No dia 25 de julho foi celebrado o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. A comemoração surgiu em 1992 com a realização do Primeiro Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas em Santo Domingo, na República Dominicana. O evento também deu origem a uma rede de mulheres negras que continua realizando o trabalho até os dias atuais.

A data foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) ainda em 1992. Já no Brasil, com a promulgação da Lei 12.987/2014, o dia 25 de julho também se tornou o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Esta celebração é de suma importância no Brasil, já que a população negra do país é de 56,2%, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2019. Contudo, mesmo sendo maioria, a abordagem racista ainda insere as pessoas negras como protagonistas dos índices de desemprego, morte e demais itens de desigualdade.

Por também estarem inseridas em um recorte de gênero, as mulheres negras acabam sendo alvo de um leque diverso de discriminações. Mesmo contando com nomes como o de Tereza de Benguela, Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez, Benedita da Silva, Aqualtune, Dandara, Elza Soares, Chica da Silva, entre outras, dados do Atlas da Violência 2019 observados no período de 2007 e 2017 revelam que a taxa de feminicídios de mulheres negras cresceu 29,9% (note-se que o assassinato de mulheres não negras teve um aumento de 4,5% no mesmo período).

Nesse contexto, o dia 25 de julho surge para instrumentalizar a união constante das mulheres negras no contexto latino-americano e caribenho. O objetivo é combater o genocídio racial e sexual sistemático.

Uma trajetória exemplar na luta organizada da mulher negra

Com toda essa discussão e no contexto de organizações de luta na pandemia, conversamos com a educadora e comunicadora Ivonete Aparecida Alves. Original da cidade de Garça-SP, Ivonete graduou-se em Comunicação Social na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) em 1993, com monografia intitulada Metodologia da Elaboração de Subsídios para Comunicação em Agricultura Natural.
Na época, Ivonete já atuava como Educadora Popular em vários projetos. Em 2004, decidiu retornar à universidade e formou-se em Pedagogia pela Unesp Presidente Prudente. Fortemente ligada a processos educativos populares, ela explica que a versatilidade a acompanha até hoje. “Ainda realizo assessorias para emissoras de rádio, escrevo e produzo matérias em processos formativos”, afirma Ivonete.

Atualmente à frente do Mocambo APNs Nzinga Afrobrasil – Arte – Educação – Cultura e fazendo seu Doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ivonete tem uma trajetória em torno de uma militância instrumentalizada. Provas disso: já presidiu o Conselho Municipal da Igualdade Racial (COMIR) em Presidente Prudente-SP – órgão gestor de políticas públicas –, é Agbá (mais velha) do Coletivo Mãos Negras no campus da Unesp da mesma cidade e defende a união em prol de uma luta antirracista.

Sobre sua trajetória, Ivonete salienta que, em um mesmo grau de escolaridade, as mulheres negras acadêmicas ocupam situações sociais muito diferentes das situações de mulheres brancas. “Não é porque eu estou fazendo um doutorado que eu deixei de ser uma mulher negra, pobre e periférica e que não posso ajudar meus iguais”, explica. Prova disso é o Mocambo Nzinga, criado em 2009, um dos primeiros do gênero no Brasil e que tem uma atuação no sentido de gerar rendas, propor iniciativas de escolarização e cultura afro-brasileira e amparar mulheres negras e suas famílias.

Com a chegada da pandemia, as tradicionais reuniões, oficinas e aulas do projeto tiveram de ser pausadas. Contudo, a produção de mais 50 tipos de alimentos, bem como a arrecadação de itens básicos auxiliaram as famílias do Mocambo na pandemia.

Num esforço conjunto, Ivonete aponta que a luta racial, com destaque das mulheres negras, exige um comportamento diferente. “A oposição a uma sistemática opressão, como é o caso das mulheres negras,  é feita de forma muito mais lenta pois é negado o acesso a recursos para transformar a realidade. Temos uma dificuldade muito maior para pautar políticas públicas e fazer valer direitos já conquistados. Por isso é fundamental que nós nos organizemos”, ela explica.

Coletivo Mãos Negras

Logo do coletivo mãos negras
Fonte: reprodução/@coletivomaosnegras

Em junho de 2020, o Coletivo Mãos Negras ofertou um curso on-line denominado Curso de Formação Antirracista: vidas negras importam, com a seguinte programação:

  1. “Não consigo respirar” – O renascimento negro por Cheik Anta Diop (físico antropólogo, literato do Senegal);
  2. Racismo, violência psicológica e tratamentos pós-traumático;
  3. 1991: “O negro e sua participação no Movimento de União da Consciência Negra de Presidente Prudente. 2020: onde e como estamos?;
  4. Ações Afirmativas e ensino acadêmico: muito além das cotas;
  5. Feminismo Negro e Masculinidades Negras;
  6. Pretagogia: fundamentos epistemológicos da educação afrocentrada;
  7. Movimento Negro como sujeito: gênese e resistência dos coletivos negros acadêmicos;
  8. Sustentação ideológica e financeira dos Coletivos Negros e Grupos Afrocentrados: a perversidade do caso brasileiro. – Avaliação do Curso.

Já no início desse ano, mais de 260 pessoas se inscreveram no Curso, o que surpreendeu a educadora e as demais mulheres do Coletivo Mãos Negras. A inscrição exigia o preenchimento de um formulário composto de questões diagnósticas (como idade, declaração de cor, nível de escolaridade e motivação). Encerrado no dia 30 de julho, o Curso contou com 81 participantes que se fizeram presentes em ao menos sete encontros, tendo conquistando o direito à certificação.

Do mesmo modo que o Mocambo APNs Nzinga Afrobrasil, o Coletivo Mão Negras é um exemplo do poder da mulher negra. Iniciado por uma mulher negra Taís Teles, atualmente mestranda na Universidade de São Paulo (USP), a organização persiste na tarefa de debater a resistência negra.

Portanto, é importante salientar que as mulheres negras são vanguarda nos processos de sobrevivência das comunidades negras, pensando nas lutas políticas necessárias para que as conquistas não se percam em meio às ações do racismo estrutural. É  cada vez mais é necessário aglutinar forças em torno de construções coletivas, que possam sustentar e fortalecer uma perspectiva afrocentrada.

Autoria de
Matheus Rodrigo dos Santos

Revisão de conteúdo por
Natália Sevilha Stofel

Revisão linguística por
Rebeca Mega

Créditos da imagem: Avel Chuklanov no Unsplash

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