Série: De parente para parente 

Título: Liderança Terena denuncia situação da comunidade na pandemia

O grupo temático de saúde indígena do InformaSUS iniciou uma nova série de entrevistas intitulada “De parente para parente”. Nesta série, indígenas buscam ouvir outros indígenas em suas vivências relacionadas à saúde de seu povo. A primeira entrevista foi realizada com Pedro Luiz Gomes Lulu, o Pedro Lulu, do povo Terena do estado de Mato Grosso do Sul, liderança local e membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI).

Pedro conta a experiência de sua comunidade com a pandemia do COVID-19 e quais tem sido os impactos no cotidiano da população daquela região. Relata os desafios e as dificuldades que a comunidade tem passado frente à situação de saúde, além de fazer um desabafo sobre o descaso com a saúde do Terena. Por fim, Pedro fala sobre as medidas de prevenção que a comunidade e lideranças locais adotaram, bem como os remédios caseiros e o uso das ervas medicinais.

O Mato Grosso do Sul abriga uma das maiores populações indígenas do país, sendo os Terena um destes povos. Os Terena destacam-se por sua resistência através dos séculos, lutando para manter viva sua cultura, construindo estratégias de superação de adversidades ligadas ao antigo contato, além de mudanças bruscas na paisagem, ecológica e social, que o poder colonial e, em seguida, o Estado brasileiro os reservou. Com uma população estimada em 16 mil pessoas em 2001, os Terena, vivem atualmente em um território descontínuo, fragmentado em pequenas “ilhas” cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo (ISA, 2020).

Da família Aruak, a língua Terena é falada pela maioria das pessoas que se reconhecem, hoje, como Terena, mas seu uso é desigual nas várias aldeias e Terras Indígenas, sendo que ela é a fonte mais importante que se tem para conhecer a história desse povo (BITTENCOURT; LADEIRA 200). O povo Terena possui suas próprias características culturais, dentre elas estão: artesanatos, pinturas, comidas típicas, danças tradicionais e os meios de cura tradicionais que se encontram em remédios caseiros adquiridos por meio de raízes, ervas e rituais de cura com os pajés que são anciões da comunidade.

Depois de ser entrevistada pelo InformaSUS-UFSCar no mês de julho, a indígena do povo Terena Ariele Gomes Botelho, recém-graduada no curso de enfermagem, entrevistou Pedro Lulu, indígena pertencente ao mesmo povo que é membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena, o CONDISI, no Mato Grosso do Sul. A entrevista aconteceu no dia 08 de agosto de 2020, por meio de contato online, utilizando-se o recurso de áudios pelo aplicativo do Whatsapp.


Ariele: O senhor poderia se apresentar para a gente e compartilhar como está atualmente o cenário da pandemia de COVID-19 na região onde você mora?

Sr. Pedro Lulu: Sou Pedro Lulu, liderança de um povo da etnia Terena do estado de Mato Grosso do Sul. Conselheiro de saúde indígena do Estado. A situação hoje, na nossa região da comunidade Terena do município de Aquidauana, já se passou da primeira fase do pico que deu-se entre dia 11 a dia 20 [julho] onde perdemos 15 parentes[1], hospitalizaram mais de 28 e hoje temos um avanço muito grande e quase um colapso em nossa região nas 9 localidades aqui no município de Aquidauana.

Ariele: O senhor poderia contar para a gente como está sendo a experiência da comunidade indígena com a pandemia, o que está acontecendo, se estão tendo dificuldades? Quais são os desafios da população indígena no seu município e na sua comunidade?

Pedro Lulu: Em relação ao contágio que foi muito rápido aqui na minha região, percebi que não houve a parte da ação preventiva no início [da pandemia] dos órgãos responsáveis ou competentes pela nossa região, no caso: município, estado, governo federal, ou a própria SESAI, que tem o Subsistema da Saúde Indígena. Não houve um trabalho de prevenção com os trabalhadores, não foi colocado à disposição equipamento de proteção individual (EPI) para eles e foi então onde ficamos à mercê da situação. Chegamos ao colapso, chegamos a perder 15 parentes. Seria [importante] um modelo ou até mesmo algum tratamento precoce com alguns equipamentos básicos (…), no entanto essa parte preventiva não aconteceu.

Ariele: O senhor poderia contar para a gente como está sendo feita a organização interna da comunidade em relação à pandemia?

Pedro Lulu: Em relação a nos organizar e preocupar com a comunidade, no dia 23 de março começamos a unir os noves caciques e tomamos a decisão de fazer uma barreira sanitária, entre todas as aldeias, compondo 9 equipes em 24 horas. Mas estávamos lá sem proteção, sem EPI, sem formação técnica, sem uma avaliação técnica, onde as nossas próprias lideranças começaram a sofrer infecções e até a serem hospitalizados. Mas a barreira continua, vão fazer agora 5 meses e, mesmo com a pandemia e as infeccções dentro da nossa comunidade, a barreira continua e é a nossa estratégia. (…) E nós já utilizamos nossos medicamentos, nós recorremos as nossas raízes, quando vimos nossos parentes indo a óbito, nós começamos a tomar as nossas ervas medicinais. São raízes que imunizam o nosso corpo, foi a estratégia que nós tivemos que recorrer. (…). Então graças às nossas plantas medicinais que hoje nós estamos aqui firmes e fortes. E agora estamos mantendo o isolamento de aldeia para aldeia, e toda a comunidade tem horário para sair e horário para recolher. E quem mora na cidade não está entrando na aldeia, fizemos um decreto muito rígido. Não está permitida a entrada de vendedores ambulantes nas aldeias e não está permitida a entrada de pessoas que não residem na aldeia. E a nossa barreira continua 24 horas.


Referências:

BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes; LADEIRA, Maria Elisa. A história do povo Terena. [S.l: s.n.], 2000. Disponível em https://repositorio.usp.br/item/001096211. Acesso em 09 de set de 2020.

Instituto Socioambienteal (ISA). Terena. In: Povos Indígenas no Brasil. Disponível em https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Terena. Acesso em 09 de set de 2020.

[1] A expressão “parente” é comumente usada pelos povos indígenas no Brasil para se referirem uns aos outros, numa compreensão que extrapola a consanguinidade e os aproxima em suas trajetórias históricas e políticas.

 

Autores:
Ariele Gomes Botelho
Dênis Delgado da Silva
Vanessa Carneiro Borges
Vanusa Vieira Gomes

Revisão:
Mariana Fagá
Willian Luna

 

Créditos da imagem: Arquivo pessoal de Pedro Lulu

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