Ser homem, nas sociedades ocidentais contemporâneas, é estar enquadrado  no  ideal  de  masculinidade. Para alcançar tal ideal, os homens negam comportamentos tidos como femininos e prezam por demonstrar características tidas como masculinas e, categoricamente determinadas pela sociedade, tais como a virilidade, a força e a invulnerabilidade, sacrificando, muitas vezes, a própria saúde em prol desse ideal (GANDRA et al, 2021).

O Brasil se modelou na estrutura patriarcal, no domínio dos homens, no gênero masculino, seja em atividades econômicas ou sociais. À mulher, coube um espaço limitado à vida doméstica e por muito tempo foi vista como “propriedade” do pai e posteriormente do marido, sendo parte do lar, uma mulher do lar. Essas construções vêm se remodelando com o passar dos anos, mas o patriarcado ainda tem grande influência dentro da sociedade e das relações. O poder patriarcal é uma das raízes do machismo estrutural, dá origem aos ideais de como ser homem e ser mulher dentro de uma sociedade, “dividindo papéis em razão do gênero e dando um tratamento desigual para as pessoas” (ROCHA et al, 2020). O machismo é um dos principais fatores que contribuem para a dificuldade do homem de se perceber vulnerável e buscar informações acerca da sua saúde (ROCHA et al, 2020).

A atenção à saúde do homem foi por muito tempo negligenciada pelos diferentes setores da saúde, dos diversos níveis governamentais. Entretanto, com a aprovação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), em agosto de 2009, percebeu-se que houve uma crescente discussão no envolvimento do processo saúde e doença dos homens.

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, os homens vivem, em média, 7,1 anos a menos do que as mulheres e, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a perspectiva de vida da população masculina chegou a 72,2 anos, enquanto a feminina atingiu 79,3. Percebe-se que esse desconhecimento sobre a saúde do homem e a falta de informação acaba tendo uma repercussão bastante negativa sobre os  índices de morbimortalidade masculina, assim como sua expectativa de vida (Brasil, 2018).

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem aponta que os homens representam 52,9% do público internado em hospitais da rede pública do país ligados ao Sistema Único de Saúde, ou seja, representam cerca de 2,7 milhões de casos. De acordo com o Ministério da Saúde, a primeira causa de morte masculina são as doenças cardíacas, seguidas pelas cerebrovasculares, depois por homicídios, acidentes de trânsito, pneumonia, doenças do fígado, diabetes, hipertensão, cânceres (principalmente de pulmão, próstata e estômago), outras doenças circulatórias e consequências advindas do Vírus da Imunodeficiência Humana (BRASIL, 2018).

A expressão “masculinidade tóxica” passou a ser utilizada para nomear, com tom crítico, o conjunto de comportamentos associados à suposta crença da superioridade masculina, a qual é acompanhada de uma agressividade desleal, que alcança os próprios homens e as pessoas com quem estes se relacionam (MESQUITA et al, 2021). A masculinidade torna-se incompatível com a vida comunitária, uma vez que cria situações de risco diante da sua expressão, seja entre homens ou de homens para com outras pessoas do seu ciclo de convivência. Os índices de morte por causas não naturais, a violência doméstica e os crimes de ódio LGBTQI+fóbico são exemplos de efeitos desse modelo de masculinidade (SILVA, 2020).

Na saúde, isso não é diferente. Na rede de serviços, os homens se apresentam, principalmente, por questões relativas a acidentes e violências ou sintomas acumulados de algum adoecimento. A prevenção é uma condição incomum na dinâmica de cuidado à saúde pelos homens, situação que é reflexo das estratégias ainda frágeis de integrá-los à rede de cuidado. Homens trans, gays e bissexuais ainda são pouco absorvidos pelos serviços e enfrentam discursos moralizantes e discriminatórios por parte de profissionais. Homens negros têm os seus atendimentos ignorando o racismo e o modo como ele impacta em sua saúde. Existe uma grande fragilidade na oferta de cuidado à população encarcerada e em situação de rua, o que intensifica o adoecimento dos homens (em sua maioria, negros) nessas situações. No que diz respeito às mulheres, questões acerca de reinfecções sexualmente transmissíveis pelo não tratamento dos seus parceiros têm sido comuns, além do planejamento familiar que pouco envolve os homens para conduzir práticas de cuidado à saúde sexual e reprodutiva em suas relações (SILVA, 2020).

A  presença  masculina  nos  espaços  de  saúde  vem  sendo um desafio  para  a  saúde  do  homem.  As campanhas  voltadas para essa população estão sempre vinculadas ao câncer de próstata; além disso, a percepção é a de que o homem não procura os serviços de saúde, dando-lhes uma invisibilidade que acaba por ter, como resultado, a ausência da população masculina, no que diz respeito aos cuidados preventivos (MARTINS et al, 2021).

Existe insatisfação na população masculina em ter sua imagem atrelada somente  a  elementos  de  beleza. Desse modo, a aparição na mídia apresenta a visão de um  homem metrossexual, que se importa  somente com a sua saúde física e corporal, não se observam campanhas chamativas a esta população, que reforcem a importância do bem-estar no âmbito da promoção à saúde e, principalmente, na prevenção de agravos. Tendo o homem um papel social de provedor da família, a mídia projeta nele uma visão capitalista, por ser a figura que sustenta financeiramente seus dependentes. Sendo assim, é mais vantajoso oferecer produtos para consumo que o leve por instinto a comprar e gerar lucro (MARTINS et al., 2021).

Homens trans, gays, bissexuais, intersexuais e assexuais têm produzido novos modos de compreender e vivenciar as masculinidades, mesmo que, por diversos momentos, a repetição e manutenção de estereótipos da masculinidade produzam situações de conflito entre os demais grupos sociais. O padrão de dominação (homem branco cisgênero heterossexual, cristão, reprodutor, classe média alta e urbano) tem sido contestado por indivíduos que revelam outras formas de ser homem, reconstruindo os entendimentos sobre corpo, sexualidade, identidade de gênero, raça, classe, território e suas intersecções. Se os movimentos feminista, negro e LGBTQI+ têm denunciado os efeitos nocivos da dominação masculina, os homens divergentes do padrão têm formulado outros caminhos para a construção de uma masculinidade possível (SILVA, 2020).

O autocuidado é realizado pelo indivíduo com o objetivo de promover a sua saúde, podendo ser de forma preventiva, como  tratamento ou de modo a evitar um agravo. Porém, essas medidas devem ser ensinadas para o indivíduo. O profissional de saúde deve guiá-lo para que ele possa entender cada passo do procedimento, sua  importância e suas consequências, bem como ensiná-lo a identificar alterações na saúde (MARTINS et al., 2021).

A adoção de hábitos saudáveis, a prática de atividade física regular, a alimentação balanceada e o uso moderado de bebidas alcoólicas são cruciais para diminuir agravos de saúde. A aferição da pressão com frequência e acompanhar as taxas de colesterol são importantes para evitar doenças crônicas como a diabetes e a hipertensão. Outros testes importantes a serem realizados dizem respeito às infecções sexualmente transmissíveis como o teste de HIV, hepatite B (HBsAg) e do vírus da hepatite C (anti-HCV). Os homens com mais de 50 anos e com sintomas de problemas na próstata, como dificuldade para urinar, jato urinário fraco ou sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, devem ir ao médico para investigar o problema. A identificação precoce de doenças aumenta as chances de um tratamento eficaz, por isso, alguns exames devem fazer parte da rotina dos homens.

Essas medidas são fundamentais, pois há um afastamento do homem relacionado a  medidas de autocuidado e isso é consequência de alguns fatores, como a visão que a sociedade impõe sobre o que é ser homem, um ser forte e que não adoece, um ser invulnerável. Isso afeta a figura masculina, impedindo os homens, às vezes, de  assumirem que o seu corpo apresenta alguma alteração e, consequentemente, de  buscarem um atendimento imediato, o que frequentemente os levam a solicitarem ajuda quando o caso se tornou mais grave. Outro fator é o desconhecimento sobre as possíveis doenças que o seu corpo pode adquirir, seus sinais e as medidas preventivas que podem realizar (BOTTON, CUNICO, & STREY, 2017).

Portanto, destaca-se que comunicação em saúde, seja ela verbal ou não verbal, é fundamental para familiarizar a população masculina com sua saúde, trazendo o autoconhecimento sobre o corpo, mostrando suas vulnerabilidades e necessidades em saúde, minimizando, assim, os impactos provenientes da falta de conhecimento, prevenção e autocuidado.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. (2018). Tábua de mortalidade de 2018. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tabuadevida/2008/default.shtm. Acesso em: 21 de dezembro de 2021.

BOTTON, A., CUNICO, S. D., & STREY, M. N. (2017). Diferença de gêneros no acesso aos serviços de saúde: problematizações necessárias. Mudanças- Psicologia da Saúde. 25(21), 67-72, jan./jun. https://doi.org/10.15603/2176-1019/mud.v25n1p67-72.

FONTES, O. A., BORELLI, F. C., & CASOTTI, L. M. (2012). Como ser homem e ser belo? Um estudo exploratório sobre a relação entre masculinidade e o consumo de beleza. REAd. Rev. eletrôn. adm. 18(2), 400-432. https://doi.org/10.1590/S1413-23112012000200005

GANDRA Pereira, K. ., PEREIRA de Cristo, S. M. ., OLIVEIRA Barbosa, F. J. ., NOGUEIRA da Silva, P. L. ., FONSECA Coelho Galvão , A. P. ., & dos Reis Alves, C. . (2021). Fatores associados à masculinidade no diagnóstico precoce do câncer de próstata: revisão narrativa. Nursing (São Paulo), 24(277), 5803–5818. https://doi.org/10.36489/nursing.2021v24i277p5803-5818

MARTINS, Elizabeth Rose Costa et al. Promoção à saúde do homem e os meios de comunicação como ferramenta na perspectiva do autocuidado. Research, Society and Development, v. 10, n. 6, p. e0410615421-e0410615421, 2021. DOI: 10.33448/rsd-v10i6.15421. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/15421. Acesso em: 21 dec. 2021.

MESQUITA, Yukimi Mori; DA SILVA CORRÊA, Hevellyn Cielly. A Construção da “Masculinidade Tóxica” sob a Perspectiva Psicanalítica. Revista Subjetividades, v. 21, n. 1, 2021.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. (2018). Perfil da morbimortalidade masculina no Brasil [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas: Ministério da Saúde. ISBN 978-85-334-2575-0 1.

ROCHA, F C. S., et al. (2020). Acolhimento da população masculina sob a percepção dos profissionais de enfermagem: desconstrução da invisibilidade. Research Society and Development. 9(12) e6791210708. http://doi.org/10.33448/rsd-v9i12.10708.

SILVA, Diogo Sousa. Existe uma barreira que faz com que as pessoas trans não cheguem lá: itinerários terapêuticos, necessidades e demandas de saúde de homens trans no município de Salvador-BA. 2017.

https://bvsms.saude.gov.br/saude-do-homem-prevencao-e-fundamental-para-uma-vida-saudavel-2/

Autoria de:

Willian Martins Araújo

Revisão de Conteúdo por:

Flávio Adriano Borges

Apoio:

GT Diversidade e Cidadania

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