O objetivo central deste texto é apresentar algumas produções realizadas pelos usuários do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS 2), do município de São Carlos. Dentre tais produções, destaca-se o livro “Recanto do Paraíso”, escrito por Neide Aparecida Christianini. Não conheço Neide pessoalmente, tampouco conhecia sua história. Me encontrei com Neide através das páginas do seu livro e dos seus relatos, que me despertaram emoções e sentimentos diversos. Angústia, tristeza, esperança, alegria e, por fim, gratidão por Neide e por tantas vidas que pulsam, vibram e reafirmam a importância incalculável do movimento de Reforma Psiquiátrica e Luta Antimanicomial.

Neide, mulher “porreta”, tem duas filhas, três netos, irmãs, sobrinhos, amigos. Ao longo da vida ela também ganhou um CID: um número que a identifica enquanto pessoa que possui uma doença, um transtorno. No caso de Neide, Transtorno Afetivo Bipolar.

O fato de estarmos aqui hoje lendo os relatos de Neide sobre sua vida, seu transtorno, os diversos tipos de tratamento pelos quais ela passou e também os aspectos cotidianos de sua vida atual, só é possível pois o tratamento oferecido no Brasil para pessoas com transtornos mentais passou por uma gigantesca mudança.

Até meados da década de 1970 a única possibilidade de tratamento para essas pessoas era a internação. Crianças, adolescentes, adultos e idosos – muitos, inclusive, sem realmente apresentar transtornos mentais – eram internados em grandes hospitais, popularmente conhecidos como Manicômios, e lá passavam toda a vida entre tratamentos alienantes e completa violação de direitos humanos.

Os “loucos” – pessoas que tinham sofrimentos psíquicos – eram distanciados de toda e qualquer possibilidade de serem sujeitos, cidadãos. Não lhes era dada nenhuma opção: não podiam escolher que roupa iriam vestir (muitas vezes andavam nus), não escolhiam o que comer ou a hora de fazer suas refeições, não escolhiam que atividade gostariam de realizar no dia, não podiam sair do hospital, pegar ônibus ou circular pela cidade. Tampouco tinham voz. Eram silenciados em todos os aspectos e, quando se punham a gritar para serem ouvidos, logo eram medicalizados para não gerarem problemas.

Se vocês querem saber mais sobre esse período no Brasil e essas formas de tratamento, sugerimos o livro “Holocausto Brasileiro” de Daniela Arbex, que conta a história do maior hospital psiquiátrico brasileiro onde 60 mil pessoas com transtornos mentais perderam suas vidas.

E se vocês querem entender um pouco mais sobre as atuais possibilidades de tratamento e inclusão social para pessoas com transtornos mentais, sugerimos fortemente que leiam o livro da Neide Aparecida.

A partir dos relatos cotidianos de Neide pode-se perceber, gradativamente, as mudança nas formas de tratamento que ela recebeu, bem como as possibilidades de produção de vida e subjetividade que o cuidado em liberdade possibilitou à ela.

A essa mudança de paradigma dá-se o nome de Reforma Psiquiátrica, um conjunto de ações coletivas e intersetoriais que visava reformular o modelo de atenção em saúde mental, buscando um novo lugar social para as pessoas acometidas por transtornos psíquicos. Importa dizer, ainda, que cabe à Reforma Psiquiátrica não apenas negar o manicômio, mas também produzir espaços de encontro para problematização do cotidiano e para afirmação da vida.

Assim, substituindo paradigmaticamente os hospitais psiquiátricos, temos atualmente a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) enquanto novo lugar de cuidado e defesa dos direitos das pessoas com transtornos mentais. Como o próprio nome diz, a RAPS configura-se como uma rede de serviços que, trabalhando de forma interrelacional, busca efetivar o cuidado de maneira a garantir o acesso à cidadania e à livre circulação, bem como compreendê-las enquanto sujeitos de direitos.

Por fim, cabe enfatizar que o cuidado que visa a inclusão e o acesso à cidadania não pode e não deve ser restrito aos serviços de saúde. É preciso ampliar essa rede abarcando outros setores: educação, cultura, lazer, trabalho e renda, entendendo que o acesso a direitos também é uma prática Antimanicomial. Desta forma, ao lermos o relato de Neide em que ela conta que foi ao centro da cidade utilizando transporte público gratuito, almoçou em um restaurante com preço acessível e conseguiu comprar sua casa com parcelas acessíveis, vemos como todas essas políticas públicas proporcionam livre circulação, contato com outras pessoas e condições básicas de vida, assim como possibilitam espaços de troca, não apenas trocas capitalistas (entendendo que agora Neide também está inclusa nesse sistema), mas trocas de afetos e trocas sociais.

 

Texto escrito por Mariane Cristina Lourenço, mestra em Terapia Ocupacional (UFSCar), especialista em Saúde Mental (UNICAMP), militante do SUS e da Reforma Psiquiátrica.

 

Leia aqui o livro “Recanto do Paraíso” de Neide Christianini.

Veja aqui a homenagem feita aos artistas do CAPS II.

Créditos da imagem: Festival CultvAR-TE

 

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