Autoria: Eliane Tróia

Descrição da obra: O texto versa sobre uma dessas muitas noites estranhas no período de isolamento social. Uma profusão de referências que aquecem o coração, porque… Há de se lembrar da Arte, a fim de vencer o medo. Há de se pensar na Arte, a fim de proteger-se. Há de se querer a Arte, a fim de cuidar-se. Há de se permitir a Arte, a fim de manter-se VIVO.

Expressão: Literatura

Freud explica?

Há um novo vírus que nos tira o ar. Ordena que fiquemos em nossas casas. Simplesmente nos empurra para dentro, nos distancia de pessoas, troca amores por horrores. Abre covas com um palmo de distância umas das outras, nos impede o cheiro horrível da parafina escorrendo e dos crisântemos que um dia formaram as coroas de flores. Sequer nos perguntou se aceitávamos. Tampou todas as belas bocas, fazendo-nos restar somente os olhos, até mesmo para sorrir. E os prováveis beijos? Esses ganharam a chancela da impossibilidade. Colocou cantos em tudo que vemos. Agora são janelas. Simples janelas… Deitadas nas paredes eretas ou nas telas digitais, mas… São janelas! Contaminou um tal Zeitgeist e apequenou a divina vida humana e, em meio à essa pandemia, a sensação de impotência, o frio do mês de julho e a textura do cobertor de pelos altos transportam-me à lã do pobre carneiro que meu tio curtia no cômodo de madeira embolorada, incrustado no quintal da sua casa. Nunca entendi aquilo. Sempre tive pena do desconhecido carneirinho! Ali iniciavam-se todas as minhas férias de inverno. Ali eu me empanturrava de doce de leite feito no tacho esmaltado. Ali eu passava dias e dias tentando entender as mais variadas normas culturais, com as quais, geralmente discordava. Ali eu lia e escrevia muito. Ali eu sempre escutava: “Menina, tira a mão daí! Vai brincar, menina! Sai da beira do fogão, menina! Menina, você não pode pensar tanto! Essa menina não é normal!” Parece que, para mim, meu verdadeiro nome, aquele sabor e, principalmente, aquelas dúvidas não eram permitidos. O cobertor me incomoda. Preciso ir ao banheiro. Levanto-me. Não estou sonhando. Busco as horas e, por pura Persistência da Memória, vejo Dalí derretendo tudo. Não as encontro. Penso no quanto ele se declarou influenciado e encantado pela teia das ideias freudianas. E eis que me deparo com o que buscava. Está dentro do bolso esquerdo do colete de Freud. E ele que pensou que colocando a argola sob o botão, ninguém conseguiria pegá-lo. Foi fácil. Apenas meti a mão e desabotoei. Pronto. Novamente, escuto: “Tira a mão daí, menina!” Após o longo caminhar de menos de dois metros, chego ao banheiro. Agora estou no banheiro. Há uma escultura de porcelana aqui. O fundo é branco. O líquido amarelo descartado cria um som ritmado que me lembra a Fonte. Está muito frio, e eu, na posição dO Pensador antes Poeta, tão nua e permeável quanto a verdadeira poesia. Mas há um calor que não me deixa tremer. Talvez o mesmo calor que um dia tomou conta da Viúva Fresca. Um mensageiro lacônico com o propósito de dessacralizar o estado comum. Alguém sabe que calor é esse? Escuto: “É coisa de poeta.” À minha frente, o rolo de papel higiênico evoca Lygia Clark que, com algumas gotas de saliva vira uma estranha fita retorcida, sem orientação. E eu vou rasgando… Milímetro a milímetro, escutando cada nota da melodia do líquido amarelo, mais conhecido como urina. Nos azulejos acima do meio da parede, vejo uma imagem distorcida, mas consigo observar que trata-se de um rosto com uma atadura aparentemente rígida. Estática. Ele teria mesmo cortado a própria orelha? As toalhas vermelhas penduradas – esguias – parecem finalizar aquela Composição com Vermelho, Amarelo e Azul. Elas saltam aos meus olhos, e eu me lembro que naqueles dias de 1996 e 1997 não havia toalhas que fossem suficientes para deter o sangue que saía de dentro de mim, junto com aqueles seres que não se dispuseram a nascer. Toalhas de felpa, de linho, de gaze, brancas, floridas. De grandes ramos de flores miúdas, ou de ramos pequenos de flores grandes, como Os girassóis. Nada continha o vermelho pulsante da minha vida que envolvia as mortes sendo jogadas para fora aos pedaços. Todas as toalhas eram vermelhas. Tudo era vermelho. Eu só não tive a coragem que Frida teve. Não pintei uma tela com aquela cena. Não escrevi, sequer, um poema apocalíptico. Escuto: “Calma. Já passou.” Olho para as minhas unhas cobertas pelo esmalte vermelho cereja, e todos os meus dedos parecem sangrar atingidos por um alicate afiado no dia anterior. Eles sangram. Eu sangro. E eu que nem me lembrava dessa condição, desde a histerectomia! Penso, e me permito continuar. Abro a torneira e observo o jorrar pacífico da água. Eu o controlo. Mais ou menos. A decisão é só minha. Na ânsia de lavar aquele sangue todo, escolho mais. Envolvo minhas mãos numa espuma branca que tem cheiro dO Beijo que eu nunca ganhei. Afinal, não fomos Os Amantes que, um dia, idealizamos que seríamos. Assim vou dando nós melodiosos em meus dedos. Um e depois outro… Um e depois outro… Dez. Vejo a imensidão do mar na minúscula poça d’água que repousa no canto esquerdo do lavatório. Ela agora é o único mar possível. Resto de um outro alguém naquele mármore branco. Resto que me faz sentir saudades da água salgada que você me prometeu. Saudades do que não tive, porque além de nos encher de cantos, o novo vírus nos deixou com saudades de tudo. Sinuosas lágrimas vão bordando meu rosto imóvel. Ponto haste, ponto haste; ponto cheio, ponto cheio, e o caminho vai sendo marcado. Ponto a ponto. Escuto: “Coragem. Tudo vai passar.” Observo que ali no banheiro também tem cantos. Os da porta, da moldura da porta, do lavatório onde repousa o mar, dos revestimentos que protegem as paredes talvez nem tão eretas, das cerâmicas sob meus pés descalços e até do espelho. Mas não quero me deter nesses cantos, prefiro olhar para o centro do espelho. Uma luz direta me chama para dentro. Escuto: “Vem.” São os meus olhos, grandes e negros, me chamando para um passeio perfumado na Rua Avignon. Aceito? Nua eu já estou. Então… Uma sensação estranha me toma. Sinto-me úmida e quente. Lava incandescente que sai por onde consegue. Acima, somente a língua de fogo do terceiro olho. Eu estou cheia. Estouro. Eu nunca coube em mim, mesmo! Penso que, talvez, a lava seja a narrativa. Escrevo porque por mais que duvidemos, sempre há um caminho para a narrativa. Ela sempre sai por onde consegue. Lembro-me que quando Virgínia achou que não conseguiria, a lava saiu narrando Vita, chamando-a de Orlando. Escrevo. Escrevo de novo, e vejo poemas prontos. Inúmeros. Mais e mais. São muitos. Uma chuva deles. Um livro novo todo pronto. Produto de uma escrita a nanquim resistindo À Ventania do temporal. Nele também há cores, muitas cores; corpos, muitos corpos desenhados nas especiais páginas de seda. Lá está ele, com todas as páginas escritas à mão, balançando no varal, pingando o excesso das palavras suadas. Cá estou, suando as tais palavras. Preciso saber que horas são. Lembro-me do relógio que, descaradamente, furtei de Freud. Observo que o ponteiro menor olha para o sul e o maior visita os céus. Para mim, ainda é madrugada. Então converso com a fechadura pelos dois próximos movimentos do ponteiro de cima. Abro a porta orando de joelhos para que ela seja silenciosa. Sou atendida! Escuto: “Vá!” Não estou sonhando. Acredito que agora já posso retornar. No caminho de volta ao quarto, recebo uma bandeja redonda com quatro pés cravejados de rubis. Trata-se de um lindo e pesado objeto de ouro, com um Sol gravado por toda sua extensão. Sobre a bandeja, um camafeu, com a fotografia do seu rosto, forjado em ágata e quatro doces finos. São camafeus também. Mas desses de comer, decorados com semente de noz aberta, recheados de inspirações. Surrealismo? Dadaísmo? Expressionismo? Isso e mais. Tudo e mais. Só não me venha com onirismo. Já disse que não estou sonhando. Escuto: “Come.” Obedeço. Saboreio cada camafeu – de nozes ou de ágata – e me delicio com o resultado. Assento a bandeja no lugar do travesseiro. Volto para o abraço do cobertor de pelos altos – aquele que me lembrou do desconhecido carneirinho. Deito-me. Busco a melhor posição. Viro para o lado direito. O braço direito desliza por baixo da bandeja feito serpente sorrateira. O esquerdo segura a mão que precisa tocar a pele do rosto. Estico a perna direita até senti-la tensionada ao máximo. O pé direito também. Estico e estico, até compreender seu desenho sobre o colchão. Gosto disso. A esquerda relaxa e se dobra sobre ela. Ela não se importa. Está preparada para aguentar o que for preciso, sem perder o prazer de estar ali. Escuto: “Dorme.” Não consigo dormir. Já disse que não estou sonhando. Acho que são só nomes de gente pronta, de uma arte para sempre inacabada, que invadem a mulher para sempre inacabada. Uma epifania que me coloca em pleno estado de amor. Uma espécie de gozo da arte em mim. Penso o corpo e a obra. Um extensão do outro – ou os dois são a mesma matéria? Algum ponto entre meia-noite e meio-dia. Algum ponto entre o fim e o começo que já não é preciso identificar. Só deixar fluir. Um não-lugar bem mais prazeroso que o lugar anterior, porque eu posso estar onde eu quiser. Mesmo que continue escutando: “Sai daí, mulher” ou “Essa mulher não é normal!” Agora eu só quero babar sobre o pesado objeto de ouro e sobre você. Meus lábios se mexem, e eu peço: “Vem…” Mas escuto: “Se o sonho é a satisfação de que o desejo se realize, será que você não está sonhando?” Maldito Freud!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *