Neste texto, abordaremos a fadiga em profissionais e gestores de saúde, linha de frente no combate à pandemia de COVID-19 e que têm se submetido à intensas e desgastantes jornadas de trabalho para assegurar a continuidade e qualidade dos serviços.

1. O que é fadiga?

Não existe uma definição única sobre a fadiga, uma vez que diferentes grupos profissionais tendem a analisá-la sob perspectivas distintas. Mota e colaboradores (2005) afirmam que alguns atributos têm sido associados à fadiga: cansaço, exaustão, desgaste, fraqueza, astenia (perda ou diminuição da força física), diminuição da capacidade funcional ou da capacidade de realizar atividades diárias, falta de energia, redução da eficiência para responder um estímulo, desconforto, sonolência, diminuição da motivação, aversão a atividades, sofrimento e necessidade extrema de descanso [este artigo ajuda a compreender melhor este conceito].

2. Fadiga e Burnout são a mesma coisa?

A fadiga é um dos sintomas da Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, definida pelo Ministério da Saúde como um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema (excesso de trabalho), estresse e esgotamento físico, resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade [leia mais sobre este assunto aqui e aqui].

3. Por que precisamos falar de fadiga no contexto de trabalho em tempos de COVID-19?

Nos últimos meses, temos acompanhado os esforços dos trabalhadores e gestores de saúde em assegurar o atendimento ininterrupto e de qualidade para todos os usuários dos sistemas de saúde público e privado, que sejam suspeitos ou tenham se infectado com a COVID-19, além da manutenção de serviços de saúde essenciais, como o atendimento a urgências e emergências. Isso tem gerado a reorganização dos processos de trabalho, incluindo jornadas ampliadas, turnos extras e flexibilização de pausas e folgas para descanso, o que desencadeiam processos de desgaste e adoecimento, manifestados de diversas formas, inclusive por meio da fadiga. Além disso, tem demandado esforço extra dos gestores para organização das escalas, provimento de recursos adequados e em quantidade suficiente para realização do trabalho (como Equipamentos de Proteção Individual – EPI), gestão dos trabalhadores afastados e muitas outras ações, que também impactam no aumento do estresse e fadiga entre os tomadores de decisão. A fadiga, por prejudicar as capacidades funcionais dos trabalhadores, pode aumentar os riscos de acidentes de trabalho e comprometer a segurança do paciente, sendo de extrema relevância intervenções nos ambientes de trabalho para minimizar seus impactos.

4. Quais estratégias podem ajudar no controle da fadiga?

O Centro para Controle e Prevenção de Doenças norte-americano (CDC) publicou uma síntese de estudos científicos com dicas para controle da fadiga em trabalhadores e gestores de saúde [você pode consultar o documento na íntegra aqui], dentre as quais, destacamos:

a) Para trabalhadores de saúde:

  • Priorizar o sono quando estiver nos momentos de descanso;
  • Buscar técnicas de relaxamento que auxiliem a indução do sono;
  • Manter alimentação saudável, evitando álcool e excesso de café;
  • Realizar sonecas curtas (de 15 a 30 minutos) durante o trabalho e sonecas mais longas (1 horas e meia) antes dos turnos de trabalho noturno;
  • Observar sinais e sintomas em si e nos demais colegas de trabalho;
  • Informar seu superior quando perceber que a fadiga o impede de concentrar-se nas atividades e realizar seu trabalho.

b) Para gestores de saúde:

  • Melhorar os canais de comunicação com a equipe, com encontros diários para compartilhamento de informações sobre escalas e atividades;
  • Flexibilizar atividades sempre que necessário, ouvindo e oferecendo apoio às equipes;
  • Limitar ao máximo a dobra de plantões, turnos estendidos (superiores a 12 horas) ou reduções dos tempos para descanso;
  • Assegurar, minimamente, 11 horas consecutivas de descanso entre duas jornadas de trabalho (considerando períodos de um dia inteiro de descanso a cada sete dias), para garantir a recuperação (Consolidação das Leis Trabalhistas, 1943);
  • Oferecer serviços de apoio como alimentação, áreas de descanso e lavanderia;
  • Buscar estratégias que viabilizem intervalos curtos a cada 2 horas, incluindo possibilidade de sonecas e intervalos mais longos nas refeições;
  • Estar próximo às equipes para identificar precocemente sinais e sintomas de fadiga;
  • Montar redes de apoio entre os colegas para identificação dos sinais e sintomas de fadiga.

5. E quando não der mais para continuar?

Tudo bem! Caso você identifique sinais ou sintomas de fadiga, busque o diálogo com serviços de saúde e segurança no trabalho e com a supervisão (e, no caso dos gestores, com demais colegas), para encontrar alternativas de preservação da saúde física e mental. Caso não haja apoio ou flexibilidade, busque suporte nos sindicatos, serviços de saúde e Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de sua região. Os trabalhadores de saúde são essenciais para o enfrentamento da COVID-19, mas não são super-heróis (até porque, super-heróis não existem): são seres humanos que possuem medo, insegurança, responsabilidades familiares, que precisam ser valorizados e, principalmente, protegidos.

Seja você trabalhador ou gestor de saúde, busque cuidar de si e dos demais colegas durante esta situação emergencial; estabeleça canais efetivos de comunicação; busque e ofereça apoio; fortaleça o trabalho em equipe colaborativo; e lembre-se que para que o cuidado seja realizado, os cuidadores precisam estar seguros e saudáveis.

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Revisão de Conteúdo:
Cristiane S. Moriguchi de Castro
Débora Couto Carrijo
Eduardo Pinto e Silva
Juliana Morais Menegussi
Juliano Ferreira Arcuri
Mariana de Almeida Fagá
Vera Regina Lorenz7

Créditos da imagem: Tana no Rawpixel

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