Autora: Julia Lourenço Costa

A contradição definida como a “incompatibilidade lógica entre duas ou mais proposições”[1] é intrínseca à vida das mulheres que equilibram seus modos de existir infligidas pelas diversas opressões às quais somos[2] continuamente submetidas. O sistema político-econômico capitalista, patriarcal, misógino e racista (entre outros tantos aspectos) nos atinge de modo decisivo, provocando a necessidade de que nos desdobremos para exercer tanto as atividades profissionais quanto aquelas desempenhadas nas funções de cuidado (no sentido amplo do termo) e, em particular, em determinada compreensão stricto sensu de família.

Apesar de não ser novidade, durante a pandemia todas essas questões se agravaram e o lugar de entremeio que a mulher ocupa na sociedade contemporânea ficou ainda mais evidente. Nesse sentido, o “malabarismo” do título deste texto adquire aqui um sentido figurado como a “habilidade para contornar situações difíceis, adversas”, e parece ilustrar bem a prática diária das mulheres que vivem este conturbado período da história: sendo afetadas de modos diferentes não só pelas questões de gênero, mas também por outras, tais como raça e classe[3], estamos, neste contexto, continuamente fazendo malabarismos os mais variados.

O processo discursivo de contradição, que fundamenta as oposições e instaura a brecha, o entremeio, a lacuna como o espaço fixado para as mulheres, pôde ser observado e apreendido dos recortes de publicações que foram feitas no Instagram no período de 10/09/2021 a 17/09/2021. Os 18 primeiros resultados, obtidos pela busca da hashtag #mulheresnapandemia nessa rede social, foram levados em conta[4] e a análise foi desenvolvida com base nas capturas de tela de algumas destas publicações.

Este recorte é considerado representativo do modo como o tema geral “mulheres na pandemia”, transformado em hashtag pelo acréscimo do símbolo #, é tratado no microcosmo dessa rede social. Este conjunto de frases pode ser considerado como uma totalidade, isto é, com base nelas é possível referir-se a um macrocosmo: o contexto político e social no qual elas foram produzidas.

Da perspectiva das teorias do discurso, considera-se que a maneira como os temas sociais e políticos são materializados na língua determina a possibilidade de assimilar tanto o lugar daquele/a que fala quanto o lugar que ele/a atribui às personagens implicadas. Em outras palavras, as formas de abordagem de determinado tema expõem opiniões específicas, ou seja, as palavras escolhidas para concretizá-lo evidenciam o modo como ele é compreendido pelas pessoas.

Quando produzimos discursos estamos, de maneira geral, (re)construindo percepções de mundo, isto é, estamos expondo pontos de vista específicos sobre as variadas questões com as quais lidamos no nosso cotidiano. Além disso, estabelecemos também os lugares específicos para as personagens que participam ativamente do tema abordado. #Mulheresnapandemia, por exemplo, é um tema que expõe tanto a perspectiva daquele/a que o aborda, quanto estabelece o lugar da personagem mulher neste contexto.

No arquivo construído para a análise realizada neste texto, foram observadas as formas usadas para qualificar as pessoas, pois elas são “um observatório privilegiado para a análise dos efeitos da contradição entre posições de sujeito”. Além disso, elas sinalizam “os pontos de ruptura/desestabilização referencial, nos quais a própria identidade do sujeito do discurso (que nomeia/é nomeado) oscila, suspendendo os efeitos de evidência do sujeito e do sentido”[5].

Sem aprofundamentos teóricos, é importante destacar entre as publicações do Instagram duas maneiras contraditórias de designar as mulheres na pandemia: a sobrecarga e o heroísmo, enquanto subtemas da representação do papel social da mulher neste contexto. Vale lembrar que os efeitos de sentido, contudo, derivam não apenas da aparente contradição que é estabelecida, mas sobretudo da relação de causalidade que pode ser vislumbrada entre eles, como veremos.

Historicamente encarregadas do trabalho doméstico, de cuidado e de reprodução, as mulheres estão sendo ainda mais exploradas para manter o sistema capitalista no qual vivemos devidamente funcionando durante a pandemia. Silvia Federici, pesquisadora que é referência na abordagem da relação entre feminismos e capitalismo, corrobora essa ideia afirmando que “existe hoje então um feminismo que é contra a dominação patriarcal e quer criar um mundo diferente, um mundo que não é governado pela lógica capitalista, de mercado, um mundo em que não sejamos controladas pelas grandes corporações capitalistas”[6].

Dessa maneira, apresentam-se a seguir quatro frases que foram divididas em dois subgrupos. Nelas, algumas palavras foram enfatizadas: de um lado, heroína e coragem; de outro, sobrecarregadas e socorro. Elas estabelecem o processo de contradição mencionado anteriormente e expõem este lugar de entremeio no qual as mulheres são historicamente situadas e no qual promovem o que chamo, neste texto, de malabarismos. Observemos:

Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4
  1. Ela [7] convida todas as heroínas para uma semana de terapia coletiva.
  2. Coragem contra a crise.
  3. Quem aguenta? mães solo, sobrecarregadas e sem pensão dos filhos.
  4. Socorro!!! Um ano de pandemia e parece que só piorou!

Nestas frases é possível observar um processo de contradição dos sentidos, pois de um lado sobrecarga é usada para designar “tudo o que excede a carga normal”, enquanto heroína indica “uma figura arquetípica, personagem modelo, que reúne, em si, os atributos necessários para superar, de forma excepcional, um determinado problema de dimensão épica”. As definições dicionarizadas começam a estabelecer, no nível dos sentidos, as oposições dos posicionamentos ideológicos.

Os processos discursivos observados no conjunto de enunciados analisados remonta à contradição de dois pontos de vista diferentes sobre o papel das mulheres na sociedade: um que admite que o peso da pandemia recai sobre elas, provocando uma sobrecarga; e outro que as coloca no papel de heroínas, isto é, capazes de suportar todas as tensões que sofrem. Há, contudo, uma relação de causa e efeito que intensifica a possibilidade da gradação entre os dois posicionamentos.

A causalidade entre as duas palavras cria a ideia de que “é heroína porque suporta a sobrecarrega “, ou, em outras palavras, “sobrecarregada porque heroína” (ou vice-versa), enaltecendo o fato de que aquela mulher que é responsável por diversas tarefas – e também capaz de executá-las –, supera os limites humanos e se coloca no espaço do divino, do sobre-humano (do super-humano), quer dizer, no lugar de uma verdadeira heroína.

Porém, as mulheres que se encontram nessa situação de sobrecarga, por meio do malabarismo, tentam sobreviver sob a pressão de que é necessário manter o equilíbrio, isto é, ser capaz de gerenciar todas as funções de modo plenamente satisfatório, heroico e alinhado aos estereótipos de gênero. Há, portanto, uma naturalização do modo como as mulheres se veem coagidas a lidar com essa multiplicidade de tarefas historicamente a elas atribuídas.

Essas funções, tais como cumprir as atividades domésticas, cuidar dos filhos (dos pais e outros familiares, eventualmente) e trabalhar etc., ficaram ainda mais exacerbadas no contexto da pandemia. Desde 2020, as mulheres brasileiras têm se equilibrado entre as supostas contradições da sobrecarga e do heroísmo, buscando superar os desafios cotidianos impostos por uma crise não só sanitária, mas política, econômica e social.

A seguir, apresenta-se uma publicação que faz parte dos textos analisados em sua forma mais completa, onde é possível identificar a contradição interna à qual faço referência e que se coloca, na verdade, numa espécie de gradação. Na capa da referida publicação, lemos em formatação maior a palavra Socorro para, em seguida, na descrição da imagem, lermos as designações guerreira, Mulher Maravilha, além da hashtag #MulheresMaravilhasidoidecidas[8]. Observemos:

Figura 5

Estes dois lugares aparentemente contraditórios atribuídos às mulheres a partir dos estereótipos de gênero foram analisados no conjunto das frases apresentadas e estabelecem uma discordância das diferentes compreensões sobre o papel delas na pandemia. A partir disso, podemos perceber que as mulheres só são heroínas, pois, apesar de sobrecarregadas, são capazes de desempenhar  plenamente as funções a elas atribuídas.

Ainda que as mulheres, segundo a publicação analisada, peçam “socorro”, isto é, “auxílio, benefício, ajuda ou assistência a alguém que se acha em situação de perigo, desamparo”, elas são as “mulheres-maravilha”, as “heroínas”, que precisaram “se reinventar e se transformar”, ainda que afirmem que depois de um ano de pandemia a situação “parece que só piorou”.

As duas ideias, tanto a sobrecarga e quanto o heroísmo não tornam possível uma maior abertura e autonomia do papel social das mulheres na sociedade contemporânea. Estas depreensões foram possíveis a partir do trajeto de análise proposto neste texto, que procurou assinalar a ausência da justa medida e do equilíbrio quando as atribuições de gênero são abordadas, sobretudo no contexto da pandemia. Além disso, procurou-se evidenciar o fato de que refletir sobre as questões de gênero neste momento de crise reforça a necessidade, indispensável e urgente, de considerar esse aspecto numa imperativa reconfiguração futura das nossas vidas.

Referências bibliográficas

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Trad. Natália Luchini. Seminário Teoria Feminista. Cebrap, 2013 [1990].

CREENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. In: Estudos Feministas, 10 (1), 2002.

ZOPPI-FONTANA, Mónica. Identidades (in)formais: contradição, processo de designação e subjetivação na diferença. In: Organon v. 17 n. 35, 2003.

Notas

[1] Todas as definições dicionarizadas de palavras e expressões empregadas neste texto foram consultadas em: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/

 

[2] O texto de uma Enciclopédia prevê certa objetividade no tratamento do tema. Assumo, porém, a responsabilidade pela escolha política de me incluir, em alguns momentos, enquanto mulher e pesquisadora implicada nas questões abordadas.

 

[3] Consultar Creenshaw, 2002 e Hill Collins, 2013, por exemplo, sobre o conceito de interseccionalidade.

[4] O resultado completo da busca pode ser acessado em: https://www.instagram.com/explore/tags/mulheresnapandemia/

[5] Os dois trechos são do texto de Zoppi-Fontana disponível em: https://seer.ufrgs.br/organon/article/view/30027 e inserido nas referências bibliográficas.

 

[6] Disponível em: https://apublica.org/2021/03/silvia-federici-espero-que-esse-momento-impulsione-uma-forte-mobilizacao-de-movimentos-feministas/

 

[7] Optei por usar a terceira pessoa para designar o nome que aparece na publicação com a finalidade de anonimizar o recorte.

 

[8] Na publicação original idoidecidas é usado no lugar de endoidecidas.

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