Por Sidnay Fernandes dos Santos Silva e Terezinha Ferreira de Almeida

 

Quarentena é um substantivo feminino derivado do numeral cardinal “quarenta”, formado a partir de outro numeral de valor menor, “quatro”, e significa, como resultado de uma multiplicação, quatro dezenas. O sufixo -ena traz o sentido de período, um período de quarenta dias, assim como quinzena, um período de quinze dias. Os dicionários de língua portuguesa registram também os verbetes quarentenar (verbo que significa estar de, ou fazer quarentena) e quarentenário (palavra utilizada para se referir ao período de quarenta anos e, no contexto de ações sanitárias, para adjetivar palavras como “medidas quarentenárias”[1].

O termo quarentena tem origem nos primórdios da vacinação contra a varíola quando, na China Antiga, constatara-se que as crostas extraídas dos acometidos por varíola permaneciam infectantes por cerca de 40 dias durante o inverno e 20 dias no verão[2]. Tal constatação determinou práticas culturais diversas a serem adotadas para conter a disseminação de doenças infecciosas, dentre elas, o período de reclusão imposto a indivíduos doentes ou suspeitos de serem portadores de doenças infecciosas.

Na Idade Média, diante da hanseníase[3] e da epidemia de peste negra, a prática de quarentena foi adotada e, após a epidemia da peste, estendeu-se ao controle portuário[4], navios procedentes de determinadas áreas ficavam durante quarenta dias sem comunicação nos portos em que ancoravam[5].  No século XIX, vários países europeus adotaram a medida de quarentena como lei portuária, incluindo não só passageiros, mas também tripulantes e mercadorias. Em 1951, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou o Regulamento Sanitário Internacional e “o termo quarentena ganhou peso normativo internacional, aceito por diversos países como forma eficaz de controle sanitário”[6].

Conforme sua própria origem, quarentena significa, então, o isolamento de indivíduos saudáveis que mantiveram contato com uma pessoa doente ou que vieram de áreas consideradas de alto risco de uma determinada doença infectocontagiosa. O período do isolamento, porém, não está necessariamente atrelado a quarenta dias, mas sim ao período máximo de incubação de uma infecção. Segundo a legislação sanitária internacional, somente quatro doenças (varíola, peste, febre amarela e cólera) são consideradas quarentenárias[7], ou seja, sua transmissibilidade pode ocorrer por um período de até quarenta dias. No caso da COVID-19, o período exigido para o indivíduo que foi exposto ao novo coronavírus fazer quarentena (ou isolar-se dentre de sua própria casa) é de até quatorze dias.

Desde março, quando a OMS declarou estado de pandemia, o termo quarentena tem sido bastante utilizado no Brasil, popularizando-se, e seu uso tem ocorrido, muitas vezes, indistintamente, como sinônimo de isolamento social, de distanciamento social ou até de pandemia.

Em seu sentido técnico, o termo quarentena é pouco utilizado. Tende a ser encontrado em textos científicos e informativos emitidos por instituições científicas, tais como Organização Mundial de Saúde(OMS), Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Ministério da Saúde do Brasil. Como exemplo, temos um dos objetivos estratégicos de resposta à pandemia da COVID-19, divulgado pela OPAS: “prevenção da transmissão comunitária com detecção, isolamento e tratamento rápido dos casos, além de identificação, quarentena e atendimento às necessidades dos contatos”[8]. Na mesma frase, os termos quarentena e isolamento estão empregados com seus sentidos diferentes, científicos: quarentena fazendo referência às ações para indivíduos que tiveram contato com casos confirmados e “isolamento”, para os indivíduos portadores do vírus SARS-CoV-2.

Em contrapartida, mesmo em textos mais técnicos, quarentena também tem adquirido sentidos novos. Em texto científico publicado na Agência Fapesp, o termo quarentena é empregado no plural e representa os períodos nos quais as cidades devem adotar medidas restritivas para circulação dos habitantes e funcionamento de instituições comercias e de serviços à população: “Estudo mostra a vantagem de quarentenas alternadas em cidades paulistas”[9].

Na Agência Fapesp, no portal InformaSUS e no portal R7, há prevalência do termo quarentena em títulos de textos dos mais variados gêneros. No entanto, os textos mais próximos da esfera das atividades de entretenimento são onde que registram mais ocorrências. Nesses contextos, o sentido atribuído à quarentena não é o científico, o que parece demonstrar que o termo teve seus sentidos alterados e passou a significar, no contexto brasileiro, o período que corresponde desde março de 2020 até o presente momento em que é utilizado.

Muitos enunciadores partilham dicas de como passar esse período ou sugestões de atividades para serem feitas neste momento: “Ideias culturais na quarentena: dica para leitura”[10], “21 ideias sobre o que fazer em casa na quarentena”[11] . Também há muitos títulos de projetos sociais e acadêmicos que trazem o termo quarentena: Quarentena ao Vivo (LABI-UFSCar)[12], Projetos da Quarentena: cantando a distância (Colégio Bandeirantes)[13].

Com esse novo sentido adquirido – jornada da pandemia, na qual é preciso manter distanciamento social e evitar aglomerações – emerge, nas redes sociais, o termo “quarentenado”, usado em suas várias flexões: singular, plural, masculino e feminino. O Instagram, inclusive, lançou  uma série de seis episódios “Quarentenados: eles moram no mesmo prédio, mas não se encontram[14]”. No Twitter, Facebook e Instagram, o termo aparece  acompanhado de hastag  #quarentenados. No InformaSUS, há uma ocorrência no feminino singular no interior de uma crônica[15]: “Tivemos que fazer hora, ou melhor, fazer meses, já que nas minhas contas já tenho quatro meses ‘quarentenada’”[16].

O termo quarentena também é utilizado em contextos que permitem a permuta com pandemia ou COVID-19.  A crônica publicada no InformaSUS, citada acima, intitula-se  “Tinha uma quarentena no meio do caminho” e, nela, se lê: “Mas ‘No meio do caminho tinha uma pedra , Tinha uma pedra no meio do caminho’, pois é Drummond, a pedra no meu caminho tinha nome e se chamava Covid-19”[17]. Mesmo em textos científicos, ocorrências desse tipo são corriqueiras: “Identificamos que os sonhos do primeiro mês da quarentena estavam mais associados aos termos contaminação e limpeza”[18].

Esses sentidos fluidos atribuídos ao termo quarentena podem justificar porque, em muitos discursos midiáticos, há uma tendência de acrescentar o adjetivo “obrigatória” quando se trata de referir seu sentido científico: “Arbolino voa com doente por Covid-19 e perde GP de Aragão por quarentena obrigatória”[19]; “Ex-premiê do R. Unido teria furado quarentena obrigatória, diz jornal. Tony Blair teria desrespeitado isolamento de 14 dias depois de voltar dos EUA e embarcado para outra viagem 10 dias após o retorno”[20].

Quarentena ganhou força e se tornou um termo produtivo, inclusive ampliando o léxico da língua portuguesa. É o que se vê com o surgimento de uma  palavra nova criada pelo processo de derivação: quarentener. Empregada como substantivo, refere-se às pessoas que estão cumprindo a medida restritiva de ficar em casa neste período, e, em tom de brincadeira, é utilizada para nomear perfis nas redes sociais e para caracterizar os estilos de  “personagens” ou os diferentes modos como as pessoas estão vivendo a jornada da pandemia, como no título do teste: “Que tipo de quarentener é você?”[21].

No Brasil, a polarização político-partidária que se intensificou em meio à crise sanitária estendeu-se ao campo das disputas pelas palavras e pelos sentidos acerca da doença pandêmica, da saúde da população brasileira  e da economia do país. Nesse contexto, o neologismo quarenteners emerge em oposição a outro: cloroquiners[22], derivado de cloroquina. O acréscimo do sufixo -er, no português, remete ao significado “aquele que, ou aquilo que”. Há recorrência também do termo quarenteners como adjetivo na expressão “bebês quarenteners”, que designa os que estão nascendo nesse período de pandemia, fazendo referência à capacidade de resiliência e adaptação dos seres humanos.

Nos discursos divulgados nas mídias e redes sociais brasileiras, ser um quarentener ou um cloroquiner é se posicionar na arena de embates de sentidos evocados pela polarização da pandemia da COVID-19. Esses termos categorizam as pessoas em dois grupos distintos: os que acreditam no poder letal do vírus e são adeptos de medidas restritivas, como isolamento, distanciamento e quarentena; e os negacionistas da letalidade do vírus, que defendem o uso da cloroquina no tratamento do coronavírus, apesar da falta de comprovação científica quanto à eficácia da droga.

Pelo histórico do termo quarentena, é possível compreender, por um lado, como a língua, diante da necessidade de expressar novas realidades, movimenta-se sem obedecer fronteiras ou regras e, por outro lado, como as instituições midiáticas, assim como as redes sociais deste tempo presente, conseguem impulsionar ainda mais esse movimento de significação simbólica.

 

Notas

[1] KOOGAN,A.&  HOUAISS, A. Enciclopédia e dicionário ilustrado. Rio de Janeiro: Seifer, 1998.

[2] SANTOS, Iris Almeida dos. & NASCIMENTO, Wanderson Flor do. As medidas de quarentena humana na saúde pública: aspectos bioéticos. Revista  Bioethikos – Centro Universitário São Camilo. Disponível em: https://saocamilo-sp.br/assets/artigo/bioethikos/155563/A05.pdf . Acesso: 30 set. 2020.

[3] Antigamente, a hanseníase era conhecida pelo nome “lepra”.

[4] SANTOS, Iris Almeida dos. & NASCIMENTO, Wanderson Flor do. As medidas de quarentena humana na saúde pública: aspectos bioéticos. Revista  Bioethikos – Centro Universitário São Camilo. Disponível em: https://saocamilo-sp.br/assets/artigo/bioethikos/155563/A05.pdf . Acesso: 30 set. 2020.

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Quarentena. Acesso: 30 set. 2020.

[6]  SANTOS, I.A. & NASCIMENTO, W. F. As medidas de quarentena humana na saúde pública: aspectos bioéticos. Revista  Bioethikos- Centro Universitário São Camilo. Disponível em: https://saocamilo-sp.br/assets/artigo/bioethikos/155563/A05.pdf . Acesso: 30 set. 2020.

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Quarentena. Acesso: 30 set. 2020.

[8] Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/52045/OPASBRACOVID1920039a_%20por.pdf?sequence=8 . Acesso: 30 set. 2020.

[9] https://agencia.fapesp.br/estudo-mostra-a-vantagem-de-quarentenas-alternadas-em-cidades-paulistas/33201/. Acesso: 30 set. 2020.

[10] https://www.informasus.ufscar.br/ideias-culturais-na-quarentena-dica-para-leitura/. Acesso: 16. out. 2020.

[11] https://folhadirigida.com.br/blog/o-que-fazer-em-casa-quarentena/. Acesso: 17 out. 2020.

[12] https://agencia.fapesp.br/agenda-detalhe/quarentena-ao-vivo-mulheres-cientistas-na-pandemia/33662/. Acesso: 16 out. 2020.

[13] https://colband.net.br/o-aluno-band/projetos-da-quarentena-cantando-a-distancia. Acesso: 16 out. 2020.

[14] https://www.instagram.com/quarentenadostv/. Acesso: 18 out.2020.

[15] Crônica que compõe o Projeto CultivARTE,  um projeto apoiado pelo INFORMASUS , que se caracteriza como um  festival virtual, no qual são exibidas obras artísticas de diversas categorias para viabilizar o diálogo da produção cultural com os sentimentos e sentidos relacionados ao enfrentamento das adversidades impostas pela pandemia da COVID-19.

[16] https://www.informasus.ufscar.br/tinha-uma-quarentena-no-meio-do-caminho/. Acesso: 18 out. 2020.

[17] Idem.

[18] https://agencia.fapesp.br/sonhos-podem-revelar-como-esta-o-processo-de-adaptacao-ao-novo-normal/33380/. Acesso: 17 out. 2020

[19] https://www.grandepremio.com.br/motogp/noticias/arbolino-voa-com-doente-por-covid-19-e-perde-gp-de-aragao-por-quarentena-obrigatoria/. Acesso: 17 out 2020.

[20] https://noticias.r7.com/internacional/ex-premie-do-r-unido-teria-furado-quarentena-obrigatoria-diz-jornal-18102020. Acesso: 17 out.2020.

[21] https://www.uol.com.br/universa/quiz/2020/05/19/que-quarentener-e-voce.htm. Acesso: 18 out.2020.

[22] https://www.diariodaregiao.com.br/cidades/2020/05/1193621-pandemia-do-coronavirus-traz-a-tona-novas-palavras-e-termos.html. Acesso: 18 out.2020.

 

Crédito da imagem: Magda Ehlers em Pexels

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