A pandemia do novo coronavírus, que provoca a SARS-CoV-2, atingiu a cidade de Rurópolis, localizada no estado do Pará. Assim, as medidas preventivas como a ampliação da Atenção Primária à Saúde em Rurópolis, aliados à mobilização social da população local, se mostraram essenciais no controle do alastramento da doença. 

Inaugurada no auge da Ditadura Militar, a cidade contava com 1.725 casos e 21 óbitos em decorrência de COVID-19 confirmados até 27 de novembro e com uma taxa de recuperação dos pacientes que supera os 90%, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Os números fizeram com que o município entrasse para o Catálogo de  Experiências Exitosas da Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS – enfrentamento à Covid-19 do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS). Uma conquista proveniente do trabalho em rede entre profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), moradores, voluntários e do recente fortalecimento da Atenção Primária à Saúde em Rurópolis. 

 

Rurópolis Presidente Médici

BR-230 em Rurópolis no estado do Pará
Rodovia BR-230, também conhecida como Rodovia Transamazônica em Rurópolis. Foto: Divulgação/Google Maps

Urbanisticamente planejada durante a vigência do Programa de Integração Nacional (PIN) pelo governo militar brasileiro em 1970, Rurópolis surgiu com o intuito de assentar cerca de 500 mil pessoas ao lado de estradas recém construídas (e assim preencher os ditos “vazios demográficos amazônicos”). Em consequência, a cidade foi inaugurada em 12 de fevereiro de 1974, levando o nome de seu principal idealizador: Emílio Garrastazu Médici, conforme consta no portal oficial da prefeitura de Rurópolis.

Na época, a rodovia Transamazônica foi a principal via escolhida para o processo. Assim, nasceu a primeira cidade construída no entroncamento das rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém: Rurópolis Presidente Médici. Como a proposta do PIN era utilizar a mão de obra nordestina advinda da seca de 1969 e 1970, e mobilizar o sentimento nacionalista da população, a colonização da Amazônia recebeu lemas como “integrar para não entregar” e atraiu imigrantes de todas as regiões brasileiras.

Contudo, ainda de acordo com o site da prefeitura municipal, o tal projeto de colonização não foi efetivo como esperava o governo federal à época, elevando Rurópolis à categoria de distrito do município de Aveiro (permanecendo sob a administração deste de 1987 a 1988). Em 1988, por sua vez, parte da sociedade civil solicitou a emancipação política da comunidade; o que culminou num plebiscito realizado em 24 de abril, que elevou o território à categoria de município – desta vez sob o simples nome de Rurópolis, através da Lei Estadual nº 5446 de 10 de maio de 1988. 

 

46 anos de desafios sociais que refletem na saúde de Rurópolis

Se na época da emancipação o município abrangia uma área territorial de 6.922,96 km², hoje, segundo dados atualizados em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rurópolis possui 7.021,321 km², consolidando-se como um extenso território cuja população é de apenas 51.500 pessoas. Assim, sua densidade demográfica é de somente 5,71 habitante por km², o que, muitas vezes, se torna um empecilho na distribuição de recursos e políticas públicas a toda população. 

É o que aponta Fernanda Cardoso, atual Secretária de Saúde e enfermeira efetiva da rede pública de saúde de Rurópolis há 15 anos: “O contexto geográfico, econômico e social é um enorme desafio para fazer a diferença na saúde da cidade”, frisa. Vários motivos constituem esses desafios, como o baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e alto índice de pobreza da população.

Pobreza da qual 60% da população ruropolense vive abaixo da linha, de acordo com dados do Sistema de Informações de Indicadores Sociais do Ministério Público do Estado do Pará. Desse, 48% presente na população urbana e 67% na rural. Além disso, Rurópolis ainda possui um dos mais baixos Produto Interno Bruto (PIB) per capita do estado do Pará, com R$ 7.315,67, conforme divulgado pelo IBGE em 2017. 

Portanto, por ser um dos municípios mais pobres do Pará, a maior parte da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, a gestão de uma rede pública centrada no cuidado e diálogo próximo com a comunidade, base central da Atenção Básica – definida pela Portaria 648/GM de 28 de março de 2006, que instituiu a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) -, tem sido essencial à manutenção do trabalho da Atenção Primária à Saúde em Rurópolis e ao enfrentamento à COVID-19 na cidade. 

 

Organização, prevenção e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde em Rurópolis no combate à pandemia

Morador sendo higienizado por agente de saúde
Higienização por álcool gel foi um importante aliado do combate a pandemia. Foto: Divulgação/ Secretaria da Saúde de Rurópolis

  Desde que assumiu como gestora de saúde na cidade, Fernanda Cardoso tratou de fortalecer os mecanismos e cuidados da Atenção Primária, a fim de tornar a atuação do SUS na vida da população do município mais efetiva. Efetiva tal como define a Portaria que instituiu a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), a qual afirma que “é função do serviço proporcionar ações de caráter individual e coletivo, garantir acesso a diversas unidades de atendimento que resolvam as necessidades do paciente e ordenar o funcionamento das variadas redes de saúde”. 

Para isso, a tarefa de entender, conhecer o território e melhorar a estrutura da Atenção Básica, integrando os serviços de Vigilância em Saúde com os da Atenção Primária à Saúde em Rurópolis foi essencial antes mesmo da chegada da pandemia de coronavírus na cidade. Foi desta forma e também por conta das melhorias feitas na infraestrutura das Unidades Básicas de Saúde (UBS) entre 2018 e 2019, além das ações de prevenção, que a cidade conseguiu apresentar um êxito destacável na contenção da SARS-CoV-2.

Assim, foi só em 12 de maio, quando os casos confirmados da doença já haviam se alastrado por boa parte do Brasil, àquela altura fazendo mais de 163.427 vítimas e causando o óbito de 11.168 delas, que o primeiro infectado pelo novo coronavírus foi registrado em Rurópolis. “O que é importante ressaltar é que a equipe da cidade já estava organizada para estabelecer serviços, fluxogramas e demais atividades semelhantes desde o final de fevereiro”, conta Fernanda, enfatizando as ações de prevenção. 

Rosicleia Borges, enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde de Rurópolis que tem atuado na linha de frente da pandemia, complementa que já no fim de fevereiro foi montado o COE (Comitê de Operações Emergenciais) com equipes de APS, laboratórios e hospitais. A ação tinha o propósito de organizar um Plano de Contingência que preparasse a cidade para a chegada dos primeiros infectados. “Assim, logo no início de março nos reunimos com representantes de igrejas, escolas e comércio para preparar a população, já que o vírus estava chegando em cidades vizinhas”, relata. 

 

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A partir daí, segundo a enfermeira, foram pensadas ações intensas de prevenção. Algumas delas: suspensão das aulas; reorganização dos horários de atendimentos bancários e comerciais; estipulação de decretos de emergência pela prefeitura municipal – em 29 de maio, Rurópolis chegou a decretar estado de suspensão total das atividades (lockdown) -; afastamento de funcionários e profissionais pertencentes aos grupos de risco da COVID-19; montagem de barreiras sanitárias nas estradas, visitas domiciliares a possíveis infectados com a doença e, posteriormente, montagem de um local específico para o atendimento; serviço de cadastro no terminal rodoviário para registro de quem saía e entrava na cidade; e orientação massiva aos ruropolenses.

Uma das ideias para prevenção que mais se mostraram efetivas no combate à pandemia na região foi o Disque Vigilância, um canal com número próprio por onde foi possível realizar o monitoramento dos casos suspeitos. Segundo Rosicleia, os próprios moradores passaram a informar quem havia voltado de viagens recentemente e, assim, poderia estar infectado com o novo coronavírus. “As pessoas que viajavam ficavam isoladas por sete dias e, caso continuassem assintomáticas após esse período, eram liberadas. Caso não, permaneciam isoladas por mais 15 dias”, conta.

Além das ações preventivas, foi montada uma rede paralela e específica para atendimento das vítimas da SARS-CoV-2, que conta com mais de 60 profissionais. Esta rede desviou o fluxo das Unidades de Saúde (UBS) para que pacientes suspeitos de COVID-19 não entrassem em contato com os pertencentes a grupos de risco, como idosos, gestantes e crianças. “Assim que não foi mais possível visitar moradores, montamos a primeira unidade, no centro da cidade, do Centro Integrado de Combate à COVID-19 (CIP-COVID), onde o paciente tem acesso a exames, testes diagnósticos, consultas, atendimentos psicológicos, internação, transporte e assistência farmacêutica”, detalha a Secretária de Saúde Fernanda.

Neste mesmo CIP-COVID também se instalou a equipe multidisciplinar de monitoramento do Disque Vigilância, formada inicialmente através do reaproveitamento de profissionais da saúde que estavam com atividades suspensas até aquele momento. Entre eles dentistas, nutricionistas, enfermeiros, farmacêuticos, profissionais do Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) e da Vigilância em Saúde, psicólogos, fonoaudiólogos, veterinários, assistente sociais, fisioterapeutas, enfermeiros e alguns Agentes Comunitários de Saúde. “Essa equipe recebia os pacientes suspeitos e testados positivos e os acompanhava, fazendo um monitoramento diário dos quadros clínicos pelo Disque Vigilância”, afirma Rosicleia. 

Apesar de exclusivamente voltada aos casos de coronavírus, à criação de protocolos de testagem, monitoramento, isolamento e medicação, e ao não comprometimento do fluxo de atendimento das UBS e hospitais, a rede atuou de forma entrelaçada com os serviços de Atenção Primária à Saúde em Rurópolis. “Embora a gente tenha diminuído a quantidade de atendimentos diários para evitar aglomeração, os serviços da rede pública mantiveram o acompanhamento das gestantes, idosos e crianças por grupos no WhatsApp. Assim, os Agentes Comunitários de Saúde e enfermeiros trocavam informações com seus pacientes para fazer o monitoramento dos casos estáveis e que não precisavam ir com frequência nas Unidades de Saúde”, explica a enfermeira.

Rosicleia ainda salienta que em alguns locais de Rurópolis onde não há acesso a celulares ou internet, a ação dos Agentes Comunitários de Saúde foi essencial. Os profissionais ficaram responsáveis por monitorar e informar aos pacientes seu quadro clínico. Além disso,  os ruropolenses que residem longe do centro receberam apoio de uma equipe volante e de um segundo CIP-COVID. “Essa rede de atuação é responsável por uma área territorial grande, onde tem as principais comunidades da cidade e atende aos pacientes da região”, informa Fernanda, ao passo que Rosicleia complementa: “Essa equipe deu um suporte grande, porque a equipe da cidade não conseguia auxiliar a zona rural”. 

Segundo ambas as profissionais, continuar com os serviços de Atenção Primária à Saúde de forma remota trouxe resultados positivos para a contenção da pandemia. Dentro esses resultados se observa a não exposição do grupo de risco, otimizaçao do serviço por meio da separação do atendimento para APS e COVID-19. “Com tudo isso, felizmente, apesar do medo das pessoas de irem aos locais de saúde, mantivemos uma boa qualidade de atendimento sem gerar riscos para os pacientes”, declara Rosicleia. 

 

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Mobilização social e diálogo com a comunidade 

A mobilização social e o diálogo com a população em torno da contenção da pandemia causada pelo novo coronavírus foi parte essencial para os resultados positivos de Rurópolis. Assim, houve uma imensa dedicação em sensibilizar os moradores da seriedade da doença, conscientizando-os com materiais informativos através de emissoras de rádios (principais meios de comunicação da cidade), carros de som e rede social. Nesse sentido, a página oficial da Secretaria Municipal de Saúde realiza informes diários sobre os números de casos e óbitos ocorridos no município, fortalecendo o diálogo com a comunidade.

Para Rosicleia, o Disque Vigilância é a maior prova do envolvimento dos moradores nos enfrentamento à doença. “Tudo no final foi sendo construído em volta do nosso canal de comunicação, o Disque Vigilância, que acabou virando um canal de Disque Denúncia, onde as pessoas nos informavam os casos suspeitos. Depois acabou se tornando um canal de contato dos pacientes suspeitos”, diz. Ainda segundo a profissional, os pacientes entravam em contato e após o cadastro, se iniciava o acompanhamento diário de cada um. “Todo dia nossa equipe de monitoramento ligava ou mandava mensagem para saber qual o estado desse paciente, e, de acordo com os sintomas e quadro clínico dele, as decisões de como esse paciente ia ser conduzido eram tomadas; se ele ia precisar de ajuda médica, de exames, medicação, etc”. 

Contato com a comunidade
Agente de saúde distruibuindo kit de proteção a moradores rurais em Rurópolis. Foto: Divulgação/ Secretaria da Saúde de Rurópolis

Além disso, a união dos moradores fez grande diferença na doação de kits de proteção e confecção de máscaras. “Quando a cidade decretou o uso de máscaras, não tinha aonde adquiri-las e nem recursos financeiros para isso. Então, nos juntamos por vários dias dentro da Secretaria de Saúde, com a ajuda de outras prefeituras e secretarias, para confecção dessa máscaras”, conta Rosicleia. Assim, logo o projeto de confecção foi crescendo, chegando a envolver cerca de 70 pessoas. Entre eles, moradores, membros de sindicatos e de movimentos sociais, e profissionais de saúde. “Distribuímos essas máscaras para pacientes carentes, principalmente idosos, e foi uma coisa muito legal de se ver; um sentimento de colaboração e empatia”, celebra a enfermeira. 

A Secretária de Saúde Fernanda Cardoso ressalta que a saúde em Rurópolis ainda mantém parcerias com o judiciário, comércio, movimento sociais, comunidades e bancos, os quais ajudam desde o início da pandemia na prevenção à COVID-19. “Tem sido um conjunto tão vasto de ações, que formou uma rede denominada por nós de ‘rede proteger’”, destaca. 

 

Atenção Primária a Saúde em Rurópolis e o Ministério da Saúde 

E o papel do Ministério da Saúde nos resultados obtidos pela cidade de Rurópolis na pandemia? Assim como outras iniciativas da rede pública de saúde, os agentes da saúde do município também têm reclamações e críticas às ações do governo. Eles crticaram as alterações de discursos e protocolos, bem como a funções que são do Governo Federal que transferiu essas responsabilidades a municipios e estados. “Na minha opinião, as ações deveriam ser regionalizadas e coordenadas pelos próprios estados. Contudo, o que nós vimos é que cada município tomou suas próprias atitudes e adotou estratégias de forma individual. Muito por conta da falta de diálogo entre municípios, estado e ministério”, salienta Fernanda.

Além disso, os direcionamentos publicados pelo Ministério da Saúde vieram quando a pandemia já estava em curso. Durante esse período, profissionais da saúde e equipes envolvidas com a gestão dos municípios ficaram à espera de um “norte”. Quem relata o panorama é Rosicleia:  “Eventualmente, guias e orientações para a pandemia acabaram saindo, mas tudo com o ‘bonde andando’. Isso acabou gerando uma situação em que os municípios e regiões tinham que agir por conta própria e tomar decisões com base em suas realidades. Infelizmente, a impressão que tivemos é que o Ministério não foi capaz de orientar os municípios”, afirma. 

Outro ponto de reclamação diz respeito às estratégias de combate à pandemia. Em um contexto urgente como o de pandemia, é importante compreender qual item deve ter a maior prioridade e, segundo Fernanda, o governo Federal equivocadamente escolheu um caminho que desconsidera as especificidades dos municípios.  “O Ministério de Saúde ficou mais preocupado com ventiladores e leitos de UTI e deixou as equipes de território e de Atenção Primária à Saúde sem incentivos e reconhecimento. Isso porque existe o pensamento de que o combate ao coronavírus se dá dentro dos hospitais quando, na verdade, o principal combate é dentro do território”, explica Fernanda.

 

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De fake news a testes rápidos: os maiores desafios !

Os comandos confusos e tardios do Governo Federal que chegaram a Rurópolis-PA somados a outras demandas existentes para o combate a disseminação do vírus compuseram um verdadeiro desafio. No início da pandemia, as equipes médicas enfrentaram dificuldades para adquirir equipamentos de proteção individual. Problemas de desabastecimento em fornecedores locais geraram uma situação que obrigou os profissionais a improvisarem materiais para evitar a contaminação. Assim, se tornou comum o improviso com capas de chuva, protetores faciais com tecidos impermeáveis, equipamentos como botas oriundas da agricultura.

 

Equipamentos da saúde em Rurópolis
Materiais improvisados para o combate a pandemia. Foto: Divulgação/Secretaria da Saúde de Rurópolis

 

Adquirir testes rápidos e os RT-PCR também foi um desafio para a pandemia na cidade, especialmente no início. Isso porque Belém e Manaus sujeitam-se a uma logística que depende de cidade de Santarém (300 mil habitantes e 3 horas de carro de Rurópolis). Assim, as testagens só normalizaram no final de março com a chegada definitiva de um bom número de testes e do diagnóstico dos pacientes suspeitos – e consequentemente isolamento dos demais habitantes.

Mais do que a testagem, promover a conscientização do isolamento social e da utilização de máscaras foi um obstáculo das equipes de saúde. “Muitas vezes, tivemos que contar com apoio policial para fazer visitas de orientação e explicar a necessidade das pessoas manterem o isolamento como forma de prevenção”, adverte a enfermeira Rosicleia. A esse panorama, somou-se o compartilhamento de fake news. Uma delas, aconselhava os moradores a não aceitarem máscaras distribuídas pela Secretaria da Saúde de Rurópolis porque já estariam previamente contaminadas.

Em resposta a ambas demandas, a Secretaria fortaleceu seus canais de informação publicando dados acerca as dúvidas que a pupoluação tinha. Nesse mesmo sentido, o Disque Vigilância também prestou um serviço de contato constante com a população da cidade para responder questões de interesse público. “Muitas pessoas entraram em contato para saber se aquela informação que haviam recebido era verídica ou não”, informa Fernanda.

 

Números atuais da Atenção Primária à Saúde em Rurópolis

Boletim Epidemológico de 12 de maio – data do diagnótico do primeiro caso de coronavítus em Rurópolis. Imagem: Divulgação/Secretaria de Saúde de Rurópolis | Design por Ana Paula de Lima

 

Em resumo, o primeiro caso de coronavírus foi identificado no dia 12 de maio em Rurópolis. Tratava-se de um homem de 69 anos que havia acabado de chegar de um outro estado. Mais de 6 meses depois, em 26 de novembro de 2020, o município totalizava 1.725 casos confirmados. Desses 1.694 são de pessoas que se recuperaram e 21 que vieram a óbito. Inicialmente com uma abordagem controlada, o salto da pandemia no município passou a existir a partir da flexibilização da circulação em agosto.

Até então, segundo a secretária da saúde da cidade Fernanda Cardoso, o esforço da equipe de saúde de Rurópolis havia sido para conter os picos de contágio por meio de ações socioeducativas. “Nós percebemos que o município de Rurópolis conseguiu achatar a curva da pandemia por meio de ações socioeducativas focadas tanto na mídia (rádio) e outdoors quanto em reuniões com a comunidade e profissionais da saúde. Os pacientes chegavam ao Disque Vigilância e nós isolávamos ele a tempo de ele não transmitir”, aponta Fernanda.

Contudo, a partir de agosto, conforme a especialista indica, surgiu o efeito de um movimento externo que acabou influenciando a comunidade ruropolense. “O estado do Pará começou a ação e as pessoas viam pela televisão ou por noticiários que o estado e a região estavam flexibilizando. Nós fomos compelidos a abrir também as atividades”, explica a secretária da saúde. Consequentemente, entre os meses de setembro, outubro e novembro, notou-se uma alta no número de casos e gravidade. Até a primeira semana de agosto (04), eram 771 habitantes contaminados e 07 óbitos. Em 26 de novembro, eram 1.725 contaminações e 21 óbitos, aumentos de 123% e 200%.

 

Um SUS que dá certo!

A campanha de enfrentamento à pandemia em Rurópolis tem tido êxitos e apesar de ter apresentado alta nos índices, hoje serve como marca para o atendimento do SUS , é o que salienta Fernanda. “A pandemia desmontou paradigmas e ressignificou a forma como encaramos a vida. O resultado dessa experiência trouxe para nós, que trabalhamos e lidamos diretamente com os desafios do combate à COVID-19, a compreensão do quanto somos frágeis e corajosos”.

Nesse sentido, enfrentamento à doença deixa evidente que é necessário rever o papel que o SUS e os serviços de Atenção Primária à Saúde recebem, ressalta Rosicleia. “A gente vem ao longo dos anos percebendo um desfinanciamento dos serviços de saúde e uma sobrecarga dos municípios. É necessário defender o Sistema Único de Saúde, que demonstrou ser um grande diferencial na condução e atendimento das pessoas, e uma melhor opção do que a rede privada, que não conseguiu dar conta da demanda”. O raciocínio também faz menção a movimentos recentes do Governo Federal de privatizações de órgãos públicos, inclusive de postos do Sistema Único de Saúde (SUS)

A enfermeira também atribui ao SUS a capacidade de articular atendimentos territorializados, isto é, ele é capaz de se adaptar às necessidades de saúde da população local por meio dos agentes de saúde que ali residem. “A estratégia para os serviços de saúde deveria ser focada na ideia de que existem muitos ‘Brasis’ dentro de um único Brasil. Portanto, as políticas públicas precisam se aproximar mais das realidades locais e ter uma maior flexibilidade com as gestões municipais”, afirma Rosicleia. Afinal, com um comando estratégico e conectado às territorialidades, quem sabe o potencial que o SUS poderia atingir? “Quem sabe levar em consideração as condições de vida de uma determinada localidade são os gestores municipais, os habitantes, os enfermeiros e os agentes comunitários de saúde daquele território”, define a enfermeira. 

Ao dar protagonismo aos profissionais locais da saúde, a abordagem do SUS e da APS também ganha reconhecimento e resultados, segundo a secretária: “O município tem um modelo de SUS aguerrido em que os profissionais mostram que é possível fazer um serviço de qualidade. Mesmo em um contexto desfavorável de pandemia, com uma cidade com um índice de desenvolvimento humano (IDH) baixo e, principalmente, em um cenário em que 99% da população é dependente do SUS, buscamos gerar um serviço acessível, integral e universal”, aponta. E conclui com otimismo: ‘É possível fazer mais com a ajuda da comunidade e dos setores da sociedade. Quando todos trabalham com um objetivo, o resultado não pode ser diferente que uma saúde pública cada vez melhor”.

 

Texto por Daniele Olimpio de Campos e Matheus Rodrigo dos Santos

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