Embora o trabalho de produção cultural não seja compreendido como um serviço essencial no contexto da pandemia da Covid-19, conforme explicita o Decreto nº 10.282/2020, em um momento em que o distanciamento social se faz vital, muitas pessoas estão usufruindo da arte para se afastar do sentimento de solidão e manter a saúde mental. Neste sentido, para entrar no clima desta discussão e poeticamente enfatizar a importância da arte na vida das pessoas, parafraseamos Oscar Wilde quando ressignificou a célebre frase de Aristóteles “a arte imita a vida”, afirmando que “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”, em A decadência da Mentira.

Durante a pandemia da COVID-19, o modo de se ofertar arte e o padrão de usufruto mudaram, pois como centros culturais estão fechados, a produção e distribuição de arte por meios digitais parece ter ganhado espaço. Uma provedora global de filmes e séries (streaming) dobrou seu montante de assinaturas, acrescentando 16 milhões de usuários desde o início da pandemia.¹

Já os serviços de música pagos perceberam mudança no padrão de consumo dos usuários, sendo que os horários de pico passaram da hora do rush (aquela onde há um grande número de pessoas se locomovendo de casa para o trabalho e vice-e-versa) para o consumo ao longo do dia e a procura por música infantil e clássica cresceram, assim como aumento transitório da procura por músicas de determinado artista após um show virtual do tipo live² (shows de música transmitidos online, ao vivo), outro fenômeno crescente em 2020.

Entretanto, é preciso destacar que, se por um lado a cultura tem tido papel fundamental para promover a saúde mental em tempos de COVID-19, por outro, o fechamento de museus, galerias, cinemas, teatros e a consequente suspensão de eventos culturais presenciais colocou os trabalhadores da cultura em uma posição de vulnerabilidade.

De acordo com informações da rádio USP, a cultura pode ser uma das principais vítimas da COVID-19 e o fechamento definitivo de espaços culturais e demissões de seus trabalhadores já é uma realidade no mundo, alterando também as características que compõem a precarização deste tipo trabalho. No Brasil, a pandemia da COVID-19 agravou um cenário já pouco promissor para a produção de cultura e seus trabalhadores desde a extinção do Ministério da Cultura e a incorporação de sua agenda no Ministério da Cidadania, em 2019.

Como consequência deste emaranhado de situações, a literatura científica reflete que a saúde destes trabalhadores também está em risco, tendo em vista que o trabalho é um determinante social da saúde, ou seja, é um dos fatores que pode influenciar a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco em determinada população.3:78 Neste sentido, um estudo finlandês associou a instabilidade das condições de trabalho dos artistas ao seu bem-estar ocupacional. Outro estudo internacional identificou que para além da saúde, a precariedade tem também influência direta sobre a identidade e o trabalho do artista, sendo que este grupo de trabalhadores se compreendem como em uma profissão de alto risco.

Para além da teoria, vamos tentar compreender o que mudou no contexto da pandemia para estes trabalhadores?

Para o cineasta Kapel Furman o estabelecimento de novas rotinas de trabalho tem chamado a sua atenção, especialmente com a utilização das reuniões virtuais: “As reuniões se tornaram estritamente virtuais, o que por um lado facilita muito em termos de tempo e mobilidade porém, por outro lado, dificulta em termos de contextualização e expressão com assuntos mais abstratos, que são coisas bem importantes em uma reunião sobre conteúdo audiovisual”.

Observa-se também a impossibilidade, no cenário pandêmico, de manutenção de algumas atividades laborais afetando diretamente a renda destes trabalhadores, que nem sempre estabelecem vínculos formais de trabalho. “Como sou free-lancer, minha fonte de renda é diversificada dentre os projetos em que estou envolvido, então não se encaixa dentro de uma definição formal, mas obviamente foi bastante prejudicada porque direta ou indiretamente depende de eventos e projetos culturais acontecendo”, diz Furman.

Com o cancelamento de show e eventos, sua atividade principal, o músico Bruno Maia conta que sua banda de música autoral partiu para o diálogo com os admiradores da banda em busca de apoio nos tempo de COVID-19. “A gente fez uma campanha junto aos admiradores da banda para a banda continuar, a gente fez uma pré-venda do CD e falando que é uma forma do pessoal apoiar a banda neste período de pandemia. Nós perdemos todos nossos shows e nós não tínhamos nenhuma atividade rentável em vista”.

Há, ainda, a preocupação com o cenário de reabertura da economia e volta ao trabalho, pois muito do trabalho na cultura acontece a partir da interação com o meio e depende de relações interpessoais para sua existência. Então, como restabelecer as relações presenciais de forma segura também é uma preocupação recorrente.

Furman explica que um set de filmagem movimenta a economia e vai muito além do cinema em si, pois há alimentação, transporte, limpeza, locações e outras atividades. Neste sentido, ainda é difícil compreender o tamanho das mudanças que estão por vir. “Na prática, os protocolos ainda estão se estabelecendo. Quando os sets definitivamente recomeçarem, sentiremos o mudança real no ritmo e custo”, explica.

O professor de audiovisual, Eduardo Aguilar, também reforça a preocupação nestas novas formas de trabalho. “O interessado, o aluno que se inscreve e passa no curso, ele tem que colocar a mão na massa, não tem outro jeito. É muito difícil trabalhar com aulas remotas para este curso, ele precisa operar os equipamentos (…) O desafio é estabelecer um equilíbrio entre a abordagem prática do curso sem colocar em risco a saúde destes alunos frente à pandemia”, reflete Aguilar.

Assim como em outros cenários, Aguilar conta que no cenário docente também há incertezas. “Isso tudo está sendo avaliado, como lidar com o grupo de alunos nestas situações. Será estabelecido um protocolo em concordância com as associações e sindicatos representativos do setor audiovisual antes de qualquer iniciativa que vise autorizar a realização do curso sem o término da pandemia ou a descoberta e liberação de uma vacina”.

Em tempos de incertezas, reforçar o apoio à cultura e a visibilidade às produções é importante.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) lançou iniciativas a fim de dar visibilidade à manutenção da cultura em tempos de pandemia. Em 22 de abril ocorreu uma assembleia com Ministros da Cultura do mundo todo objetivando discutir medidas comuns para atenuar os impactos da pandemia no cenário cultural. Neste encontro, a UNESCO reforçou seu apoio aos países, à importância da cultura e foram discutidas ações de fortalecimento à nível internacional. No encerramento do evento, o diretor-geral adjunto de Cultura da UNESCO, Ernesto Ottone R., lembrou que “não pode haver futuro sem cultura”.

O apoio governamental para a manutenção dos espaços públicos e as ações, como os editais de incentivo à cultura ou de apoio emergencial, como a Lei Aldir Blanc, são fundamentais neste momento. Para saber mais sobre os benefícios da renda básica emergencial da cultura, os subsídios para espaços e instituições culturais, chamadas, editais e prêmios, consulte o site do Governo do Estado de São Paulo. Também, o reconhecimento social da relevância e seriedade do trabalho deste setor é imprescindível.

Mas como podemos apoiar? Fique antenado e prestigie ações! Diversos museus brasileiros e centros culturais, como o Museu de Imagem e Som, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), POIESIS e o Serviço Social do Comércio (SESC) adaptaram seus canais para oferecer visitas, encontros, exposições e exibições online. A própria UNESCO organizou exposição virtual de propriedades patrimoniais e lançou duas campanhas digitais em vigência #CompartilheCultura e #CompartilheNossoPatrimônio.

Há diversas ações culturais e artísticas sendo divulgados na mídia e independente do tipo de arte que você aprecie, apoie e incentive a cultura!

 

Autoria de
Fernanda Maria de Miranda
Vivian Aline Mininel

Revisão por
Cristiane Shinohara Moriguchi de Castro
Eduardo Pinto e Silva
Juliano Ferreira Arcuri
Mariana de Almeida Fagá
Vera Regina Lorenz

Créditos da imagem: Wayhomestudio no Freepik

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