A manutenção da força de trabalho nos serviços de saúde é reconhecida, em todo o mundo, como uma das grandes prioridades no enfrentamento da pandemia de Covid-19. No entanto, um conjunto de fatores pode contribuir para a contaminação e infecção de profissionais de saúde pelo novo coronavírus. Tais fatores estão relacionados com medidas coletivas e administrativas, individuais e de organização do trabalho, como se descreve a seguir.

Medidas coletivas e administrativas

Para a segurança de trabalhadores da área da Saúde, medidas coletivas e administrativas são primordiais para evitar a contaminação nos diversos serviços de saúde:

  • garantia de ventilação adequada, com direcionamento do fluxo de ar e sua respectiva filtragem;
  • frequência na realização de procedimentos de limpeza e de desinfecção, com eficácia e de acordo com as normas de biossegurança;
  • prática do distanciamento de um metro entre paciente e profissional de saúde quando não há necessidade de efetuar procedimentos;
  • instalação de barreiras físicas para separação de ambientes contaminados e medidas administrativas para separação de pacientes contaminados;
  • limitação do número de profissionais em áreas de convivência;
  • fornecimento de insumos de higiene;
  • proibição de aglomerações de acompanhantes e pacientes;
  • identificação e sinalização de áreas em que ocorrem procedimentos geradores de aerossóis.

O uso de recursos terapêuticos respiratórios – como a ventilação mecânica não invasiva (VNI), o uso de cânula nasal de alto fluxo (CNAF) – e a realização de outros procedimentos – como procedimentos de intubação traqueal e traqueostomia, que geram aerossóis – apresentam risco três vezes maior de contaminação de profissionais de saúde. Nestes casos, medidas adicionais (como a manutenção de pacientes em quartos isolados e com pressão negativa) também devem ser observadas.

Nas situações em que o vírus é aerolissado, ele fica suspenso no ar por algum tempo, e isso faz com que os profissionais, mesmo que estejam utilizando os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) recomendados (por exemplo, máscaras N95 ou PFF2, luvas, avental, gorro e óculos), possam ter o vírus em regiões expostas do rosto e do corpo, como testa e pescoço, além de carregá-lo em objetos (caneta, celular, prontuário, estetoscópio etc.) e mobiliários.

Para reduzir essa forma de contaminação é necessário estar atento o tempo todo à limpeza rigorosa de superfícies e equipamentos, além de trocar luvas, higienizar as mãos e, ao finalizar a jornada, remover roupas do trabalho em local específico e adequado para esta finalidade.

Medidas individuais de proteção

Conhecimento sobre Equipamentos de Proteção Individual (EPIs)

Quando falamos de ações individuais, a escolha dos EPIs deve considerar o tipo de procedimento a ser realizado pelo profissional de saúde e a eficácia do EPI para protegê-lo em situações específicas.

Normalmente, o novo coronavírus, assim como outros vírus similares, é transmitido por gotículas durante a tosse, espirro ou durante a fala. Assim, máscara cirúrgica, luvas, óculos de proteção e avental permitem uma proteção suficiente para a maioria dos profissionais.

Já em ambientes em que o vírus é submetido a altas pressões de ar (como durante a realização de ventilação mecânica e de procedimentos em vias aéreas), as gotículas diminuem de tamanho e são gerados aerossóis; nisso, o vírus pode penetrar os orifícios das máscaras cirúrgicas. O recurso de proteção perde, assim, a sua eficiência.

Para trabalhar nessas situações são necessários outros EPIs. Além do uso de luvas, óculos e avental, indica-se o uso de máscaras N95 ou PFF2, além de gorro e protetor facial (face shield). Apesar das evidências sugerirem que, quanto mais partes do corpo cobertas, menor será o risco de contaminação, há os contrapontos da dificuldade no ato da retirada dos EPIs sem contaminação e do aumento do desconforto do profissional ao longo de sua jornada de trabalho.

Além da escolha adequada dos EPIs tendo em vista cada situação, o uso inadequado e de forma não segura de cada EPI também pode ser causa de contaminação dos profissionais. Diante disto, o treinamento técnico sobre a forma correta de se vestir e se despir os EPIs é tão fundamental quanto seu uso. Nessa hora, a contaminação pode ocorrer e invalidar todo o uso dos recursos.

Para disponibilizar informações sobre estas técnicas, o Conselho Federal de Enfermagem publicou um guia ilustrado indicando a ordem correta de paramentação e informando as orientações para se colocar e se retirar EPIs de modo a evitar contaminação.

Falta de EPIs aos profissionais

A dificuldade para garantia de acesso aos EPIs tem sido reportada no Brasil e em diversos países tendo em vista o cenário de crise causado pela pandemia de Covid-19. No entanto, é fundamental que haja, nos serviços de saúde, quantidade suficiente de EPIs para evitar a proliferação do coronavírus entre os profissionais da área.

No Brasil, a falta de EPIs foi comprovada em diversos serviços e tornou-se alvo de atenção dos diversos conselhos de representação de profissionais de Saúde – já se manifestaram, por exemplo, o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito) –, mostrando que este é um desafio a ser superado no que tange ao controle da contaminação de profissionais de saúde.

Apesar das dificuldades para a aquisição de EPIs pelos diversos serviços do país, o reconhecimento da obrigatoriedade de seu fornecimento por parte do gestor/empregador, bem como a vigília por parte dos diversos órgãos para apoiar profissionais ou para receber denúncias sobre o descumprimento de normas – por exemplo, sindicatos, Conselhos de Saúde, Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPAs), Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT), conselhos de representação profissional, Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CERESTs) e Subsecretarias de Inspeção do Trabalho, por meio das Gerências Regionais em cada estado – são entidades essenciais neste momento.

A organização do trabalho e a duração das jornadas

Longas jornadas com poucas pausas aumentam os níveis de estresse e podem ampliar o risco da contaminação devido à diminuição da concentração e da atenção, além de tornar mais suscetível a ocorrência de erros.

Assim, situações adversas enfrentadas pelos profissionais de saúde durante a pandemia (por exemplo, a da própria tensão constante por se tratar de uma doença sem precedentes, a da necessidade de tomadas de decisão rápidas) e sentimentos de culpa e de dor pela perda de pacientes e de colegas de trabalho são fatores que influenciam condutas e comportamentos seguros.

O estresse devido ao excesso de trabalho também foi reportado na Inglaterra devido ao aumento da taxa de pacientes por profissionais durante a pandemia. Neste contexto, a Medida Provisória (MP) n° 927, publicada em 22 de março de 2020 e que permite prorrogar jornadas de trabalho “12/36” (doze horas de trabalho por trinta e seis horas de descanso) deve ser analisada também em relação à possibilidade de aumento dos riscos de contaminação e de diminuição da força segura de trabalho.

Outro fator é o da falta de testes para identificar profissionais de saúde infectados. A ausência de testes em massa não permite a identificação precoce de profissionais infectados e seu isolamento adequado. Esta situação favorece a transmissão viral nos serviços de saúde, uma vez que trabalhadores infectados compartilham de locais em que EPIs não são necessariamente utilizados, além de habitarem espaços de convivência e alimentação.

Portanto, a complexidade envolvida na contaminação dos profissionais requer medidas para além das abordadas apenas no uso de proteção individual, com mobilização de instâncias governamentais para organização do sistema de saúde, de órgãos de fiscalização do trabalho e de diversos conselhos e serviços que apoiem estes trabalhadores para o enfrentamento dos riscos no trabalho.

Nota: de acordo com a Norma Regulamentadora nº 6, publicada em portaria de 8 de junho de 1978, EPI é todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho e que deve apresentar Certificado de Aprovação (CA) expedido pelo órgão nacional competente.

Referências

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Autoria de
Rafaela Veiga Oliveira
Juliano Ferreira Arcuri
Cristiane S. Moriguchi de Castro

Revisão de Conteúdo por
Cristiane S. Moriguchi de Castro
Débora Couto Carrijo
Eduardo Pinto e Silva
Juliana Morais Menegussi
Juliano Ferreira Arcuri
Mariana de Almeida Fagá
Vera Regina Lorenz
Vivian Aline Mininel

Créditos da imagem: 8photo no Freepik

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