Autoria: Malvina de Castro Rosa

Descrição da obra: A crônica retrata como uma família se adapta ao isolamento social, como constrói suas rotinas e mantém seus momentos individuais quando se tem um convívio tão intenso com os outros moradores.

Expressão: Literatura

 

Há uns 6 anos atrás eu e meu marido, com a ajuda da minha mãe, compramos uma casa. Bem, na verdade, compramos uma piscina, casualmente em volta tinha uma casa velha, caindo aos pedaços. Habitável, mas que, sem dúvida, alguma precisava de reforma. Quando convidamos os amigos para virem aqui, nunca é com o pretexto de ver como a nossa casa é linda, sempre convidamos pelo prazer companhia, pelas risadas, pela boa comida, boa bebida, no verão pela piscina e no inverno pela lareira velha.
Passados esses 6 anos, tivemos alguns progressos. Construímos para minha mãe uma casa pequena e linda no fundo do pátio. Na nossa casa ainda não conseguimos fazer nada de muito significativo além de demarcar os locais exatos na sala que precisam de balde quando chove para que a goteira caia dentro dele e não molhe todo o chão. Entre as coisas almejadas na sonhada reforma está tornar a sala e a cozinha um espaço integrado, moderno. Onde quem tá na cozinha consiga participar do que ocorre na sala.
Enquanto sonhávamos com a reforma e fazíamos contas para viabilizar, veio a pandemia e com ela uma mudança completa no uso e movimento da casa. Somos uma família que realmente aderiu ao isolamento social. Há mais de 100 dias vivemos todos nessa casa velha sem sair. Eu e meu marido conseguimos trabalhar de casa, as nossas duas filhas estão sem aulas desde março. As compras fazemos a imensa maioria pela internet, as saídas são realmente raras e só em caso de extrema necessidade. Nossas gatas, inclusive, hoje nos odeiam, não conseguem compreender essa nossa invasão no espaço delas.
Ficar assim, todo mundo junto pode ser bastante estressante. Talvez, por isso, para o bom convívio, cada um de nós descobriu um refúgio. Meu marido se esconde no escritório ou no banheiro e lá fica por um bom tempo. Nossa filha mais velha se refugia na sua cama que é um beliche e ninguém chega lá em cima. A mais moça, às vezes, encontramos toda fechada dentro da casinha de boneca.
“Condida” como ela diz.
E eu? Bom, eu estou felizona que não fizemos a reforma e não temos uma cozinha integrada com a sala. Eu adoro ficar “Condida” na cozinha. A nossa cozinha é comprida e estreita, tem um azulejo verde limão horroroso, mas é o meu refúgio. Logo no início do isolamento social percebi que todo mundo queria comer ou beber alguma coisa e cabia a mim fazer os mil lanches para as crianças, o almoço e o jantar de todo mundo. No início, eu achava meio chato, mas comecei a me dar conta que quando eu aviso que vou fazer o lanche, o almoço ou o jantar ninguém me vê dentro da cozinha e consequentemente ninguém me chama, todo mundo só quer comer. Eu vou pra cozinha e nem ouço.
“Mãe, mamãe, amooorrrr”. Claro que eu não passo o tempo todo fazendo comida, na maioria das vezes já está até pronto, ou é algo fácil de fazer. Mas enquanto o micro-ondas esquenta a comida ou a air fryer frita o que quer que seja eu tô lá quietinha ouvindo minha música, tomando meu vinho, falando com as amigas no whats e todo o resto da casa acha que eu estou concentrada trabalhando pela sobrevivência familiar. Às vezes meu marido se oferece para fazer o almoço ou o jantar, eu logo salto e digo “Não, deixa pra mim! Fica com a louça!”. Hoje mesmo avisei que ia fazer o almoço e fui pra cozinha, botei a comida congelada no micro-ondas e lá fiquei dançando, ouvindo Alceu Valença, tomando um vinho e mandando selfie para as amigas com a legenda “Eles pensam que eu tô cozinhando :):):)”.
Adoraria reformar a casa, mas dada a conjuntura atual transformei a minha cozinha feia verde limão em uma limonada e anotei mentalmente que quando finalmente fizermos a reforma preciso de um novo esconderijo.

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