O grupo temático de saúde indígena do InformaSUS inicia hoje uma nova série, chamada: Conversa de indígenas sobre a arte e saúde. A ideia surgiu a partir de trocas a respeito do filme A Febre. As conversas sobre o filme despertaram o interesse pela interface entre a saúde e as mais diferentes expressões artísticas e culturais, que envolvem os povos indígenas.

Apresentamos, nesta postagem, as nossas conversas sobre o filme A Febre. Como estratégia para produzir este texto, realizamos duas rodas de conversa. Na primeira, trocamos nossas impressões sobre o filme entre os participantes do grupo. Na segunda, tivemos a oportunidade de ouvir a experiência da atriz Rosa Peixoto, que atuou no filme no papel de Vanessa, e do ator Regis Myrupu, que atuou como Justino. 

CUIDADO, CONTÉM SPOILER!

Antes de iniciarmos a discussão sobre o filme, gostaríamos de apresentar a obra:

A Febre

O filme conta a história de Justino, um homem indígena de 45 anos, do povo Dessana. Ele trabalha como vigilante no porto de Manaus, Amazonas. O filme narra a rotina de Justino e de sua filha Vanessa, que trabalha em um posto de saúde e acaba de passar para a faculdade de Medicina, na Universidade de Brasília. O irmão de Vanessa, já adaptado à rotina da cidade, mora com a esposa e o filho. No decorrer da história, Justino é acometido por uma febre misteriosa. 

O filme foi dirigido por Maya Da-Rin. A Febre é uma coprodução entre o Brasil (Tamanduá Vermelho e Enquadramento Produções), França (Still Moving) e Alemanha (Komplizen Film). É falado em português e nas línguas indígenas tukano e tikuna. Os atores indígenas que atuaram no filme pertencem aos povos Dessana, Tukano e Tariana. 

O filme já recebeu diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais, incluindo melhor filme nos eventos: Festival de Biarritz (França), Festival Internacional de Cinema de Pingyao (China), Festival Janela Internacional do Recife (Brasil), Festival de Brasília (Brasil), Punta del Este International Film Festival (Uruguai), FemCine (Chile), IndieLisboa (Portugal),  Festival Internacional de Lima (Portugal) e Primavera do Cine, Vigo (Espanha).

Deixamos abaixo o Trailer do filme:

 

Como já foi apresentado anteriormente, para produzir este texto contamos com a participação do ator Regis Myrupu e da atriz Rosa Peixoto. A roda de conversa foi muito rica para nos aproximarmos da experiência e estabelecermos trocas entre eles e os estudantes, que ficaram muito provocados e mobilizados com a discussão. 

Para ilustrar a potência dessa experiência, destacamos alguns relatos produzidos a partir da experiência com as rodas de conversa:

Alguns relatos dos atores indígenas sobre o filme A FEBRE

Regis Myrupu

[…] “Então, quando você sai (da aldeia/comunidade), você tem todas essas esperanças, esse otimismo, uma facilidade de conquistar aquilo que você deseja ou gostaria muito”. […]

“Na realidade, aldeia indígena, interior da cidade e dentro da cidade, tem as suas diferenças de realidades né!. Então, quando você se aproxima perto da cidade ou você está inserido dentro da cidade, você pertence já naquele sistema, entendeu? E lá, onde você vai mergulhar e pode acontecer coisas positivas e pode acontecer coisas pesadas (negativas) né?! Então foi isso que aconteceu no filme, com o Justino (personagem)”.

 

Rosa Peixoto

[…] “Eu me identifiquei no papel da Vanessa, (personagem) porque assim como eu, assim como você, são vários indígenas que estão em busca dos seus sonhos, em busca dos seus objetivos, de estar ali buscando uma profissão, então eu acho muito tocante você está representando não só a Vanessa, mas todos indígenas que estão nesse meio.’’ 

“Abraçar esse papel da Vanessa, que foi até uma responsabilidade muito grande para mim, porque eu estava não só representando uma mulher indígena, mas também minha família e a minha etnia.’’ 

“Como a gente estava nesse ramo há muito tempo, e provavelmente ninguém chamava um indígena para ser protagonista […]. Então eu acreditava que seria da mesma forma que sempre foi, colocar uma pessoa branca, ou um mestiço ali no lugar de personagens indígenas. […]. Então eu não quis fazer o teste por que não acreditava que poderia acontecer realmente.’’ 

“ A gente acreditava que o filme não traria tanto impacto, tanto nacional como internacional né!? e com todos esses prêmios…. Eu não esperava que o  filme fosse tão aplaudido assim!”

 

Alguns relatos dos estudantes indígenas sobre o filme A FEBRE

Gabriele Helena de Oliveira, Pankararu, Graduanda em Gerontologia – UFSCar

As conversas sobre o filme proporcionaram aos estudantes a oportunidade de compartilhar suas trajetórias e sonhos. Apresentaremos a seguir alguns relatos de estudantes que participaram das rodas de conversa. 

O filme A Febre traz uma crítica importantíssima sobre a vivência do indígena na cidade grande e a sua ligação espiritual com a aldeia. Com isso, pode ser notado os seus desafios enfrentados diariamente como: adaptação, estereótipos, identidade, sobrevivência, contato direto com a natureza e a perda de certos costumes que eram de atividades diárias do indígena. 

Ele traz uma reflexão em cima dos ensinamentos e costumes que o indígena vive dentro e fora da comunidade, mas também, um questionamento sobre como é possível manter essa ligação com a comunidade e o lado espiritual.  Ele mesmo nos trás uma resposta. 

O contato com a comunidade, vem nas histórias que são passadas de geração a geração, vem nas lembranças e na saudade de voltar para casa. 

A saudade de casa e das práticas culturais, entristeceram e o levaram adoecer, pois o seu desequilíbrio espiritual era algo que não poderia ser falado e nem entendido, não ali, não na cidade, mas apenas em sua comunidade. 

Nós indígenas temos uma ligação muito forte, entre o nosso espírito e o nosso corpo. No filme, ele deixa claro quando o protagonista sonha e sabe o significado do seu sonho, quando a mata chama por ele, e mais ainda, quando ele sabe que a febre que ele tem trás com ela um significado, o qual a medicina ocidental não poderia resolver.

 

Guanilce Falcão Soares, Tariana, Graduanda em Educação Física – UFSCar

O filme foi um mergulho sensacional a um cenário profundo, que reflete a nossa vida cotidiana, no contexto urbano. A realidade peculiar de ser indígena, como Povos Originários, raízes que estão entrelaçadas aos mistérios da natureza, a sensibilidade espiritual nos conhecimentos milenares dos povos indígenas, que vão além do mundo natural, a ciência indígena. Esse mergulho vem nos levando a uma viagem em tempo real, aos inúmeros desafios presentes diante de cada circunstância que passamos e, por outro lado, assim como a Vanessa, estamos seguindo em frente. As conquistas que temos traçado, olhando para o futuro, futuro esse que não é só nosso e mais, para que possamos permanecer como uma chuva que rega a terra por tantas sementes que estão ressequidas, mas que possuem na sua essência o resplendor que deslumbra o verde da vida.

 

Vanessa Carneiro Borges, Tukano, Graduanda em Terapia Ocupacional – UFSCar

O Filme traz vários questionamentos sobre a vida que estão levando na cidade, o distanciamento das tradições e costumes por morar na cidade grande. Outro ponto que vi foi em relação à tentativa de resistir em ingerir medicamentos dos “brancos”. 

Essa rotina faz com que Justino se questione sobre a sua vida e a da Vanessa naquele momento, fazendo com que ele se adoeça. Além disso, a notícia e a decisão da Vanessa de ir cursar medicina em Brasília causa em Justino orgulho e tristeza, ao mesmo tempo por saber que sua filha irá ficar um bom tempo longe da sua família e preocupação de como ela irá se manter lá. Ainda assim, ele a apoia.

Eu achei muito importante eles se comunicarem na língua indígena, pois é um filme que conta história de uma família indígena, com atores indígenas. Acaba valorizando a cultura e a língua própria. 

Outra questão é em relação a cosmologia, onde Justino conta sobre os seres (bichos da floresta, que chamamos de encantados) de outras dimensões e como os sonhos são importantes, têm significados e não são ignorados.

 

Vanusa Vieira Gomes, Tupinikim, Graduanda em Educação Física – UFSCar  

Esse filme é resultado de anos de lutas. É lindo ver indígenas como protagonistas. Ao assistir o filme consegui me identificar com as personagens.

Hoje somos universitários e tivemos que sair das nossas aldeias para estudar. Sabemos muito bem como está sendo difícil a vida na cidade, pois temos que ficar distante da família, do nosso povo, da nossa comunidade. Sendo assim, quantos são os Justinos que ficam tristes com a partida dos seus filhos. Quantas são as Vanessas que ultrapassam todos obstáculos em busca dos seus sonhos.

É preciso ter coragem para sair da Aldeia. Ficar longe da nossa comunidade nos enfraquece espiritualmente, pois são nossos cantos, nossas danças, o nosso coletivo que nos fortalece para continuarmos lutando.

Mesmo com todas as dificuldades, vale ressaltar que, é em busca da desconstrução de estereótipos que continuaremos resistindo. Seja na aldeia ou na cidade, sempre reafirmamos nossa identidade. 

 

Ivanildo da Silva Ferreira, Baniwa, Graduando em Fisioterapia – UFSCar

O filme poderia se tornar um seriado de TV, devido ao impacto que atingiu nacionalmente e internacionalmente, pois a obra trata de vários assuntos como a realidade do indígena que sai de sua comunidade/aldeia e passa a viver no contexto urbano em busca de melhoria de vida (profissionalmente e socioeconomicamente). Relata também a dificuldade dos indígenas de encontrar cura para as suas enfermidades dentro da medicina ocidental (descrença do paciente) e a importância da medicina indígena (a reza e o benzimento dos pajés, xamãs) na vida dos indígenas, pois as enfermidades que se manifestam no corpo físico vêm do corpo espiritual. Os pajés procuram tratar o parente na raiz, na origem das doenças e não somente nos efeitos físicos, remediando as causas, como é tratado na medicina ocidental.

 

Ana Paula Alves, Wassu Cocal, Graduanda em Fisioterapia – UFSCar

É muito fácil se identificar com a história e a jornada dos personagens retratados no filme, que reúne diversos cenários dos nossos enfrentamentos e todos os processos que nós passamos para nos inserirmos no meio urbano (e na sociedade), a luta para preservar a língua, os costumes, o modo de pensar e agir natural do indígena. O filme trouxe impacto por dar destaque, visibilidade e protagonismo a nós povos indígenas, além de ajudar aqueles que não são indígenas a compreender, e, principalmente, respeitar como lidamos com saúde/doença, estando diretamente ligada a nossa espiritualidade, alimentação e costumes. Assim como a Rosa e o Régis estão levando esta mensagem a respeito da cultura indígena e sua importância, todos os estudantes indígenas que estão nas universidades hoje também levam. Temos muito em comum!

 

Como podemos observar acima, nas falas dos atores e dos estudantes, o filme A febre conta uma história, representando o dia a dia de milhares de indígenas, que hoje se encontram longe de sua aldeia, do seu povo. E ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre esse modo de vida, relação com a natureza, essa visão de mundo. Ser indígena na aldeia não é fácil, na cidade é pior ainda, mas continuaremos resistindo e ocupando nossos espaços, seja no teatro, televisão, cinema, ciência, pesquisa, cargos públicos, como: professores, psicólogos, médicos, advogados, estilistas, artesãos, empreendedores, entre outros. 

Estamos em todos lugares, sem perder nossa essência e sempre reafirmando nossa identidade!

 

Autoria de:
Ana Paula Alves
Gabriele Helena de Oliveira
Guanilce Falcão Soares
Ivanildo da Silva Ferreira
Vanessa Carneiro Borges
Vanusa Vieira Gomes

Revisão por:
Larissa Campagna Martini

Créditos da imagem: Vitrine Filmes

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