofia, deixei esse trabalho mais itinerante para dedicar mais atenção à pesquisa, e me concentrei em trabalhos sob encomenda. Em todo caso, nunca parei de desenhar e de publicar os desenhos de forma gratuita. A arte sempre me serviu como um potencial de transformação, logo, para mim, é mais importante que esteja disponível livremente nas redes, para circular e encontrar novos olhos por aí.

Atualmente, acho que a maior dificuldade se encontra na disponibilização dos trabalhos a partir das redes sociais. Essa lógica do “curtir” e do “seguir”; da velocidade como o cardápio de novidades nos aparece na tela do celular ou computador, nossa! Me pergunto se realmente paramos mesmo para admirar os trabalhos ou já nos acostumamos a essa dinâmica do consumir por consumir, passa para outra… isso me entristece bastante.

Como tem sido produzir durante a pandemia? O ritmo de criação mudou?

Tenho tentado seguir as recomendações de isolamento e com isso o desenho retomou como prática quase diária. Além disso, muitos camaradas têm dado prosseguimento em projetos e tive a oportunidade de colaborar com projetos muito legais ao longo desses meses, o que também faz a engrenagem do traço não parar. Além disso, o cenário político e pandêmico em que nosso país se encontra deve ser combatido de alguma forma, e como não uso armas, uso meus desenhos. Repensar nossa situação através disso tem sido uma possibilidade de grito.

Como está sendo conciliar a produção com a vida acadêmica?

Consigo administrar bem meu tempo, mas às vezes a coisa aperta. Nunca me obriguei a desenhar e em períodos de stress com a vida acadêmica, como período de entrega de trabalhos, escrita sobre a pesquisa, aulas – ainda mais nesse assolador “novo normal”, coisa que na ficção poderia ser pensada como a “revolução das    telas” -, etc. Mas o último período tem causado reflexões importantes que extrapolam essas duas dimensões da vida: a arte e o estudo. O jeito é ir tentando equilibrar esses humores, junto do estudo e do trabalho com as artes. É inumano ser produtivista hoje. Temos que guardar nossas energias e forças para quando essa pandemia passar.

Conheça a arte de BATATA SEM UMBIGO:

Para saber mais sobre o trabalho de BATATA SEM UMBIGO ou contatá-lo, acesse:

Blog: batatasemumbigo.blogspot.com

Instagram: @batatasemumbigo

Portfólio de zines: issuu.com/batatasemumbigo

Créditos da imagem: Batata Sem Umbigo

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