Para Andrea Benites, pandemia despertou incertezas e trouxe à tona a urgência do viver

A pandemia escancarou deficiências nos sistemas de saúde, revelou problemas de coordenação de esforços e mobilização da população e, para a pesquisadora Andrea Carolina Benites, evidenciou também quão importante é a dimensão espiritual do ser humano.

Psicóloga pela Unesp, Andrea é doutoranda em Psicologia pela USP no Laboratório de Ensino e Pesquisa em Psicologia da Saúde (LEPPS) e realiza estágio de pesquisa no Global Institute of Psychosocial, Palliative and End-of-Life Care, em Toronto, com apoio da Fapesp. Em seu estudo, ela avalia o uso de psicoterapia junto a pacientes com câncer avançado e trabalha com o conceito de dor espiritual, componente da dor total e uma das preocupações do atendimento em cuidados paliativos. “O aspecto espiritual pode envolver a falta de sentido na vida e na morte, medo do pós-morte, culpa, raiva e abandono por Deus”, explica.

Na entrevista a seguir, Andrea detalha a dimensão espiritual da dor, como ela é avaliada e abordada. Comenta também de que forma a pandemia impacta pacientes e familiares no âmbito espiritual, ressaltando a importância da atenção a esse lado tão íntimo e, ao mesmo tempo, universal.

 

Quando falamos em dor espiritual, pode haver uma confusão entre espiritualidade e religião. Como os cuidados paliativos abordam a espiritualidade?

No caso da dimensão espiritual da dor de pacientes e seus familiares em cuidados paliativos, é importante considerar a espiritualidade em sua complexidade, de modo que o controle da dor física é imprescindível para abordar a dor espiritual.

O cuidado paliativo aborda a espiritualidade considerando a diversidade e singularidade de sua expressão para cada pessoa, podendo se manifestar por meio da religiosidade ou religião (crenças religiosas e espirituais), mas não se limita a esse aspecto. É importante considerar o modo como a pessoa estabelece conexões com o mundo, consigo e com os outros, bem como a expressão de seus valores e os sentidos que atribui ao sofrimento, à morte e ao morrer e à sua vida.

Essa expressão da espiritualidade pode se dar por meio do contato com a natureza, com a arte (música, poemas, pintura), relacionamentos, na busca de sentido para a vida e o sofrimento, com o que é sagrado para cada um, entre outras vivências que têm sentido para a pessoa e são coerentes com sua história de vida.

Considerando o conceito de dor total empregado nos cuidados paliativos, quais são os principais aspectos vinculados à dimensão espiritual que devem ser observados?

De acordo com o olhar de Cicely Saunders acerca da dor total, o aspecto espiritual pode envolver a falta de sentido na vida e na morte, medo do pós-morte, culpa, raiva e abandono por Deus.

No cuidado ao paciente e sua família, é importante observar se a unidade de cuidado expressa conflitos em relação às suas próprias crenças (relacionadas ou não à religião), desespero e desesperança (relatos de que viver não vale mais a pena, não há mais nada significativo a ser vivido), necessidade de finalizar tarefas (desejo de se reconciliar com algo ou alguém, de ser perdoado ou pedir perdão), isolamento e solidão (relato de que não tem ido mais a cultos religiosos ou de abandono por membros da comunidade religiosa, por Deus ou familiares/amigos). Em outras palavras, é importante considerar o sofrimento em seus aspectos existenciais (ansiedade relacionada à morte ou ao pós-morte, preocupação em se separar dos entes queridos, arrependimentos, culpa) e espirituais (perda da fé, sentimento de abandono e desconexão), tanto do paciente e de sua família quanto do próprio profissional de saúde para que ele seja cuidado em suas dores.

Sugiro observar cada pessoa considerando sua biografia e seu modo de ser no mundo, na sua relação com o tempo, com seu corpo, com os outros e com o que para ela é sagrado, pois são aspectos norteadores da nossa construção de significados e, consequentemente, da nossa dimensão espiritual.

Na prática dos cuidados paliativos, quais são os instrumentos para avaliação da dor espiritual?

A avaliação da dor deve envolver uma equipe multi e interdisciplinar, com o uso de escalas uni e multidimensionais. Contudo, o ideal é não manter uma rigidez nessa avaliação, mas sim adotar uma postura aberta buscando compreender as crenças e valores do paciente e da família, sejam religiosos ou não, e uma postura compassiva frente ao sofrimento.

No geral, existem estratégias como a triagem rápida e a anamnese espiritual, a fim de compreender como a pessoa dá significado à sua vida, suas crenças e valores (religiosos ou não). A triagem pode ser incorporada à rotina por qualquer membro da equipe e, no caso da anamnese, indicaria a escolha de um profissional específico do grupo.

Em termos de ferramentas que dão suporte à prática clínica, temos o FICA (Fé, Importância, Comunidade e Abordagem), uma ferramenta norte-americana que busca identificar as crenças que auxiliam o paciente a lidar com o estresse e o que dá significado à sua vida em determinado momento, e outras como o HOPE e o SPIRIT. Contudo, independentemente da ferramenta ou instrumento, nada substitui a escuta compassiva, sensível e acolhedora centralizada na biografia do paciente, seu modo de ser e seu sistema de crenças e valores, que busca compreender os sentidos da dor que atravessa sua existência e que muitas vezes não pode ser expressa em palavras, apenas captada nas sutilezas do olhar, no silêncio, nesse estar junto.

Quais profissionais devem estar envolvidos nessa avaliação?

É muito importante o envolvimento de toda a equipe no cuidado ao paciente e sua família, principalmente considerando o aspecto multidimensional da dor. Desse modo, cada área do conhecimento pode contribuir para essa avaliação. Todo profissional de saúde precisa estar atento à dimensão espiritual ao avaliar, planejar e oferecer o cuidado em sua rotina de atendimento.

Muitas vezes, os médicos e enfermeiros são os primeiros a terem contato com o paciente e exercem um papel primordial na avaliação inicial da espiritualidade. Por outro lado, dependendo da forma como a dor se expressa, pode ser necessária a intervenção conjunta da capelania hospitalar (quando há conflitos relacionados às crenças religiosas e espirituais), psicólogo (quando se observam aspectos emocionais e existenciais nesse sofrimento, como vazio, falta de sentido, medo diante das incertezas e da morte), terapia ocupacional (quando a pessoa tem dificuldade de se conectar consigo mesma e com os outros diante da incapacitação temporária ou permanente), assistente social (quando há sofrimento relacionado aos vínculos sociais e familiares, isolamento e solidão), entre outros.

Independentemente do foco em cada caso, a interlocução da equipe é imprescindível porque, como a dor é total, ela precisa ser avaliada e manejada em sua complexidade, envolvendo toda a equipe por meio de um plano terapêutico singular para cada paciente e família. É preciso que todos atuem em sincronia e junto ao paciente e sua família, caso contrário, irá sempre faltar uma peça do quebra-cabeça.

O que é possível realizar para atender as necessidades do paciente e sua família diante dessa dor?

Primeiro, é preciso um movimento de abertura do profissional para “dar voz” a esse sofrimento e facilitar a conexão da pessoa adoecida de acordo com o que tem sentido para ela, ou seja, diante daquilo que dá direção e significado à sua existência, bem como pode envolver o redimensionamento do viver, do morrer e a ressignificação dessa dor. Dessa forma, o atendimento pode considerar aspectos como a alteração da ambiência (ambiente hospitalar ou domiciliar), propiciando o contato com a natureza (uma volta ao jardim, o posicionamento do leito ao lado da janela) para aqueles que valorizam essa proximidade, e incentivar a conexão consigo mesmo em um banho demorado ou apreciando o pôr do sol, por exemplo.

Algumas pessoas demonstram intensa necessidade de conexão com o “outro” e, pensando nos cuidados paliativos, a aproximação e a ampliação da permanência de pessoas significativas junto ao paciente são imprescindíveis. Isso nos traz a importância de cuidar também dessa família, considerando que ela vivencia sua própria dor entrelaçada com a dor do ente querido. Assim como o paciente, a família permanece imersa em um universo de incertezas, vivenciando perdas concretas e simbólicas que necessitam ser validadas e cuidadas.

Apesar da complexidade que envolve a espiritualidade, gosto de pensá-la em seus aspectos sutis, que se evidenciam no cotidiano tornando possível seu manejo por toda a equipe envolvida no cuidado. Por outro lado, é importante considerar a necessidade de intervenção especializada quando aspectos centrais da dor espiritual do paciente e/ou família envolvem questões mais complexas. Nesse sentido, estudos internacionais envolvendo intervenções psicossociais e psicoterápicas que englobam espiritualidade, sentido de vida e dignidade demonstram benefícios significativos.

Entre esses estudos, destaco a Psicoterapia Centrada no Sentido da vida (MCP), uma intervenção baseada nos conceitos de sentido e significado da vida na obra de Viktor Frankl; a Terapia da Dignidade, uma psicoterapia breve voltada para oferecer suporte existencial aos pacientes em final de vida; e a Terapia CALM (Gerenciando o câncer e vivendo significativamente), que envolve espiritualidade, senso de significado e propósito, e tem sido adaptada no mundo todo. A psicoterapia CALM tem demonstrado melhora no bem-estar espiritual e diminuição significativa dos sintomas depressivos de pacientes com câncer avançado e um de seus diferenciais é a inserção dos familiares em algumas sessões, com o psicoterapeuta como facilitador em um espaço seguro de escuta.

No Brasil, temos o trabalho pioneiro da psicóloga Ana Catarina Araújo Elias, que desenvolveu a intervenção terapêutica “Relaxamento, imagens mentais e espiritualidade” (RIME) para minimizar o sofrimento espiritual de pacientes com doenças que ameaçam a vida e criou um treinamento para profissionais de saúde aplicarem a intervenção em seus contextos de trabalho.

Podemos dizer que, no Brasil, temos poucos estudos sobre intervenções que busquem cuidar do sofrimento existencial e espiritual, e a formação dos profissionais de saúde nessa área ainda é incipiente. Porém, independentemente disso, o passo primordial para qualquer cuidado em relação à dimensão espiritual envolve compaixão, escuta atenta e genuína e respeito à diversidade de infinitas “verdades” e crenças que a priori podem ser incompatíveis com as minhas. Abrange também, a partir do entendimento do que é sagrado para mim, a abertura ao que é sagrado para o outro, sejam aspectos religiosos ou não.

Em sua opinião, o que é importante destacar em relação a essa dimensão no cenário de pandemia? Quais os possíveis impactos da pandemia no âmbito da dor espiritual?

Nunca foi tão evidente a importância da nossa dimensão espiritual e a necessidade de conexão e ressignificação. A pandemia desperta nossas incertezas, fragilidades e escancara a finitude, a impermanência e a transitoriedade da vida, o que traz a urgência do viver. Nesse sentido, é preciso acolher nossas dores enquanto uma comunidade, ter compaixão pelo outro, “dar voz” às dores dessas perdas e redefinir as prioridades e propósitos de vida para possibilitar espaços de abertura e, apesar de tudo, ressignificar as nossas dores, a vida e nossa esperança quanto ao futuro.

Elaborado por
Juliana Morais Menegussi
Stefhanie Piovezan
Esther Angélica Luiz Ferreira
Tatiana Barbieri Bombarda

 

Créditos da imagem: Jcomp no Freepik

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