Fazer com que a dor social seja aliviada cabe a todos os profissionais envolvidos na assistência, defende Alexandre Silva, convidado da série “Dor e Pandemia”

Na vertente da integralidade do cuidado, cuidar da dor de uma pessoa é compreendê-la como um ser humano global e atender as necessidades que são importantes para ela, visando à dignidade e atenção à saúde. Nesse sentido, é preciso oferecer um atendimento que considere todas as esferas da dor total e uma delas é a dimensão social, tema desta semana da série “Dor e Pandemia”.  

Cuidar da dor social significa conhecê-la, compreendê-la e identificá-la, pois muitas são as expressões sociais na vida do indivíduo e da rede que o circunda. Trata-se de um tema sensível e recorrente no cotidiano da população brasileira e, para discuti-lo, convidamos Alexandre Ernesto Silva, enfermeiro e professor adjunto da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). 

Especialista em Saúde Mental e em Gestão Hospitalar, com doutorado na temática dos cuidados paliativos pela UFMG/Universidade Católica Portuguesa, ele explica na entrevista a seguir como identificar a dor social, como enfrentá-la e quais os impactos da pandemia sobre esse âmbito da dor total.

Considerando o conceito de dor total empregado nos cuidados paliativos, quais são os principais aspectos vinculados à dimensão social que devem ser observados?

Quando falamos em dor social, nos referimos principalmente ao sofrimento causado pela perda do papel social da pessoa com uma condição que ameace a continuidade da vida, ou seja, perda do papel de provedor, de cuidador, de profissional ativo, de uma pessoa em completa imersão nas redes de contato e, mais do que isso, de um ser produtivo. Atrelados a essa perda do papel social, o que mais precisamos observar são os aspectos relacionados ao isolamento, abandono, estados de privação material, injustiças sociais e perda da liberdade em todas as suas formas e expressões.

Na prática dos cuidados paliativos, quais são os instrumentos para uma avaliação dessa dimensão? 

Não conheço um instrumento que, de fato, avalie sofrimento social em todos os seus aspectos, porém, ao avaliar os principais sinais, sintomas e possíveis causas de sofrimento, identifico pela comunicação verbal ou não verbal sentimentos de dor social.

Quais profissionais devem estar envolvidos nessa avaliação?

Em relação às intervenções sociais referentes aos direitos da pessoa, aos entrelaços familiares e questões ético-legais e técnico-científicas da assistência social, sem dúvida, o protagonismo cabe aos assistentes sociais. Porém, observar, identificar e fazer com que a dor social seja aliviada cabem a todos e quaisquer profissionais envolvidos na assistência, inclusive para direcionar aos possíveis profissionais que possam sanar ou minimizar as situações causadoras da dor.

O que é possível realizar para atender as necessidades do usuário e de sua família diante dessa dor?

Inicialmente, ouvi-los ativamente, percebendo o que muitas vezes a comunicação verbal não expressa. Observar os aspectos do ambiente domiciliar no que diz respeito a móveis, aparatos de suporte ao cuidado, disposição dos cuidadores/familiares em cuidar, qual sua rede de contato e a proximidade dessa rede, disponibilidade de alimentos, saneamento, água, energia elétrica etc. Identificadas carências, planejar condições de ajuste e ações que possam melhorar o bem-estar e a qualidade de vida da pessoa assistida. Buscar ações que possam inseri-la em um meio social de sua preferência, facilitando essa aproximação. Além disso, por meio da assistência social, prover esse núcleo familiar de condições que supram suas necessidades básicas de sobrevivência.

Em sua opinião, o que é importante destacar neste cenário de pandemia?

A atenção para possíveis situações de mistanásia, ou seja, de pessoas que morrem “antes da hora”, antes do previsível pela evolução natural de uma doença, especialmente por condições de abandono, miséria e inacessibilidade aos serviços de saúde e assistência social. Destaco essa situação pela não raridade das pessoas em condições de abandono, e não apenas devido às condições econômicas, mas pela condição de isolamento ou desprezo mesmo.  

 

Elaborado por
Juliana Morais Menegussi
Stefhanie Piovezan
Esther Angélica Luiz Ferreira
Tatiana Barbieri Bombarda

 

Créditos da imagem: Duong Nhân no Pexels

 

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