Considerando a importância de combater o assédio e de construir ambientes, políticas e atitudes de desconstrução de violências dentro da UFSCar, inclusive como forma de estímulo à permanência estudantil, o Projeto PermaneSer convidou o Coletivo de Mulheres UFSCar para falar sobre o tema. E já aproveitamos para agradecer imensamente a disponibilidade do Coletivo e de suas integrantes para construir um conteúdo qualificado sobre o assunto. Segue, abaixo, o texto na íntegra!

 

O que é assédio?

Atualmente, devido a uma maior discussão sobre igualdade de gênero, fala-se muito sobre assédio. Mas, afinal, o que é assédio? Existem muitas discussões sobre o conceito e os diversos tipos de assédio, mas basicamente ele pode ser definido como um comportamento indesejado que se apresenta de forma verbal, não verbal ou física e tem como objetivo ou consequência: perturbar, constranger ou afetar a dignidade de uma pessoa; criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador. Entendemos que o assédio é apenas um tipo de expressão das mais variadas formas de violência — dentre elas a violência sexual, psicológica e moral — que atinge principalmente as mulheres devido às relações de poder, estabelecidas socialmente entre os gêneros. 

Mas o que tem a ver assédio e universidade?

A violência contra a mulher é um fenômeno grave de raízes culturais e incidência universal: independe de classe, origem, escolaridade ou etnia. Por isso, assim como em vários contextos da sociedade, o ambiente universitário não está isento. Segundo uma pesquisa feita em 2015 pelo Instituto Avon e Data Popular sobre violência contra a mulher no ambiente universitários, 10% das alunas relataram espontaneamente ter sofrido violência vinda de um homem dentro da universidade ou em festas acadêmica, porém, quando foi apresentada à elas uma lista com exemplos de violências, 67% delas reconheceram ter sofrido algum tipo de violência; enquanto isso, apenas 2% dos homens assumiram espontaneamente já ter cometido algum ato de violência contra uma mulher na universidade ou em festas acadêmicas e, ao serem apresentados à mesma lista, o número subiu 38%. Além disso, 20% das estudantes já ouviram comentários indesejados de conotação sexual vindo de professores. Houveram também alguns homens que não consideraram violência as seguintes ações: abusar de uma garota alcoolizada (27%), coagi-la a participar de desfiles e leilões (35%) e repassar fotos e vídeos das colegas sem autorização delas (31%). Ou seja, as mulheres sofrem mais violências do que as que os homens reconhecem cometer, e o fato de tanto homens como mulheres terem dificuldade em reconhecer as violências cometidas/sofridas pode vir também de uma naturalização e falta de consciência do fenômeno. 

Como identificar uma situação de assédio?

Mas, então, como saber se sofri ou cometi um assédio? Independente do gênero, todos os tipo de abordagens que vão além do limite permitido por você ou pela pessoa com a qual está interagindo e causam desconforto, vergonha ou intimidação são tipos de assédio, e o que diferencia essa prática de uma relação de intimidade é o consentimento. Alguns comportamentos que talvez você não saiba, mas são assédio/violência: aproximações ou toques não permitidos pela pessoa (exemplo: puxar o braço ou cintura em uma festa); beijar ou ter relações com pessoas que não estão totalmente conscientes para consentir (pessoa estar bêbada ou sob efeito de outras drogas ou desacordada); insistir em transar sem camisinha ou tirar ela sem a parceira saber; comentários com teor sexual, insultos ou gestos que causem desconforto ou intimidação; convites ou propostas de forma insistente, mesmo que a pessoa tenha dito não; pedidos de favores sexuais em troca de benefícios; perseguições presenciais ou virtuais; gravar ou compartilhar imagens íntimas sem a permissão da pessoa. 

Dito isso, como saber se existe ou não o consentimento? O consentimento não se trata só de entender que o “não é não”, mas também se trata de entender que precisa haver o “sim”; se a pessoa não consegue ou não se sente confortável o suficiente para consentir, a abordagem se torna um assédio/violência. Além disso, se há algum tipo de hierarquia ou relação de poder que coaja o outro a aceitar aquele comportamento ou abordagem (por exemplo: relação veterano-calouro ou relação professor-aluno), também se configura como assédio/violência. Infelizmente, é comum algumas pessoas terem dificuldade em dizer “não” em algumas situações, porém, é preciso ter consciência de que, além de exigir que o outro nos respeite, precisamos também praticar o auto respeito; precisamos respeitar nossos corpos, nossos desejos, nossas vontades e nossos limites. Por isso, lembre-se que você tem o direito de dizer “não” independente da situação, da relação que você tem com a pessoa e do momento, e que existem canais e meios de denúncia dentro da universidade e fora dela, como o mapa de apoio às vítima de violência de gênero realizado pela UFSCar

O Coletivo de Mulheres UFSCar

Visando também contribuir para o combate da violência de gênero dentro da universidade, surgiu o Coletivo de Mulheres UFSCar. Nós do Coletivo de Mulheres UFSCar existimos e resistimos na instituição desde 2018 para trazer esse debate ao nosso ambiente acadêmico, para que os nossos estudantes e servidores estejam conscientes das violências sofridas e cometidas dentro da UFSCar. Entendemos que o acesso à informação é a melhor forma de prevenção às violências tão culturais da nossa sociedade e que não deixam de existir e ser perpetuadas dentro dos muros da universidade. Ao longo desses anos de trabalhos, estivemos presentes nas calouradas falando sobre assédio e consentimento, em rodas com atléticas, CAs e repúblicas (femininas e masculinas) abordando temas que vão desde como criar espaços seguros e receptivos aos calouros e veteranos, como também em debates mais aprofundados sobre feminismo e a violência estrutural de gênero em nossa sociedade. Levamos o debate sobre o combate da violência às instâncias da universidade, sejam elas as coordenações de cursos, a Secretaria Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (SAADE) ou a própria reitoria. Desenvolvemos também um projeto com funcionárias terceirizadas da limpeza da UFSCar visando melhorar a qualidade de vida delas a falar sobre saúde da mulher por meio de uma sessão de yoga (para iniciantes) e uma roda de conversa. Ainda, estivemos presentes em atos e intervenções visuais em conjunto com outros coletivos no sentido de exigir que casos graves fossem tratados com a seriedade que deveriam, tanto em situações mais específicas dentro da UFSCar, como na esfera municipal. 

Nós somos mulheres estudantes que lutam para que nossos gestores tragam para si a responsabilidade de garantir a segurança física e psicológica de seus estudantes, lutamos também pelo entendimento de que a violência de gênero é uma questão grave e urgente de permanência estudantil ou profissional. Compreendemos que não ter políticas universitárias efetivas de enfrentamento e de amparo ao sofrimento ocasionado pela violência de gênero junto à uma reestruturação dos meios de denúncia internos — que além de serem violentos por si só com as vítimas, se mostram ineficientes na função de julgar possíveis agressores — é a forma mais brutal de dizer que não somos bem-vindas nesses espaços e que, se quisermos permanecer, a luta é nossa e individual. Porém, a cada caso que chega ao nosso conhecimento teremos o papel de lembrar à essas mulheres e à comunidade que essa luta não será feita só. 

Por fim, é importante ressaltar que a necessidade de mudança de como lidamos e combatemos o assédio dentro da universidade é urgente e inegável; a luta pela democratização do ensino superior engloba incontestavelmente a luta contra violência de gênero, e só avançaremos como instituição e como sociedade, quando todos entenderem isso e estiverem dispostos a fazerem sua parte.

 

 

Referências:

http://www.ouvidoria.ufscar.br/arquivos/PesquisaInstitutoAvon_V9_FINAL_Bx20151.pdf

http://www.eladecide.org/futuro/voce-sabe-o-que-e-assedio-e-como-identifica-lo/

http://cite.gov.pt/pt/acite/dirdevtrab005.html

 

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Créditos da Imagem:
Nome da obra/técnica: Água•Vida | Nanquim
Nome da Artista: Andrógine Zago
Portfólio: Behance.com/androgine
Instagram: @diminutivos

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