Autoria: Angela Yuri Koketsu.

Descrição da obra: Escrever esta carta é expor as minhas dores, mas também as delícias vividas durante esta quarentena: a busca por formas de me relacionar com a pandemia de modo a (re)existir e seguir vivendo.

Expressão: Literatura.

 

#paratodosverem: na foto há sombras de três pessoas, uma ao lado da outra, em ordem crescente de tamanho, com um espaço entre elas; as sombras estão projetadas no asfalto e, no canto superior esquerdo, há um trecho de calçada com grama e arbusto e um pedaço de um muro.

Filhos amados, 

Em poucos dias, completaremos o quinto mês de quarentena. Algo que nunca poderíamos ter imaginado, e que eu gostaria tanto que nem precisássemos conhecer. Estamos vivendo uma pandemia, o que não acontecia há uns 100 anos!…

Como vocês ainda são pequenos, escrevo esta carta para compartilhar um pouco do que tenho sentido com os jovens que vocês se tornarão. Parece ser ao mesmo tempo bom e ruim ser criança neste momento. Bom porque as informações chegam filtradas, porque vocês possuem uma capacidade muito maior de viver o presente e porque têm passado os dias a brincar. Ainda assim, me entristece profundamente saber que estão distantes dos avós, dos primos, dos amigos, das professoras, da escola e de tantos outros ambientes, pessoas e atividades que faziam parte do nosso cotidiano. Dói tentar imaginar qual o impacto dessa experiência nas nossas vidas, na sociedade e no planeta, especialmente para as crianças, em fase tão importante do desenvolvimento.

Tem sido bastante difícil seguir… cuidar da gente… manter as coisas funcionando… trabalhar, continuar empregada, garantir que vocês estejam bem cuidados, nos abastecer materialmente dos itens básicos, acompanhar as atividades escolares, manter os laços afetivos e a atenção às nossas necessidades… Somente vocês, eu, a Lu e o papai…

Quero agradecer por existirem. Me emociona ter a companhia de vocês. Na verdade, acho que é porque vocês existem que eu continuo me levantando todos os dias. Porque vêm me pedir café da manhã, me contar os sonhos e os pesadelos, me chamar para brincar, me convidar a ser uma mãe que pode apoiá-los e conduzi-los na travessia deste deserto… Se, por um lado, vocês acrescentam uma montanha de trabalho à minha rotina (só quem tem criança pequena em casa agora entende), por outro, ativam várias vezes por dia o meu riso, minha alegria (e uma diversidade de sentimentos e emoções) e meu encantamento…!

Aqui, na simplicidade do nosso dia-a-dia, vejo vocês crescerem. Constroem, criam, cantam, inventam, contam piadas e charadas, desenham, conversam, jogam, pedalam, descobrem, brigam, cuidam dos próprios “filhos” (já são sete netos!) e fortalecem a cumplicidade entre vocês. Aqui, perto-longe da escola, vejo Lara aprendendo a ler, num movimento que nasce dentro e flui como um pequeno riacho, num começo de mergulho neste mundo fantástico da palavra escrita. Vejo Vitor nadando ao seu lado, pegando carona, adiantando-se ao que lhe seria apresentado no futuro, e também ganhando autonomia em seus gestos de autocuidado.

Lá fora a realidade é bem mais dura e mais triste. Cada pessoa vivendo uma história diferente, resistindo à pandemia, aos (des)governos, aos sustos e socos diários vindos de todo lado, aos números que não param de crescer, à solidão, à miséria, ao desamparo… Falimos e falhamos como organização social. E precisamos apostar em novas formas de co-habitar este lugar. É o que me salva. Encontrar frestas, pausas, conexões, gente que produz outras possibilidades. Gente que produz beleza, fazendo música, fazendo teatro, dançando, falando, escrevendo, contando história, estendendo a mão, oferecendo escuta, cozinhando, compartilhando seus saberes, construindo comuns.

Tenho conhecido e aprendido muitas coisas novas, sairei da pandemia com habilidades que não possuía antes. Parece que envelheci alguns anos nesses meses. Acho que tenho mais clareza sobre o que é verdadeiramente importante para mim e um tantinho a mais de capacidade de aceitar a falta de controle. A esperança é flutuante – tomara que seja mesmo e não afunde de vez. Nosso vínculo é minha principal boia. E é um bálsamo saber que estaremos juntos quando chegarmos ao outro lado.

Como disse Cora Coralina: “quando as coisas ficam ruins, é sinal de que o bom está perto”. Todos os dias eu sangro um pouco mais, buscando permanecer lúcida e sensível, acordada ao invés de anestesiada… Mas me coloco também alerta procurando captar o belo, o bom e o que me faz forte. Para mim e, principalmente, para vocês.

Beijos cheios de amor e gratidão, mamãe

Atibaia, agosto de 2020

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