Fazer parte da história de uma comunidade colorida e diversificada como a LGBTQIA+ é sentir-se responsável pela consolidação de novos caminhos, olhando para o processo histórico da busca por reconhecer e valorizar as vitórias já conquistadas e do percurso que ainda há de ser trilhado. Os mesmos caminhos que, atualmente, esbanjam suas cores e brilhos – ao verem seus membros representarem a comunidade nas telas das TVs, computadores e celulares e, também, nas ondas do rádio, levando o reconhecimento da sua existência aos quatro cantos do mundo – vê-se quase como um “apagão” de desinformação quando a história retorna 50-60 anos atrás.

Diante do atual contexto de isolamento social e da vulnerabilidade apresentada pela população LGBTQIA+, conforme já apresentada em outras matérias desse Grupo Temático, buscamos compreender um pouco mais da vivência LGBTQIA+ durante os anos 60 e 70 no Brasil. Para isso, escutamos um pouco da história de HF, 61 anos e GS, 55 anos, homens brancos, cisgêneros, homossexuais, casados, com ensino superior completo e de classe média.

Logo em sua primeira fala, GS nos deu uma boa ideia de como estava a comunidade naqueles tempos: “há 40 anos não existia nem essa sigla LGBT. As pessoas eram taxadas, quando declaradas como homossexuais, com alguns títulos como “viadinho”, “bichinha” e “gay”. E outra coisa, até então era entendido na família como uma coisa proibida”, ao que HF complementa “[falar sobre homossexualidade] era algo muito velado, não se falava sobre isso. E ter alguém na família seria motivo de muita vergonha. Na época, nós não tínhamos diálogo, não tinha como você tentar falar, tentar expor ou entender o que você achava.”

A sexualidade dita como divergente da normalidade heterossexual vivia, naqueles tempos, um certo “silêncio” na sociedade. A opressão sociocultural pela heteronormatividade mostrava-se tão rígida que as histórias dos entrevistados tinham roteiro certo. Ao que GS conta “a gente não tinha outra opção. Era sabido que, em determinada idade, começava a cobrança que você tem que se casar com uma mulher e ter filhos, ter uma vida “normal”. Você chegava aos 17 anos e já perguntavam das namoradas e se você não tivesse algo “fixo”, já era visto como fora do padrão”. E HF concorda “eu vim a Campinas, onde namorei, noivei e me casei mesmo sem saber o que estava acontecendo”.

Das falas expressas pelos entrevistados é possível depreender um raciocínio muito semelhante ao apresentado por Mota (2012) em seu artigo. O contexto social de repressão, no âmbito público e privado, sobre a expressão da homossexualidade vivida naquela época é demasiado forte, de modo a exigir uma adaptação em reação ao meio, expressa nas relações heterossexuais “experimentadas” por muitos homens gays. Distante de seus desejos homoafetivos, que alguns levavam na clandestinidade, os relacionamentos com mulheres cumpriam com as expectativas fundamentadas na construção do gênero masculino em uma perspectiva bastante machista. Assim, silenciosamente, nossos entrevistados eram violentados pela hierarquização de poder que a heterossexualidade impõe sobre a homossexualidade.

Seguindo o programado, ambos os entrevistados tiveram filhos. Porém, o roteiro imposto pela opressão não trazia o final feliz, como também não traz nos tempos atuais. De modo semelhante ao processo que muitos jovens ainda passam, a autoaceitação da orientação sexual pelos entrevistados não foi fácil, algo que GS recorda: “Eu me vi envolvido com um homem e fiquei quase um ano lutando comigo mesmo e brigando porque aquilo era errado. Eu trazia toda aquela bagagem de que não podia. Além disso, eu estava casado e com dois filhos, família constituída. Como é que tomo a decisão de parar tudo? Não foi fácil. No processo você vai se fechando e se fechando, ficando com aquele problema na cabeça 24 horas por dia e, ao longo dos meses, vai afetando sua relação com a esposa, com os filhos, com o seu emprego. É uma m****”.  Não obstante, HF diz “minha separação foi no restaurante com minha ex-esposa dizendo que não tinha se casado com um cara triste como eu estava”. Mais uma vez o protagonismo fica com o sofrimento mental, que o desrespeito das construções sociais produz sobre as singularidades.

Sobre esse sofrimento, a revisão integrativa de literatura “Ansiedade em minorias sexuais e de gênero”, de maio de 2020 (FRANCISCO, 2020), evidencia que homossexuais apresentam níveis mais elevados de transtorno ansioso, como transtorno de ansiedade generalizada, fobia social, transtorno de estresse pós-traumático e pânico, quando comparados aos heterossexuais. Observando que, independente da orientação sexual entre as “minorias” sexuais e de gênero, o surgimento da ansiedade tem relação com a falta de suporte, estigma da sociedade, família e amigos e a vergonha por não seguir padrões heteronormativos.

HF conta que “o que começou a me agravar mais foi o momento que eu comecei a fazer aquilo que a sociedade pedia porque cada passo que eu dava eu me sentia mais preso, mais angustiado”. E o sofrimento iria aumentando na medida que eram dados passos fora daquele caminho padronizado, demonstrando a intensidade do processo de internalização que a abominação e a divergência da sexualidade instituída pela sociedade exerciam sobre os “invertidos”. Os entrevistados relatam que, no momento que a necessidade de explorar a sua sexualidade se tornava inegável, a angústia da dualidade de vida tornou-se insuportável. HF confidencia que “era uma dualidade. Você entrava na boate [gay] numa noite e depois voltava para casa com sua esposa e filha. Era uma dor porque você não tem para quem falar aquilo. Eu, com filha pequena e, extremamente, infeliz dentro do casamento”. GS conta: “eu só fui me dar a chance de que eu poderia viver isso tudo quando tinha 47 anos”.

O relato de opressão social, que levou os entrevistados a assumirem um relacionamento heterossexual, se iguala a muitas outras narrativas de homens gays tanto da época quanto da contemporaneidade. Robert Connell e James Messerschmidt (2013), em sua revisão coautoral do conceito de masculinidade hegemônica, ajuda-nos a compreender um pouco da violência incutida em nossas ações à medida que exploramos a existência de múltiplas formas de manifestarmos nossa masculinidade, dentre elas, a masculinidade gay. Todavia, não se pode limitar a visão do ato machista ao homem “dominante”, que a sociedade vem construindo e reiterando, caracterizados por traços típicos como: conservador, violento, detentor de poder, dominador e, claro, heterossexual. Usando das reflexões da psicologia discursiva de Wetherell e Edley, Connell e Messerschmidt (2013) sugerem que o sujeito masculino pode assumir, estrategicamente, uma postura a partir de determinadas circunstâncias particulares impostas a ele. No atual contexto, é evidente a apropriação da heterossexualidade pelos indivíduos gays, assumindo relacionamentos com mulheres, visando fugir do preconceito e construções heterossexistas estabelecidas socialmente, ou seja, manifestando em suas práticas o machismo e uma masculinidade hegemônica.

É preciso compreender que essa atitude não, necessariamente, é intencional. Os próprios autores supracitados, Wetherell e Edley (2013), explicitam isso ao referirem que “homens se acomodam a um ideal e se tornam tipos que são cúmplices e resistentes, sem que qualquer um incorpore exatamente aquele ideal”, ou seja, a possibilidade de trânsito entre as múltiplas masculinidades permitiu aos homens gays da época fugirem das “consequências” de suas orientações sexuais, as custas de um ato, mesmo que não intencional, que pode ser lido como machista.

Escutar as histórias dos entrevistados não nos remete, necessariamente, a uma reflexão negativa, mas nos traz o reconhecimento de uma realidade que precisa ser mudada a cada dia, para impedir que histórias parecidas se repitam com outras pessoas. A sexualidade humana é uma temática ampla e que está sendo largamente estudada e desenvolvida por muitas áreas do conhecimento. Essa demanda foi criada e ganhou força à medida que os rostos LGBTQIA+ foram reivindicando seu espaço na sociedade. Compreendemos o papel das mídias neste processo, trazendo a visibilidade e levantando a bandeira da existência, da aceitação e do respeito, buscando sedimentar seus valores de igualdade e construir os pilares de apoio contra as normatividades tóxicas. Contudo, ainda vivenciamos cenas de homofobia e uma realidade perversa de agressividade contra essa população. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, dentre a comunidade LGBT+ violentada e morta em 2019, 52,89% eram gays (OLIVEIRA; MOTT, 2019).

“Cada dia mais cedo eu vejo a criança, o adolescente e o homem se declarando gay. As vezes sem bem saber o que significa ser gay. Vejo eles terem coragem e o apoio das famílias para poder seguir aquele caminho e tentar ser feliz”, fala GS a sua visão sobre os dias de hoje e complementa “Existe a mídia, as leis e as redes sociais que ajudam muito trazendo informações e deixando todo mundo mais antenado no tema. Isso ameniza o sofrimento”.  HF pondera, dentre outros pontos que considera extremamente positivo o fato de que nos dias atuais “o modelo familiar está muito diferente e isso é uma coisa que define. Minha neta, por exemplo, tem três avôs. Vejo como algo extremamente positivo a mudança estrutural do núcleo familiar que destoa daquela visão patriarcal”. Tal apontamento feito por HF vai ao encontro dos dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2019), que aponta para um aumento de 61,7% do número de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, conferindo, portanto, uma ampliação da concepção de família, que avança para além da perspectiva freudiana (pai, mãe e filhos).

A retrospectiva propiciada pelas histórias dos entrevistados traz à tona uma realidade um pouco diferente da atual. Se a desinformação, o silêncio e a falta de representatividade nas mídias corroboraram com o preconceito, opressão e sofrimento mental daquela época, hoje a globalização traz consigo uma visibilidade positiva nunca antes vista e também com novos desafios nunca antes vividos. A “liberdade” de existência atual da comunidade LGBTQIA+ nos canais das mídias, levando informação, lugar de fala e representatividade também criou um outro local de LGBTQIAfobias e sofrimento mental, como demonstra a revisão sistemática de literatura “Cyberbullying and LGBTQ Youth” realizada por Roberto Abreu e Maureen Kenny (2018), a qual conclui uma prevalência de cyberbullying direcionados a jovens LGBTQIA+ chegando a 71,3%.

Os desafios que permeiam a igualdade social e a cidadania, independente da orientação sexual ou identidade de gênero, são muitos e, nesse resgate histórico, foi possível pisar por caminhos tortuosos do passado, identificando os novos obstáculos vivenciados por nós, no presente. Resta-nos saber os movimentos do futuro. Existirão grandes diferenças? Quais? Dentre tudo, uma coisa parece certa, a luta continua.

Entrevista por
Glieb Slywitch Filho

Texto por
Glieb Slywitch Filho
Flávio Adriano Borges

Colaboração do Grupo Temático Diversidade e Cidadania
Amanda Lélis Angotti Azevedo
Andressa Soares Junqueira
Beatriz Barea Carvalho
Camila Felix Rossi
Carla Regina Silva
Carolina Serrati Moreno
Jhonatan Vinicius de Sousa Dutra
Larissa Campagna Martini
Letícia de Paula Gomes
Natália Pressuto Pennachioni

Uma Reis Sorrequia

Créditos da imagem: Mego Studio no Freepik

Referências

MOTA, M. P. A construção da homossexualidade no curso da vida a partir da lembrança de gays velhos. Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 6, n. 07, 26 nov. 2012.

FRANCISCO, L. C. F. L. et al . Ansiedade em minorias sexuais e de gênero: uma revisão integrativa. J. Bras. Psiquiatr. 2020; 69(1):48-56. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852020000100048&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 08 Out 2020.

CONNELL, R. W.; MESSERSCHMIDT, J. W. Masculinidade hegemônica: repensando o conceito. Rev. Estudos Feministas. 2013; 21(1):241-282. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ref/v21n1/14.pdf. Acesso em: 09 Out 2020.

OLIVEIRA, J. M. D; MOTT, L. Mortes violentas de LGBT+ no Brasil – 2019. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 2020. Disponível em: https://grupogaydabahia.com.br/relatorios-anuais-de-morte-de-lgbti/. Acesso em: 02 Out 2020.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 10 Out 2020.

ABREU, R.; KENNY, M. Cyberbullying and LGBTQ Youth: A Systematic Literature Review and Recommendations for Prevention and Intervention. Journal of Child & Adolescent Trauma. 2018; 11:81-97. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/318660552_Cyberbullying_and_LGBTQ_Youth_A_Systematic_Literature_Review_and_Recommendations_for_Prevention_and_Intervention. Acesso em: 10 Out 2020.

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