Autores:
Renata Postel Moreira
João Pedro de Barros Fernandes Gaion

Revisores de Conteúdo:
Prof. Francisco de Assis Carvalho do Vale
Prof. Matheus Fernando Manzolli Ballestero

 

Você já ouviu falar em Doença de Parkinson?

A Doença de Parkinson (DP), ou, como algumas vezes é erroneamente chamada, “Mal de Parkinson”, é uma doença neurodegenerativa, isto é, em que há perda progressiva de células nervosas (neurônios), predominantemente as localizadas em uma área específica do cérebro chamada substância negra, que tem esse nome devido a coloração escura das células produtoras de dopamina, uma substância responsável pela comunicação entre as células nervosas, e participa de muitos processos, entre eles o planejamento e a coordenação de movimentos. A doença recebeu esse nome em referência ao médico britânico James Parkinson, que a descreveu em detalhes, no ano de 1817. (MJF, 2020; PARKINSON’S FOUNDATION, 2020; OPAS, 2018).

 

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Atualmente, mais de 10 milhões de pessoas vivem com a DP, o que faz com que ela seja a segunda doença neurodegenerativa mais comum em todo o mundo, ficando atrás somente da doença de Alzheimer. Para cada mil pessoas, 1 ou 2 têm a doença em todo o mundo e a prevalência aumenta consideravelmente a partir dos 60 anos, quando 1 em cada cem pessoas pode apresentar a doença. Os homens são relativamente mais acometidos do que as mulheres, sendo que a população branca é um pouco mais acometida também (LEW, 2007; BENÉ, 2009; TYSNES, 2017; PARKINSON’S FOUNDATION, 2020; USP, sem data; MSD, 2019).

No Brasil, não há uma informação precisa e atualizada sobre os números da doença, uma vez que ela não é de notificação compulsória. Estima-se mais de 220 mil casos no país, com uma preocupação crescente do aumento desse número, visto que o perfil demográfico no país (e no mundo) está se modificando. A população idosa é cada vez maior e estima-se que, em 2030, o número de acometidos por DP duplicará (BOVOLENTA, 2016).

 

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O que causa a doença e como ela progride?

A DP ainda tem sua causa desconhecida. Hoje, acredita-se que a ocorrência da DP se deva a uma combinação tanto de fatores genéticos, quanto de fatores ambientais, mas o mecanismo exato de desenvolvimento da doença ainda não está totalmente esclarecido. Fatores genéticos predisponentes combinados com fatores ambientais são considerados responsáveis ​​pelas mudanças nas células que levam os neurônios a degenerarem (LEW, 2007; BENÉ, 2009; KOULI, 2018; PARKINSON’S FOUNDATION, 2020).

Normalmente, atinge pessoas entre os 50 e 79 anos, porém, cerca de 4% das pessoas com Parkinson são diagnosticadas antes dos 50 anos. Raramente, acomete crianças ou adolescentes. Ela tem início quando determinadas células cerebrais passam a se degenerar. Tais células produzem dopamina, que é uma substância química essencial para o controle do sistema motor, participando do processamento das informações relacionadas ao movimento (LEW, 2007; BENÉ, 2009; KOULI, 2018; USP, sem data, MSD, 2019; PARKINSON’S FOUNDATION, 2020)

Essas células estão amplamente envolvidas com as atividades simples do nosso cotidiano, tais como usar as mãos para pegar um objeto, mover os pés para andar, dirigir, escrever, tocar um instrumento, praticar um esporte, entre tantas outras. Em resumo, elas nos ajudam a ajustar cada uma das ações que realizamos ao longo do dia. A degeneração dessas células ocorre progressivamente e, com a menor produção de dopamina, os sintomas pioram lentamente com o tempo (PARKINSON’S FOUNDATION, 2020)

Como a doença de Parkinson geralmente progride?

A progressão e o grau de comprometimento podem variar de pessoa para pessoa (OPAS, 2018).

Apesar de as manifestações motoras serem as que mais associamos à DP, manifestações não motoras, como hiposmia (diminuição do olfato), constipação intestinal e transtorno comportamental do sono REM, que é o sono onde ocorrem os sonhos, podem estar presentes anos antes do surgimento das alterações motoras (BARBOSA, 2019).

A principal manifestação clínica da doença é a síndrome parkinsoniana, um distúrbio do movimento que se apresenta com quatro componentes básicos:

  1. Bradicinesia: lentidão e a redução da amplitude de movimentos voluntários. Pode se relacionar também com incapacidade de sustentar movimentos repetitivos, cansaço anormal e dificuldade para realizar movimentos diferentes simultaneamente;
  2. Rigidez: se dá principalmente pela resistência à movimentação dos membros;
  3. Tremor parkinsoniano: é o tremor que ocorre no repouso e tende a aumentar durante a marcha, no esforço mental e em situações de tensão emocional e a diminuir com a movimentação voluntária do membro e com o sono;
  4. Instabilidade postural: se dá pelo acometimento preferencial dos musculatura flexores, que leva a alterações típicas da postura, como o tronco curvado para frente e dificuldade em esticar os braços e as pernas. Não é comum em fases iniciais de evolução da DP, mas posteriormente pode agravar-se e aumentar o risco de quedas.

Adicionalmente, podem ocorrer alterações mentais. Elas não são comuns no início da doença mas, em doença avançada, entre 20% e 40% das pessoas apresentam declínio cognitivo grave. A depressão é o transtorno mental mais comum nas pessoas que convivem com DP, seguida por quadros ansiosos, primariamente transtorno de pânico. Sintomas neuropsiquiátricos se tornam mais frequentes com o avanço da doença, em que há comprometimento do córtex cerebral, responsável por funções cognitivas como atenção e linguagem (NITRINI, 2003; BARBOSA, 2019).

Quais são os sinais e sintomas da Doença de Parkinson?

Inicialmente, a doença pode não apresentar sintomas e, nesses casos, eles somente aparecerão conforme a doença evolui. Sua progressão é lenta e variável e está associada a uma deficiência significativa não apenas motora (nos movimentos/ na movimentação), além de um impacto negativo na qualidade de vida, com o passar dos anos. É comum que os primeiros sintomas sejam tremores e problemas relacionados ao movimento (LEW, 2007; NITRINI, 2003, AARSLAND, 2017; USP, sem data; MSD, 2019; PARKINSON’S FOUNDATION, 2020; WHO, 2020).

 

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Atenção: muitas outras doenças e medicamentos podem causar sintomas similares aos da doença de Parkinson. Às vezes, também é difícil diagnosticar a doença de Parkinson em pessoas mais velhas, uma vez que o envelhecimento pode causar alguns dos mesmos sintomas. Ao apresentar estes ou outros sinais e sintomas, busque sempre auxílio médico.

Como é feito o diagnóstico?

Pode ser difícil identificar a doença quando ela está em sua etapa inicial, pois ela tende a começar de modo sutil e seus sintomas aparecem gradualmente. O diagnóstico é clínico, isto é, baseado nos sinais e sintomas que a pessoa apresenta. Para isso é muito importante que o médico e a equipe de saúde façam uma boa história clínica, acompanhada de exame físico geral e neurológico. Também é necessário coletar um detalhado histórico pessoal e familiar, visto que, aproximadamente, 10% das pessoas com DP possuem parentes que também têm ou tiveram a doença. Não existem exames que confirmem o diagnóstico de forma direta, mas eles podem ser solicitados para identificar se um problema sistêmico em alguma estrutura do cérebro pode ser a causa dos sintomas (POSTUMA, 2015; MSD, 2019).

Existe tratamento para a Doença de Parkinson?

Até o momento, não há cura para a DP, no entanto, há tratamento para reduzir os sintomas motores e uma série de outras medidas que podem ser adotadas para auxiliar a pessoa com Parkinson a melhorar as suas funções diárias (PARKINSON’S FOUNDATION, 2020; MSD, 2019).

O tratamento é feito com medicamentos prescritos pelo médico que atuam nos sintomas motores, como a levodopa, que é transformada pelo organismo em dopamina, a substância que tem sua produção diminuída com a morte dos neurônios da substância negra, e pode ser combinada com drogas que aumentam o tempo de ação dessa substância no corpo, facilitando a realização de movimentos cotidianos, e permitindo que a pessoa aja de modo eficiente por diversos anos após o diagnóstico (BARBOSA; FERRAZ, 2019). Entre os tratamentos disponíveis, existem opções de estimular áreas do cérebro com corrente elétrica (estimulador cerebral profundo) para auxiliar no tratamento dos sintomas e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos com DP (PARKINSON’S FOUNDATION, 2020, MSD, 2019).

É importante também oferecer planos de cuidado que auxiliem a pessoa com Parkinson a melhorar sua qualidade de vida, promovendo autonomia em suas atividades do dia a dia. Outras medidas, além do tratamento medicamentoso, podem ser adotadas para evitar acidentes em casa, minimizar as dores, retardar a perda cognitiva, amenizar os efeitos da constipação, entre outros. Deixamos aqui algumas dicas:

 

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E, por fim, lembre-se: no caso de dúvidas ou caso precise de auxílio para você ou para um familiar, consulte sempre um profissional da saúde.

 

Saiba mais em:

 

Referências bibliográficas:

  1. AARSLAND, D. et al. Cognitive decline in Parkinson disease. Nat Rev Neurol. 2017 Apr;13(4):217-231. doi: 10.1038/nrneurol.2017.27.
  2. BARBOSA, E. R. FERRAZ, H. B. Doença de Parkinson. In: GAGLIARDI, Rubens J.; TAKAYANAGUI, Osvaldo M. (org.). Tratado de neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. cap. 34.
  3. BÉNÉ, R. et al. Parkinson’s disease. Acta Clin Croat. 2009 Sep;48(3):377-80.
  4. BOVOLENTA, T. M. FELÍCIO, A. C. O doente de Parkinson no contexto das Políticas Públicas de Saúde no Brasil. einstein (São Paulo), São Paulo, v. 14, n. 3, p. 7-9, set. 2016.
  5. KOULI, A. TORSNEY, K.M. KUAN, W.L. Parkinson’s Disease: Etiology, Neuropathology, and Pathogenesis. In: Stoker TB, Greenland JC, editors. Parkinson’s Disease: Pathogenesis and Clinical Aspects [Internet]. Brisbane (AU): Codon Publications; 2018 Dec 21. Chapter 1.
  6. LEW, M. Overview of Parkinson’s disease. Pharmacotherapy. 2007 Dec;27(12 Pt 2):155S-160S. doi: 10.1592/phco.27.12part2.155S.
  7. MICHAEL J. FOX FOUNDATION. Parkinson’s 101. Disponível em: https://www.michaeljfox.org/parkinsons-101. Acessado em: 10/11/2020.
  8. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/index.php/34589-doenca-de-parkinson. Acessado em: 10/11/2020.
  9. MANUAL MERCK. Doença de Parkinson (DP). Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/doen%C3%A7as-do-movimento/doen%C3%A7a-de-parkinson-dp. Acessado em: 10/11/2020.
  10. NITRINI, R.; BACHESCHI, L. A. A neurologia que todo médico deve saber. [S.l: s.n.], 2003.
  11. PARKINSON’S FOUNDATION. Disponível em: https://www.parkinson.org/Understanding-Parkinsons/. Acessado em: 10/11/2020.
  12. POSTUMA, R. B. et al. MDS clinical diagnostic criteria for Parkinson’s disease. Mov Disord. 2015 Oct;30(12): 1591-601.
  13. TYSNES, O.B. STORSTEIN, A. Epidemiology of Parkinson’s disease. J Neural Transm (Vienna). 2017 Aug;124(8): 901-905.
  14. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Doenças Neurodegenerativas. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/191388/mod_resource/content/1/Doen%C3%A7as%20Neurodegenerativas.pdf Acessado em: 10/11/2020.
  15. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Neurological disorders: a public health approach. Disponível em: https://www.who.int/mental_health/neurology/chapter_3_b_neuro_disorders_public_h_challenges.pdf?ua=1. Acessado em: 10/11/2020.

Créditos da imagem: Storyset no Freepik

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