O Desenvolvimento Infantil (DI) é parte essencial do desenvolvimento humano. Nos primeiros anos, a arquitetura cerebral é moldada a partir da interação entre herança genética e influências do ambiente em que a criança vive. O desenvolvimento se inicia ainda na concepção, englobando o crescimento físico, a maturação neurológica, o desenvolvimento sensorial, o desenvolvimento cognitivo, a linguagem e as relações sociais (BRASIL, 2O16; DE SOUZA; VERÍSSIMO, 2015).

Quando falamos em atraso no desenvolvimento, nos referimos a uma situação ou condição em que a criança apresenta um déficit para adquirir determinadas competências que são esperadas para a sua faixa etária. Essas habilidades podem ser de ordem linguística, cognitiva, motora ou social (CORRÊA; MINETTO; CREPALDI, 2018). Podemos observar diferentes níveis de atraso, variando de leve a moderado até atrasos mais graves. Quando uma criança apresenta comprometimento de duas ou mais habilidades, denominamos de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor (BRASIL, 2016; CORRÊA; MINETTO; CREPALDI, 2018).

 

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É no cotidiano em que as oportunidades de aprendizagem e aquisição de habilidades acontecem. E, por isso, os cuidadores desempenham diariamente um papel fundamental no DI. As famílias são os principais responsáveis por oferecer experiências, desde o nascimento até o fim da vida (MACANA, 2014; DE SOUZA; VERÍSSIMO, 2015; CORRÊA; MINETTO; CREPALDI, 2018). Desempenhando, portanto, um papel fundamental em todos os âmbitos do DI. Biologicamente, a família oferece os primeiros cuidados às necessidades do bebê. Psicologicamente, terá um papel importante ao estabelecer interações afetivas e vínculos com a criança. Socialmente, é responsável por transmitir crenças, valores e princípios (OSÓRIO, 1996 apud MACANA, 2014).

Para que a criança se desenvolva, é necessário muito mais do que garantir os aspectos básicos de uma vida digna, como moradia, alimentação, educação e saúde. É preciso assegurar espaços de valorização e que seja estimulada a capacidade da criança de se desenvolver, aprender e conhecer o mundo (MACANA, 2014).

 

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A primeira infância é a janela de oportunidades para que a criança adquira o maior número de habilidades possíveis que guiarão seu crescimento. Pensando nisso, assegurar que sejam oferecidas as condições e os estímulos adequados é primordial para reduzir déficits e desigualdades. (HECKMAN, 2008a, apud MACANA, 2014).

Algumas variáveis, as quais denominamos fatores de risco, podem comprometer a saúde e o DI. Elas atuam como fatores estressantes que são capazes de interferir na capacidade de resposta do indivíduo. Alguns desses fatores são: baixo nível de suporte social, estresse familiar, situações de vulnerabilidade e de violência. Por outro lado, existem fatores protetivos que favorecem um desenvolvimento saudável e que podem ser ativados diante de uma situação de risco. A resiliência, por exemplo, é a capacidade de resistir ou de se reestabelecer frente a perturbações ou situações de vulnerabilidade significativa. (MARIA-MENGEL; LINHARES, 2007; CORRÊA; MINETTO; CREPALDI, 2018).

As pesquisas evidenciam que os fatores de proteção, que envolvem as características da criança, da família e do contexto, podem funcionar como uma barreira contra o impacto dos fatores de risco (ERIKSON & KURZ-RIEMER, 1999; REPPOLD et al., 2001, apud MORGADO et al., 2013). Neste sentido, o apoio social se configura como um importante fator de proteção da família.

Independentemente de como se configura, é importante destacar que o papel da família não muda. Ela será o sistema que mais influencia diretamente no desenvolvimento. E, portanto, os fatores protetivos devem ser superiores aos fatores de risco presentes na vida da criança. 

 

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Observando que a família é o principal agente de proteção do desenvolvimento infantil, seguem algumas dicas para os pais e cuidadores sobre como promover um desenvolvimento saudável (WHO, 2018):

  1. Invista em interações: A aquisição de habilidades interpessoais pode ser alcançada nos primeiros anos de vida através de interações sociais, como conversas, contação de histórias e brincadeiras simples, que contribuem para a aquisição dessa competência;
  2. Organize a rotina: A criança se sente menos estressada quando possui uma rotina organizada e estruturada. Bem como, proporciona conforto e segurança no seu dia a dia. Além de ajudar na organização temporal-espacial (saber se localizar em relação aos outros, aos objetos e a um determinado espaço); 
  3. Cuidados responsivos: A boa interação entre os pais/cuidadores e a criança ajuda-os a reconhecer e interpretar qualquer resposta frente a qualquer situação. E essas interações são capazes de proteger as crianças de estresses. Uma maneira de se fazer isso é através de momentos de brincadeiras agradáveis e de contato afetivo. Essas atitudes estreitam os vínculos e ajudam a construir um relacionamento com segurança e cuidado; 
  4. Conecte-se com suas redes de apoio: Mesmo estando fisicamente separados no atual contexto de pandemia, é essencial manter suas conexões com pessoas de confiança e seu significado pessoal. Mantenha seus “laços” através de ligações, videochamadas e mensagens. Essa é uma maneira de cuidar do seu bem-estar social e emocional durante a pandemia; 
  5. Boa saúde: A boa saúde das crianças resulta da vigilância feita pelos pais das condições físicas, sociais e mentais das crianças. Mas, essas ações, dependerão do bem-estar físico e mental dos cuidadores. Pesquisas mostram que quando os pais sofrem de algum sofrimento psíquico, como a depressão, isso acaba influenciando na saúde e no desenvolvimento das crianças. Portanto, cuidem-se! Se não se sentirem bem, busquem ajuda em suas redes de apoio e deem atenção às suas necessidades.

 

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Esperamos que as famílias leitoras desse material possam se sentir apoiadas em sua linda missão da proteção do neurodesenvolvimento infantil. 

 

AUTORIA:

Ana Carolina de Almeida
Danielle Ferreira de Sousa
Kétlin Cristina Ferreira
Sofia Barros
Déborah Carvalho Cavalcante
Luciana Bolsan Agnelli Martinez
Patrícia Della Barba
Monika Wernet

Esse texto foi escrito pelas alunas e professoras do Projeto Semente, Projeto de extensão do Curso de Terapia Ocupacional da UFSCar e revisado pelo grupo editorial do InformaSUS Saúde da Criança e Adolescente – UFSCar. O Projeto Semente busca apoiar o Desenvolvimento Infantil a partir da Intervenção precoce focada no contexto natural e centrada na Família.

 

Referências: 

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes de estimulação precoce: crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

CORRÊA, W.; MINETTO, M. F.; CREPALDI, M. A. Família como Promotora do Desenvolvimento de Crianças que Apresentam Atrasos. Pensando Famílias, 22(1), jun. 2018, (44-58). Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/penf/v22n1/v22n1a05.pdf>.

DE SOUZA, J. M.; VERÍSSIMO, M. DE LA Ó. R. Child development: Analysis of a new concept. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 23, n. 6, p. 1097–1104, 2015. Disponível em: <pt_0104-1169-rlae-23-06-01097.pdf (scielo.br)>.

MARIA-MENGEL, M.R.S.; LINHARES, M.B.M. Fatores de risco para problemas de desenvolvimento infantil. Rev. Latino-Am. Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 15, n. spe, p. 837-842, Oct. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692007000700019&lng=en&nrm=iso>. 

MACANA, E., C. O papel da família no desenvolvimento humano: cuidado da primeira infância e a formação de habilidades cognitivas e socioemocionais. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Economia, Porto Alegre, 2014. Disponível em:<https://lume.ufrgs.br/handle/10183/109267#:~:text=A%20fam%C3%ADlia%20representa%20uma%20rede,risco%20para%20o%20desenvolvimento%20infantil>

MORGADO, A., M. et al. O desenvolvimento da socialização e o papel da família. Rev. Análise psicológica, 2013. Disponível em: <http://publicacoes.ispa.pt/publicacoes/index.php/ap/article/view/751>. 

SILVA, N.C.B. da et al. Variáveis da família e seu impacto sobre o desenvolvimento infantil. Temas psicol., Ribeirão Preto, v. 16, n. 2, p. 215-229, 2008. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2008000200006&lng=pt&nrm=iso>. 

WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Cuidados de criação para o desenvolvimento na primeira infância. 2018. Disponível em: <https://www.who.int/maternal_child_adolescent/child/draft2-nurturing-care-framework-pt.pdf>. 

 

Crédito da imagem: Joice Kelly em Unsplash

 

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Categoria: Neurologia

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