Por Renata de Oliveira Carreon e Emely Larissa dos Santos

 

O substantivo feminino “morte” possui várias acepções em distintos campos de saber, mas sua definição no dicionário é trazida como “cessação completa da vida”[1]. Sendo, então, a interrupção da existência, os seres humanos foram adquirindo distintas maneiras de elaborar a morte e, no atual contexto, em função da disseminação mundial do novo coronavírus, as formas de luto tiveram de ser ressignificadas ou até interditadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em março de 2020, o Guia para o Manejo de Corpos no Contexto do Novo Coranavírus – COVID-19, no intuito de instruir sobre a forma mais segura de proceder o manejo dos corpos de casos suspeitos ou confirmados de COVID-19. O Guia apresenta instruções quanto ao manuseio de cadáveres tanto em ambiente hospitalar como também domiciliar e público. Também aponta os procedimentos a serem adotados na organização e realização de funeral e sepultamento. Destaca-se o fato de o corpo não oferecer risco biológico (não causar contaminação), mas a aglomeração de pessoas ser os principais motivo para o impedimento da realização de velórios e funerais que, caso sejam realizados, devem acontecer com o caixão lacrado, segundo recomenda o Ministério da Saúde.

Apesar da publicação do Guia, estados e municípios têm autonomia para decidir suas próprias diretrizes, o que significou, na prática, em muitos lugares, desde a ausência de possibilidade da despedida do paciente em estado grave até caixões lacrados sem velório e sem a presença de familiares no sepultamento[2]. Com isso, o luto passa obrigatoriamente por um processo de ressignificação, já que, na ausência de despedidas, de velar o corpo e de proceder com o ritual funerário, os familiares são impedidos de realizar o seu rito de perda. Somado a isso, o grande número de mortes levou muitas cidades à iminência de um colapso do sistema funerário, fazendo com que inúmeras covas coletivas fossem abertas e caixões fossem empilhados[3], o que fez com que fotografias de cemitérios passassem a circular intensamente na mídia e nas redes sociais.

Cemitério Nossa Senhora de Aparecida, em Manaus. — Foto: Chico Batata/Divulgação. Fonte: G1[4]

 

A sensibilidade que caracteriza o processo de luto passou a ser naturalizada, ou até invisibilizada, em função do volume de corpos que se amontoava nos necrotérios, nas covas recém abertas e na cobertura extensiva da mídia. Boletins diários passaram a ser divulgados com os números de mortos e, quanto mais se avolumavam, mais estatísticas entravam em cena. Os veículos de comunicação, além de divulgarem massivamente o número de casos de contaminação e morte pelo vírus, também alertavam para a existência de uma subnotificação em nível nacional, em boa medida pela falta da realização de testes. O alarmismo generalizado, comum em tempos de crise, deu lugar à banalização da morte por COVID-19.

Se, por um lado, a cobertura midiática colocava em destaque o número de mortos em função da espetacularização da tragédia, por outro, o Presidente da República do Brasil passou a questioná-lo. Desde o início, o Chefe de Estado assumiu uma postura negacionista ao afirmar que a COVID-19 era uma “gripezinha” e, por isso, adotou discurso fatalista de atenuação das mortes, afirmando que “todo mundo morre um dia” e que “é o destino de todos”[5]. Além disso, o Presidente ainda denunciava que os governos dos estados eram os principais responsáveis por seus mortos e que sua preocupação seria a economia e os trabalhadores informais. Nesse contexto, a expressão O Brasil não pode parar passa a circular em função de um “apelo” à reabertura do comércio no país, produzindo, mais uma vez, a invisibilidade das famílias que choravam seus mortos enquanto uma parte do país negava o próprio vírus.

A polarização política que dividiu a população brasileira nas eleições de 2018 fez com que, a partir do acontecimento histórico e discursivo da pandemia do novo coronavírus, uma parcela da população adotasse esse mesmo discurso negacionista, contrariando normativas da OMS ao não aderirem ao distanciamento social e à campanha fique em casa e questionando a veracidade das estatísticas.

Com a sociedade dividida entre a total negação da pandemia e o medo do contágio, bem como com um volume aterrador de 100 mil mortos no Brasil no início de agosto de 2020, o governo federal aderiu a uma nova abordagem discursiva de divulgação de dados: o número de recuperados deveria ser divulgado com mais destaque, em detrimento do número de óbitos. Surgem, a partir disso, embates de sentido em torno da letalidade do vírus, já que a ampla divulgação do número de recuperados induz a compreensão de que, ainda que haja contágio, é possível se recuperar, promovendo uma interdição simbólica às discussões tanto das sequelas dos “recuperados” quanto da própria morte, que continua a ser associada às comorbidades.

O termo “comorbidade” é definido como “ocorrência de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo indivíduo ao mesmo tempo. É o caso de hipertensão e diabetes tipo 2, associadas a alterações metabólicas decorrentes do excesso de gordura corporal”[6]. Dado o maior risco de agravamento da COVID-19 para essas pessoas[7], a OMS estabeleceu critérios para classificá-las como integrantes de “grupo de risco”, considerando que quem apresenta comorbidades está mais suscetível ao contágio, devido à vulnerabilidade de seu sistema imunológico e à incapacidade de contenção da multiplicação do vírus no organismo. Entretanto, nos discursos negacionistas em relação à doença no Brasil, as comorbidades passaram a funcionar como a causa do contágio e, até mesmo, das mortes. Em razão disso, muitos retomaram o desenvolvimento de suas atividades de maneira habitual, acreditando que medidas de prevenção como o uso de máscara e de álcool em gel já seriam suficientes para garantir, na ausência de comorbidades, a não contração do vírus. Na prática, essas atitudes contribuíram com a promoção de um discurso de atenuação das formas de contágio e da própria letalidade do novo coronavírus. O próprio Presidente da República endossou diversas vezes o discurso que associa a preocupação com a COVID-19 apenas em casos de grupo de risco, afirmando que “o vovô e a vovó” devem ficar em casa e o resto “tem que trabalhar”[8] ou ainda que as crianças deveriam voltar às aulas, pois a possibilidade de óbito delas é quase nula e que a doença “geralmente ataca quem tem mais idade ou quem tem algum tipo de problema de saúde”[9].

Os diferentes posicionamentos ideológicos – negacionista ou não – evidenciam duas narrativas sobre a própria pandemia. Por um lado, acredita-se nos riscos de contágio de um vírus ainda sem vacina e sem protocolos unificados de tratamento e, por isso, também se crê em sua letalidade, o que faz com que uma parte da população defenda o distanciamento social e compreenda que o imenso número de mortos é consequência da ausência de políticas públicas de contenção do espalhamento do vírus. Desse ponto de vista, responsabiliza-se de maneira direta o Chefe de Estado pelas mortes, o que o levou, inclusive, a sua denúncia no Tribunal Penal Internacional de Haia por genocídio e crime contra a humanidade, considerando seus pronunciamentos e suas ações como um fator de aumento do risco de proliferação do vírus, além de sua recusa a implementar políticas de proteção a populações em situação de vulnerabilidade social ou minorias étnicas. A denúncia também cita a insistência do Presidente em defender o uso de hidroxicloroquina, mesmo sem que haja comprovação científica da eficácia desse fármaco no tratamento da COVID-19. Por outro lado, a adesão ao discurso de negação do vírus e da gravidade da doença, que descaracteriza sua letalidade e privilegia a divulgação dos casos recuperados, além de relacionar a comorbidade às mortes, faz com que uma parcela significativa da população se negue a aderir às normativas sanitárias e higiênicas de estados e municípios.

A naturalização da morte por COVID-19 revela o que sociólogos como Bauman e Donskis[10] têm afirmado: há, por parte da sociedade moderna, um abandono de sua sensibilidade, bem como uma desvalorização da vida humana. Corpos avolumam-se em estatísticas enquanto se espera pela vacina, vista como possibilidade milagrosa de acabar com a pandemia no país e no mundo.

 

Notas

[1] Segundo o Dicionário Aurélio https://www.dicio.com.br/morte/

[2] Exemplo disso é o ocorrido no Piauí https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2020/06/12/filha-chora-por-nao-se-despedir-do-pai-vitima-da-covid-19-no-piaui-morreu-enterrou-nao-dei-adeus.ghtml

[3] Exemplo disso é o ocorrido em Manaus https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/04/28/com-aumento-de-mortes-cemiterio-em-manaus-passa-a-ter-enterros-noturnos-e-caixoes-empilhados-fotos.ghtml

[4] https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/04/28/com-aumento-de-mortes-cemiterio-em-manaus-passa-a-ter-enterros-noturnos-e-caixoes-empilhados-fotos.ghtml

[5] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/01/todos-nos-vamos-morrer-um-dia-as-frases-de-bolsonaro-durante-a-pandemia.htm

[6] Segundo a revista FAPESP: https://revistapesquisa.fapesp.br/um-guia-do-novo-coronavirus/.

[7] O grupo de maior risco é composto por idosos de 60 anos ou mais, mulheres grávidas e puérperas e pessoas com doenças pré-existentes, como: asma, diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e com histórico de AVC ou câncer.

[8] https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/04/08/interna_nacional,1137022/familias-que-cuidem-de-seus-idosos-diz-bolsonaro.shtml

[9] https://www.agazeta.com.br/es/politica/as-frases-e-atitudes-equivocadas-de-bolsonaro-sobre-o-coronavirus-0320

[10] BAUMAN, Z.; DONSKIS, L. Mal líquido: vivendo num mundo sem alternativas. São Paulo: Zahar, 2019.

 

Crédito da imagem: United Nations COVID-19 Response em Unsplash

 

Veja também:

Projeto: Enciclopédia Discursiva

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