A situação atual da pandemia pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) é uma experiencia inédita aos brasileiros. A população se vê em um momento delicado em que se deve combater algo transmissível, invisível e que só saberá se estará realmente segura após adquirir imunidade. Por conta desse estresse crônico, é natural que as pessoas apresentem sofrimento psíquico e transtornos mentais relacionados ao estresse.

Esses efeitos também são percebidos entre aqueles que têm a função de cuidar da saúde das outras pessoas: os profissionais da saúde. Além destes fatores, eles também adquirem os efeitos adversos da pandemia, amplificados pelo fato de irem na contramão do distanciamento social por terem que trabalhar em serviços essenciais, que os expõem a ambientes com altos riscos de contaminação da COVID-19.

Os profissionais dessa área, como enfermeiros, fisioterapeutas, médicos e técnicos de enfermagem, por trabalharem em contato direto com pacientes e seus fluidos, estão entre os mais vulneráveis à infecção da COVID-19. Isso ocasiona estresse e pressão psicológica por causa da possibilidade de se infectar e espalhar o vírus para seus próprios familiares, colegas de trabalho e até mesmo pacientes. Somado a isso, longas jornadas de trabalho, falta de equipamentos de proteção individual (EPI) e infraestrutura de atendimento precária podem causar sentimentos de solidão e desesperança, além de estados emocionais como irritabilidade, cansaço mental, físico e desespero. Outro fator agravante é que, com o afastamento de colegas de trabalho por conta da infecção pelo coronavírus (ou por causa de outros motivos), há sobrecarga no trabalho por diminuição da equipe, que aumenta ainda mais o estresse crônico.

 

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Essas situações extremamente estressantes podem levar a desenvolver sofrimento mental em diversos graus e de formas diferentes nesses trabalhadores. Quando essa aflição passa a ser muito grave a ponto da pessoa apresentar sofrimento significativo e/ou impacto na vida diária, podemos pensar então em transtornos psiquiátricos, como depressão, transtorno de ansiedade, transtorno do estresse agudo, transtorno do estresse pós-traumático, entre outros.

O sofrimento mental desses trabalhadores pode levar, ainda, a uma maior quantidade de erros, demora no tratamento por falhas de comunicação na equipe de saúde e afastamento desses profissionais dos seus respectivos locais de trabalho.

No caso daqueles que tiveram que ficar longe de suas famílias para não contaminá-las, o distanciamento social, apesar de ter seus benefícios comprovados na diminuição do contágio da doença, os priva de um fator crucial contra complicações na saúde mental, precisamente quando eles estão em um momento de maior fragilidade emocional, pelo fato de estarem vulneráveis e sobrecarregados por conta das rápidas e drásticas mudanças nos processos de trabalho, do risco de vivenciar o colapso da capacidade assistencial do serviço, do isolamento social e afetivo, e da dificuldade para estabelecer medidas de autocuidado, como atividades físicas, lazer e sono por conta da sobrecarga de trabalho.

 

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Mesmo em um momento mais estressante do que o normal, em que se sabe da existência de sofrimento psicológico, ainda é difícil para esses trabalhadores procurarem a ajuda de familiares, amigos ou colegas de trabalho para lidar com as dificuldades de saúde mental que estão passando. Uma das razões mais comuns são o estigma e o medo referentes a um possível dano futuro à carreira profissional. Eles também são mais relutantes em buscar ajuda profissional especializada, como psicólogos e psiquiatras, o que pode gerar maior sobrecarga do sistema de saúde, por uma queda de desempenho dos profissionais adoecidos.

Não suficiente, existem outros estressores importante, sendo eles: a inexistência de um tratamento específico para a COVID-19; o foco no cuidado paliativo dos pacientes; as incertezas quanto ao quadro geral do país; o sofrimento dos pacientes e familiares; o burnout recorrente da profissão e a culpa de situações fora de seus controles, como a perda de pacientes para a doença.

Além de todas essas dificuldades, há um espectro muito vasto da percepção que os profissionais da saúde podem receber da população, que pode variar entre uma reprovação social, por causa do contato que eles têm com os pacientes contaminados, o que, consequentemente, os veem, também, como possíveis vetores, se contaminados, até a aclamação de super-heróis que não falham, não desistem ou não ficam doentes. Em ambas as situações esses profissionais são prejudicados, já que os cidadãos não os enxergam através de uma visão humanizada – que é muito presente entre esses profissionais – e pela falta de empatia em relação à situação estressante que vivenciam no trabalho.

 

Então, o que você e seus familiares podem fazer para auxiliar na melhoria da saúde mental desses trabalhadores?

  • Siga as recomendações sanitárias do Ministério da Saúde para minimizar ao máximo o contágio da COVID-19. Assim, você estará se protegendo e também contribuindo para diminuir a sobrecarga do sistema de saúde e, consequentemente, o estresse dos profissionais da área;
  • Faça um exercício de empatia e tente se imaginar no lugar desses profissionais, para que você entenda um pouco mais das dificuldades deles.

 

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E, para você que é profissional de saúde, o que fazer para melhorar a sua própria saúde mental?

  • Reconhecer alguns dos sintomas de estresse – que podem se apresentar como irritação, ansiedade, perda de motivação, cansaço, tristeza, dificuldades para dormir e dificuldades de concentração – pode te ajudar a procurar ajuda para combatê-los;
  • Ao identificá-los, que tal conversar sobre isso que você está passando no trabalho com pessoas de sua confiança, como familiares, amigos, colegas de trabalho ou supervisores?
  • Ao passar por uma situação muito estressante, é muito importante conversar com todos da equipe que estavam envolvidos nessa situação depois de tudo se acalmar. Que tal se reunirem e conversarem sobre o que aconteceu?
  • Algumas coisas não são passíveis de se ter controle, você consegue pensar sobre suas limitações?
  • Reconheça que o seu papel é crucial na luta dessa pandemia e que você está dando o seu máximo;
  • Tente manter uma rotina constante sempre que possível, com refeições, sono e exercícios físicos adequados.

 

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Para mais informações acerca de cuidados de saúde mental para profissionais de saúde, acesse: https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46906-profissionais-do-sus-ja-podem-contar-com-suporte-psicologico

 

Referências

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Autoria de
Leandro Cândido de Souza
Renata Postel Moreira

Revisão de Conteúdo por
Prof. Matheus Fernando Manzolli Ballestero
Prof. Francisco de Assis Carvalho do Vale
Prof. Jair Borges Barbosa Neto

Créditos da imagem: Freepik no Freepik

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