Autoria: Viviane de Paula.

Descrição da obra: A obra retrata os sentimentos do feminino em tempos de pandemia, os sentimentos que, muitas vezes, nos inundam e não são ditos, pois cada vez mais mulheres se desdobram em diversas funções, esquecendo-se do seu “eu” e de questões profundas guardadas em si.

Expressão: Literatura.

Flores Roxas

Prefácio

Antes que o mundo acabe, não se apresse. Fique mais um pouco. Beba chá quente e se
demore. Antes que nossas horas cessem, ame só mais um pouco, ore, experimente o
afeto que deixei em quarentena só para você. Chore, se desfaça e não disfarce.
Extravase o sentimento que há tanto tempo anda guardado, esperando o temporal passar.
Até na dor coincidimos e, meu amigo, você se parece tanto comigo. Nas rugas, no olhar
disperso quando se aprofunda nas profundezas do seu eu, quando me fala sobre você e
da sua jornada até aqui. Descanse, tire os sapatos que lhe apertam os pés e já não lhe
servem mais. Deixei também ali no canto a vaidade e o ego que tem carregado e
machucam suas costas. Dispa-se das amarras que deixam marcas nos seus punhos e lhe
aprisionam entre paredes que não se pode sequer ver. Não se despeça sem antes dizer
que se perdeu e se encontrou exatamente aqui, onde flores roxas murcham e
desabrocham vívidas.

SUSPIROS D’ALMA

A noite não adormece nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
(Conceição Evaristo)

Há na garganta
tantos prantos falhos
como um talo
que sufoca tudo que calo
e me espanta.

Palavras.

Cotidianas e meticulosas:
do açúcar dos lábios de amora
que adocica uma boa prosa,

ao nó no peito que lhe engasga.

Palavra.

Antes tivesse feito dela um rabisco,
no canto de uma página amarga,
e desta não tivesse tecido
canções agridoces à mão calejada.

Palavra.

(RE)VIVER

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
(Conceição Evaristo)

Noites de insônia,
De música alta.
Pensamento calado.

Onde foram parar os risos abertos,
Os abraços apertados,
As tardes frescas de domingo?

No relógio da parede,
Os ponteiros correm depressa.
Sem me importar se de felicidade chorei,
Se o abraço de saudades eu dei,
Se de amores eu morri
E vivi outra vez.

Livro, na prateleira,
Empoeirado.

O vinil riscado.

Fotos no fundo da gaveta.
Café gelado.
Páginas do livro abandonado
Que a gente lê aqui e acolá.

Numas, a gente sorri:
E noutras,
Jura que entendeu a piada.

E de tanto tique-taque,
Que o relógio canta,
A gente vira gente.

Gente que sente falta
Dos pés imundos,
De cafuné,
De tardes tediosas
colhendo fruta no pé.

A SÓS, AMAR
O tédio é mero estado de alma
Daquele que se sabe amar a dois,
Mas não conhece a tenuidade
De se amar: a sós.

 

ANTES QUE POR OUTRAS LÍNGUAS SOUBESSE

E que mais posso eu querer?
Ver-te Camões, Dante ou Milton,

Ver-te poeta – e morrer.
(Maria Firmina dos Reis)

Amores distantes
Pares tardios
São poucos instantes
Em meio a tantos vazios

Temo o breu
Da alma relutante
Em um corpo ébrio
De dizeres redundantes

Nas entranhas
De um olhar suplício
Uma cova de resquícios
Perdido em artimanhas

Teu cheiro parece vício
À loucura, propício
Mas até me arrisco
E me arrisquei
A morar em seus risos.

Temo minhas preces,
Cidade cresce,
Noite desce,
O mundo a passos largos enlouquece.

O cheiro de ternura
(ainda permanece)
A sua pele escura
(desaparece)
Amor e desventura,
Perdidos nesta ditadura.

No fim, tornei-me algoz
aprisionada em minha própria voz?
Há que tenha piedade de nós?

A culpa foi toda tua
por desvirtuar uma rosa
que um dia pura,
afundou-se por desventura
em desatinos, prosa e amargura.

 

 

INDOLÊNCIA

Por que é que as acácias de repente
floriram flores de sangue?
(Noémia de Sousa)

Por que grita
e não se cala?
Por que dor é congênita
e não tarda?

Por que não mente
e não se aquieta?
Por que a carne é falha
inquieta?

Se ficasse quieta
poderia padecer
no âmago dos profetas,
mas preferiu ser poeta.

Da palavra mordida
no canto da boca amarga
Escondeu a ferida

e mascarou a pele manchada.

Recolheu o orvalho
dos olhos aflitos
Fatigados
Disperso em seu ventre azulado.

Enquanto as vozes atônicas
ecoavam nos navios
Ergueu teu ventre esguio
e gritou-se: indômita.
Inabalável.

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