Autoria: Alex Rosa

Descrição da obra: Ela fala sobre a questão psicológica de alguém que vive se relacionando e de repente é obrigado a ficar sozinho, e isso faz com que a pessoa mude seus hábitos ou não.

Expressão: Literatura

 

Solidão

Moro sozinho. Fui abandonado pela minha esposa e não tenho filhos. Não tenho
ânimo para familiares ou amigos. Com a vida que levo, também não me é permitido
animais. Pela primeira vez, durante esta pandemia, senti falta dessas trivialidades.
Quando a quarentena começou, fiquei perdido. Desnorteado. A minha vida era
trabalho. Vivia, respirava e dormia no trabalho. Tinha prazer nisso. Queria mais e mais.
Queria chegar ao topo. Então veio a pandemia. Sem aviso, sem piedade. Como o meu
trabalho dependia de viagens e contatos, fui obrigado a ficar em casa. De forma abrupta.
Proibiram-me – com motivos – de fazer a única coisa a qual amava e,
consequentemente, a única que me satisfazia, ainda aquela que me havia tirado da
solidão.
Sem o trabalho, fiquei à deriva em um pequeno rio dentro da minha casa, mas
imensamente angustiante. A minha vida retrocedia a um aborrecimento conhecido:
melancolia, tédio, pensamentos inoportunos e decisões erradas. Ninguém vive de
marasmo. Pensei que fosse enlouquecer.
Todos sonham com um tempo de lazer, de ociosidade. Embora ninguém quisesse
esse isolamento imposto, aproveitam as suas famílias, os seus lares, colocam a leitura
em dia, os filmes, os estudos, planos… mesmo sofrendo ou assustados, encontraram
meios de se distraírem com coisas simples. Banais. Meras insignificâncias com as
quais me recuso a desfrutar. Outros, mesmo que não infectados, sofrem em demasia.
Desesperam-se. O ser humano é um bicho estranho.
As coisas estavam indo de mal a pior. Lá fora: mortes, desespero, saúde
entrando em colapso, economia indo ladeira a baixo. Calamidade pública. Assustador.
Aqui dentro: as coisas também não estavam nada boas, além da incerteza do futuro, o

medo e a insegurança, ainda tinha o efeito do confinamento que, para pessoas assim
como eu, que sofrem de ansiedade, tem um efeito catastrófico. Não fico chorando ou
com pavor da morte, apenas não me alimento direito – já emagreci quase dez quilos –,
não durmo, fico agoniado, e os meus pensamentos travam uma batalha particular para
me destruir, torturando-me como se fossemos inimigos, dia e noite.
O silêncio grita cada vez mais alto, enchendo o vazio de barulhos
ensurdecedores.
Enquanto quarentena se prorrogava, a minha paciência diminuía.
Não me encanto facilmente, ainda mais com o nível de besteira que ronda o
entretenimento. Um apanhado de coisas descartáveis. Fúteis. Não gosto de televisão, de
internet, de ler, de nada que me faça ficar parado por muito tempo. Estava cada vez pior
o isolamento. Do quarto para sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto, e,
novamente, do quarto para a sala. Que desespero. As horas não passavam. O dia era
longo; a noite, pior.
O isolamento, sem data para terminar, insistia em restringir-me de trabalhar,
confinando até mesmo o meu espírito. Restringia o meu corpo, a minha alma, o meu
sorriso. Em poucos dias eu definhava, física e psicologicamente, depois de sessenta dias
já temia a morte. A mente é nossa pior inimiga quando não a usamos de maneira certa.
Eu, que me achava tão centrado e forte perdia-me entre as armadilhas insolentes
que atormentam os fracos. Isso aumentava o meu desespero. Sentia-me atacado por
todos os lados, acuado. Que ódio!
Precisava dar um jeito na minha situação. O rádio – meu único companheiro –
aumentava a minha agonia, mas era preciso saber o que estava acontecendo: brigas
políticas, número de mortes e contaminados aumentando catastroficamente, ninguém

sabendo muito bem como lidar com a situação. Especialistas, médicos, economistas
todos dando as suas opiniões, se confrontando, se anulando. Um caos.
Não iria suportar por muito mais tempo. Precisava de uma cura, uma nova
percepção. Só não poderia continuar daquele jeito. Escravizado às notícias, aos
sintomas, às paranoias. Teria que, mais uma vez, encontrar uma saída.
Como o meu trabalho não tinha data para voltar, e, mesmo que me importasse e
sofresse por tudo o que estava a acontecer no mundo, não podia fazer nada para ajudar
naquele momento, apenas cumprir com a minha parte ficando em casa. Evitando me
contaminar ou infectar os outros. Algo que nem todos faziam. Se por um lado havia
quem se desesperasse, por outro, havia quem achava que tudo era um exagero, e,
mesmo que não tivesse um trabalho essencial, julgava-se no direito de sair, prorrogando
assim o confinamento. Entretanto, antes de tudo, precisava encontrar uma cura, antes
que morresse sufocado pelas minhas próprias contaminações.
Dentro de casa, nada me estimulava. Procurei um alento fora. O meu quintal era
escasso: um pé de mexerica, algumas árvores nativas. Tinha verde, mas não alegrava.
Era seco, sem vida. Mesmo morando em um lugar mais afastado do centro urbano, em
nada parecia com uma casa do campo. Tinha a mesma morbidez que alcança os prédios
e condomínios. Deprimente.
Na parte da frente, um gramado, que disfarçava o desnível do jardim, atingia um
tamanho incomum. Se antes era bem aparado por Roberto, o homem que eu pagava para
manter limpo o terreno, mas que nem conhecia o seu rosto, tratava com ele apenas por
telefone, agora crescia igual à epidemia. Equivalente aos terrores na minha mente.
Precisava aparar a grama, aparar as arestas de todo esse excesso.
Olhei para o quintal, analisei-o por um tempo, refletindo sobre tudo o que estava
acontecendo, sobre como a nossa vida é imprevisível, sobre o futuro, sonhando com a

descoberta de uma vacina, sobre como eu estava a ser arrastado por esse turbilhão de
acontecimentos…
Vendo o quintal daquele jeito, cheguei à conclusão que teria que dar um jeito eu
mesmo. Em tempos de pandemia, julguei que o trabalho de Roberto não fosse essencial.
Apenas cumpria com o pagamento, o qual combinamos – não por caridade ou altruísmo,
apenas por achar justo. “Temos que cumprir com as nossas obrigações”, dizia o meu
pai. Ele era um homem sábio. Decerto, teria muito a me ensinar nesses tempos.
Principalmente no meu processo de separação. Nunca dei a atenção que ele merecia,
mas o respeitava.
Como se procurasse pelo meu próprio antídoto, que me fizesse desviar o foco de
todos esses pensamentos e prevenir doenças futuras, com todos os cuidados necessários,
fui até uma casa agropecuária. Voltei com alguns equipamentos, algumas sementes de
hortaliças e cheio de ideias. Nunca tinha cortado grama, nem plantado nada em toda a
minha vida. Tampouco já me deixei vencer por um novo desafio. Julguei que poderia
aprender.
No primeiro dia aparei a grama. Demorei mais tempo que julguei necessário, a
considerar o espaço do gramado. Cortei, rastelei e fiz um monte no fundo do quintal.
Não ficou perfeita como quando feito por Roberto, mas também não ficou de todo ruim.
Dava para gasto. Estava feito. Se tivesse tempo, nem o pagaria mais, como a minha vida
é muito corrida, tenho que delegar alguns serviços. Com o tempo as prioridades mudam,
aparecem negócios mais importantes.
No segundo dia fiz um pequeno canteiro, plantei algumas verduras. O trabalho, a
terra dura e a minha falta de jeito renderam-me alguns calos nas mãos e uma camisa
encharcada de suor. Considerei que talvez não fossem tão caras as verduras e legumes
que compramos nos supermercados, e que eu sempre pagava reclamando. Se tem uma

coisa que nos falta: é a empatia de nos colocarmos no lugar dos outros. Somente o
fazemos quando somos obrigados. Contudo, valeu a pena. Ver o canteiro pronto me deu
certo orgulho e satisfação. Menos que os meus trabalhos oficiais, porém, bem mais que
lavar a louça ou o banheiro. Estava, até certo ponto, realizado.
Do terceiro ao quarto dia construí, com pedaços de madeiras que estavam perto
do muro que limitava o meu quintal, uma casinha para os pássaros. Esta tarefa foi a que
me deu mais trabalho e, também, maior orgulho. Beirava à soberba minha alegria. Pois
ficou melhor do que eu poderia imaginar ser capaz. Vaidade. Honra do dever cumprido.
Olhei-a por um bom tempo após ter terminado o serviço, continha um sorriso no meu
rosto, um alívio no peito e uma necessidade imensa de mostrar ou dividir aquele
momento com alguém. Não havia ninguém. O dia estava no seu crepúsculo, dei uma
última olhada para a silhueta da casinha. Escureceu. Sorri e entrei para preparar o meu
jantar.
Neste mesmo dia, antes de dormir, percebi que, mesmo achando, de certa forma,
que era trivial o que estava fazendo, não tive ansiedade, angústia ou pensamentos ruins.
Pelo contrário, senti fome, sono e certa satisfação. Estes dias foram mesmo diferentes.
Renata, minha ex-mulher, nem iria acreditar se eu lhe contasse ou iria ficar admirada se
ela ainda estivesse aqui. Fui-me deitar, resolvi continuar no outro dia. Dormi. Dormi a
noite toda, acho até que me levantei mais tarde que o normal no outro dia.
Tomei o meu café e, mais disposto e entusiasmado, corri para o quintal ver como
estavam os novos “empreendimentos”.
Analisando um pouco melhor o ambiente, notei que tinha algumas flores
espalhadas. Será que nasceram sozinhas? Será que Roberto as plantou? Se não, por que
não as arrancou? Como ainda estavam tão vívidas? Enfim, resolvi deixá-las lá. Em nada
me atrapalharia mesmo. Quem sabe poderia até regá-las. Também havia um pé de limão

esquecido perto do muro. Adoro temperar saladas com esses limões quando estou
viajando e preciso comer em restaurantes. Nunca havia temperado em casa. Fiquei feliz
com a descoberta. As minhas refeições teriam mais temperos agora. Entre novidades e
novas perspectivas, o tédio estava ficando cada vez mais ameno, mais suportável. Ainda
continuava olhando os e-mails e as notícias, ansiando pela volta ao trabalho. Mas, pela
primeira vez, não era nenhum sacrifício ficar em casa.
Agradecia por ter encontrado o que fazer para amenizar os anseios. Todos
precisamos de uma válvula de escape.
Passados alguns dias, o quintal tinha tomado novo formato. As mudinhas de
alface e rúculas já desbravavam, verdes e vistosas, no solo hostil. Como esperança em
tempos difíceis. Há um prazer diferente ao ver crescendo algo que você mesmo plantou,
não nego. Não sou hipócrita o bastante para não enxergar isso. Também crescia algo em
mim, um sentimento diferente. Nunca o havia experimentado. Em outros tempos, tinha
apenas o orgulho ao concretizar novos projetos, solucionar problemas corporativos,
desempenhar trabalhos eficazes. Tudo relacionado a grandes corporações e
empreendimentos, trabalho de intelecto ou estratégia. Somente tinha presenciado o
nascimento de novas concepções, nada orgânico. Sempre à custa de inteligência, nunca
braçal.
Sabia que essa quarentena estava transformando vidas, não sabia que a minha
seria uma delas.
As flores também pareciam ter mais vida, mais cores. Nunca me importei com
flores, vejo nelas apenas um ornamento que poderíamos viver sem. Renata as adorava.
Confesso que, olhando-as com mais zelo, têm seus charmes. Mesmo sem me importar,
estava contente com as suas presenças, com a presença das hortaliças e dos pássaros que
se achegavam para comer alpiste e querela de milho na casinha que construí.

Os pássaros eram os que davam mais vida ao quintal. Os cantos, as cores e os
revezamentos entre eles deixavam tudo mais dinâmico. Confesso que, às vezes, era um
barulho ensurdecedor, mas não me enlouquecia, pelo contrário, tirava a monotonia do
lugar. Estava alegre por eles estarem ali, como se fossem meus, mas nenhum deles me
chamava a atenção. Para mim, eram todos iguais. Faziam parte de um todo até que vi
um que me fez olhar com mais cuidado. Ele parecia um canário, diferente nas cores e no
cantar. Tendo a parte de cima toda esverdeada, a de baixo amarela e as penas do
pescoço de cor laranja. Nunca o tinha visto. Fiquei fascinado.
Ignorei os outros pássaros, e comecei a dar atenção somente a ele. Os meus
olhos atentos sempre o procuravam, comecei a cuidar para que ele fosse bem-vindo.
Deu certo. Dedicação é a chave do sucesso. Óbvio.
Com a oferta fácil e sem risco a sua vida, o pássaro começou a vir todos os dias.
Até se tornar meu amigo. Nunca pensei que fosse dizer isso na minha existência. A vida
sempre surpreende, até os mais céticos.
Os meus dias começaram a ter um novo hábito. Eu saía no quintal porque sabia
que o pássaro estaria lá. Ele vinha, pois, sabia que eu o estava esperando. Julguei estar à
beira da loucura, porque, além de gostar da sua presença, comecei a desabafar com o tal
pássaro:
— A vida é ingrata! A minha esposa me abandonou pouco antes dessa maldita
quarentena – eu confidenciava a ele, enquanto colocava comida no lugar destinado.
“Não importa o que façamos – continuei a divagar – as pessoas não dão valor.
Eu fazia de tudo por ela: dava atenção, amor, presentes, o meu tempo. Quanto tempo
desperdiçado, percebo agora. Estava sempre lá para atender os seus desejos, as suas
manias. Quando o meu trabalho começou a exigir mais de mim, quando tive que me

dedicar de forma mais intensa, ela me abandonou. Simplesmente, foi embora. Jogou
fora todos os anos, e partiu. Sem hesitar. Ingrata!”, enfureci.
“Antes de ir, ainda teve a audácia de me falar que o meu orgulho em ser “durão”
era maior que a paz e a felicidade que me trariam se eu não ostentasse essa fama, se
compartilhasse os meus sentimentos, que o meu estilo de vida era para encobrir os meus
pedidos de socorro. Balela! Histórias de quem não consegue enfrentar os desafios e
coloca a culpa nos outros.
Ela não suportou o casamento e usou de desculpa as minhas atitudes. Ainda
falou que eu morreria sozinho, afogado na minha solidão, mesmo que encontrasse
alguém, não iria desfrutar da sua companhia, igual a ela quando não desfrutou da minha.
Disse que se sentia mais sozinha quando eu estava em casa do que quando estava
viajando. Não a culpo. Ela tem os seus problemas para resolver, pessoas fracas tendem a
ser muito emocionais. Culpa de algum remorso, cujo medo de não agradar, externa as
fragilidades. Não tenho tempo para isso, prefiro sensatez. Racionalidade.”
“Antes de sair, ela ainda ousou pedir desculpas por qualquer coisa, não respondi.
Apenas balancei a cabeça mecanicamente. Que ela seja feliz. No entanto, duvido que
seja mais feliz do que aqui, do que nós dois. Pedi desculpas também, mas não a dei a
chance de responder, e, assim, me despedi. Encerrando a questão. Como se não quisesse
lhe dar a oportunidade de falar tudo que estava entalado em sua garganta. Tudo que nós
dois sabíamos que não levaria a nada, e, principalmente, que eu não queria ouvir. Já era
difícil o fim. Mesmo que não exista mais amor, acabamos por nos acostumarmos com a
pessoa ao nosso lado, com a companhia. Mesmo sem desejo, é bom saber que tem
alguém em casa nos esperando. Não queria que aquele término tomasse outro caminho,
para além do que era seu propósito. Na verdade, sabia que mais cedo ou mais tarde, isso
aconteceria. Sempre acreditei haver diferenças entre nós, enquanto ela me respeitava

mais do que me amava, eu a amava mais do que a respeitava. A vida tem desses
pormenores.”
O pássaro voou.
Era inegável que a minha rotina havia mudado. Se antes eu viajava o mundo
para participar de grandes conferências e reuniões, tratando com pessoas importantes,
agora ficava no meu quintal a ver flores, e conversando com pássaros. Saía somente o
necessário, questões de alimentação – a minha e dos seres que se apropriavam da minha
casa.
Não só a minha rotina tinha mudado, mas a de todos. A simples ida ao mercado
tinha agora todo um procedimento. Máscaras, álcool em gel, filas, distanciamento, todas
as precauções indispensáveis para não contrair o vírus. Pessoas se olhando
desconfiadas, medo do toque. Uma desordem. Nunca fui de jogar conversa fora, abraços
ou gentilezas, quanto a isso, continuava como antes. Irrita-me abraços excessivos. O
resto que era chato, o processo. Trocar de roupas, lavar as mãos toda a hora, essa
bendita máscara que esqueço de colocar e tenho que voltar para buscar em casa quando
vou ao supermercado. Chatices.
Nas poucas vezes que eu saía, não via a hora de voltar para casa, voltar para o meu
quintal. Estranho.
Estando de volta, olhava rapidamente as hortaliças que cresciam, as flores, o ambiente e
voltava as minhas atenções aos pássaros, ao pássaro, Théo. Nesta altura dos
acontecimentos, ele já tinha um nome.
O pássaro observava-me; e eu, a ele. Os outros passarinhos se revezavam, mas aquele
pássaro, não. Todos os dias ele vinha até o quintal, e cantava alegremente. Como se
fosse um ritual, mas não tinha nele, obrigação; senão, prazer por estar ali. Isso era o que
me deixava contente. Se Théo demorasse um pouco para vir, eu ficava meio irritado.

Tenho certo transtorno quando as coisas não saem como planejado, quando fogem do
meu controle. Ainda mais quando não obedecem as minhas vontades. Dizem
que tenho que controlar isso, que me faria mal porque nem tudo está sob o nosso
controle. Concordo. Mas o que posso fazer? Ironicamente, é algo que eu não posso
controlar. Contudo, Théo sempre voltava.
Fatalmente, adquiri um carinho grande por aquele pássaro. Na casinha de madeira,
colocava o papaia cortado em tiras simétricas para alimentá-lo, lugar no qual também
punha, cuidadosamente, o alpiste. Em resposta, ele cantava cada vez com mais júbilo.
Eu gostava da sua presença. Passava boa parte da manhã o esperando, admirando-o.
Théo, além de belo, tinha gentileza nas suas melodias. Cantava e encantava. Tinha em si
um cântico peculiar que me animava, tirava-me da depressão, dos pensamentos
inoportunos. De certa forma, ele acalmava-me. Pensei em prendê-lo, ter aquele cântico
somente para mim, tão logo abandonei a ideia. Não tinha o direito de manter prisioneiro
um ser tão especial. Decidi deixa-lo livre, desde que viesse todos os dias. Orgulhei-me
da minha atitude. Como se fosse uma escolha nobre o que era para ser o princípio do
respeito. Ainda assim, envaideci-me.
Já não éramos estranhos, havia cumplicidade entre nós. A amizade não precisa de
formas iguais, ela transcende as aparências. Era sincera.
Contava a ele coisas sobre o mundo, sobre a sorte que ele tinha por ser pássaro. Podia
viver em liberdade, voa por aí sem destino, ato que a nós, humanos, era proibido no
momento. A minha vida de aeroportos, hotéis cinco estrelas e restaurantes conceituados
estava restrita, presa em uma gaiola monitorada. Quase todos trancados nas suas casas e
vidas mesquinhas. Estabelecimentos vazios, hospitais cheios.
Contava também sobre como um vírus, invisível a olho nu, parou o mundo, instalou o
caos na política, quebrou a economia e fez com que a saúde pública entrasse em

colapso. Como ele dizimou milhares de vidas e como que de uma hora para outra, tudo
pode mudar. Enquanto falava, percebi como somos frágeis. Pateticamente frágeis.
Subestimamos este vírus, arrependemos fortemente. Creio que precisaria mais do que
este vírus para me ceifar a vida, mas não me arrisco sair de casa. Somente os tolos
duvidam dos inimigos.
Lembrei-me da minha ex-mulher. Será que ela estaria bem? Pensei em ligar, tão logo
afastei a ideia. Não daria a ela essa grandeza. Não iria rebaixar-me. Tudo que queria era
dar-me bem na vida, para que ela sentisse remorso em ter-me deixado.
Olho o telefone como quem espera uma ligação, este não toca há dias.
Não falei para o pássaro sobre os trabalhos essenciais, sobre a caridade e o tanto que
talvez esse vírus tenha mudado a humanidade. Dando às pessoas novas perspectivas
sobre o mundo e sobre si mesmas. Não acreditava muito em “recuperação de sujeitos”,
se ele for mau-caráter, continuará a ser. Faz parte da sua natureza, difícil mudar algo
que é intrínseco à alma. Porém, depois de tudo que está a acontecer, fez com que eu
repensasse. Talvez comecem a dar valor a outras coisas, às coisas verdadeiramente
importantes. A impossibilidade de um simples abraço neste Dia das mães deve ter feito
muitos refletirem. Na verdade, acredito que o Dia das mães deste ano foi o mais sincero
dos últimos tempos.
Nunca filosofei muito sobre a vida. Vivi conforme as circunstâncias. Reagindo às ações
necessárias. Se quisesse algo, lutava por aquilo. Se algo me ofendesse, reagia. Se
agradasse, retribuía – pelo menos, por um tempo. Se o acaso trouxesse-me ou levasse

algo que eu não poderia mudar, tentava ignorar. Confesso que isso era o mais difícil.
Talvez seja o motivo de não ter superado o abandono. Ela deixando-me, também tirou-
me o poder de escolha. Foi ela quem escolheu viver sem mim, e isso é difícil aceitar. O
orgulho faz mais estrago que a falta do amor. Quisera eu ter terminado antes… e
voltado quando quisesse.
Do mais, nunca enxerguei o colorido da vida que os felizes dizem existir, nem sucumbi
ao cinza dos carrancudos ou até mesmo à melancolia dos poetas, apenas ao tédio que
faço questão de sanar com a mesma convicção que ele me jogaria no poço se eu não o
derrotasse. Encanto-me apenas com a inocência das crianças. Ali, na infância, tudo era
verdadeiro. Quando a magia se perde, reste-nos apenas trabalhar, dormir e, com sorte,
conquistar alguns objetivos. Não é ruim, mas não se compara às alegrias da meninice.
Para mim, o copo nunca esteve meio cheio nem meio vazio. Enoje-me tanto o otimismo
em demasia quanto a pessoas negativas. Julgo que devemos correr atrás e fazer
acontecer sem se importar com as circunstâncias. Foi assim que consegui quase tudo o
que queria. Foi assim que cheguei até aqui. Não sei se fiz certo ou errado, fiz apenas o
que era preciso fazer. Durmo tranquilo.
A minha ex-mulher acordava todos os dias cantando e dando risada, como se vivesse
em um mar de rosas. Aquilo irritava-me. Quanto mais ela se alegrava, mais eu fechava a
cara. Não tenho culpa. Sou o que sou. Talvez ela não se alegrasse com o meu jeito
também, azar o dela. Azar o meu. Às vezes discutíamos por questões rasas, ela sentia-se
no direito de se intrometer em assuntos que não eram da sua conta, eu sentia-me na
vantagem por ser o provedor. Manda quem pode mais. Essa é a lei. Hoje não discutiria
tanto, as rugas nos tornam mais pensativos, mais sensatos. Conquanto, sempre desperta
de forma atrasada, quando não tem mais volta.

Houve vezes que o pássaro olhava-me desconfiado, parecia julgar-me. Ainda
continuava ali, acredito que compactuava com as minhas palavras, que me entendia.
Talvez fosse estúpido igual a ela ou esperto o bastante para não perder o alimento fácil
de todas as manhãs. Conveniências.
Os dias foram a passar.
Dia após dia até a nova situação também virar rotina. A quarentena a se prorrogar. Mais
mortes. Mais infetados. Promessas de vacina, de cura. Nada. A contaminação ia
progredir país a país. Em pouco tempo todo o mundo sofria as consequências. Desta vez
não teve seleção, não teve cores nem classes sociais. Todo o mundo era igual, algo raro.
A grama já estava grande novamente, tenho que cortá-la de novo, estou a protelar. As
alfaces e as rúculas vão a crescer bem. Logo estarão na mesa. A vida se torna a mesma
depois da mudança: os pássaros cantando, o limão, o canteiro, os pássaros comendo,
voando, pandemia, mortes, economia, grama crescendo, pássaros… Tédio. Inquietações.
O sono já não está tão profundo, acordo de mau-humor. Vou para o quintal, volto para
dentro de casa, olho os correios eletrônicos, as notícias…
Infelizmente – como tudo na minha vida –, enjoei-me. Precisava de novas aspirações.
Voltar a trabalhar, à ativa. As neuroses sempre voltam. Já haviam-me alertado sobre
isso.

Certo dia não saí para o quintal. O pássaro veio, cantou, ficou ali até anoitecer.
Esperando-me. Podia ouvi-lo. Tive a impressão que ele cantava mais alto naquele dia.
Deixei-o a cantar.
No outro dia, também fiquei dentro de casa. Tinha-me entretido com outras
insignificâncias. Passei o dia a olhar fotos antigas, as minhas junto a Renata. Foi um dia
longo. Lá fora, Théo continuava a cantar. Eu não o havia esquecido. Como poderia?
Apenas tinha outras coisas para fazer. Procurando novas rotinas, novas aventuras para
me entediar. Com a falta do que fazer, comecei a arrumar as bagunças, a vasculhar as
gavetas e os armários. Encontrei bastantes atormentações.
E, assim, alternando entre os dias que davam para passar um tempo no quintal e os que
não davam, prossegui. Aos poucos, ausentava-me cada vez mais. Se antes; por
prioridades, agora, também por insignificâncias. Descobri novas formas de passar as
horas. Ainda colocava o papaia – sem cortar –, e jogava alpiste para o meu amigo
comer. Cumpria com a minha obrigação; e o pássaro com a dele. Continuava a cantar.
Dias de chuva, dias de sol, não se importava. Eu ignorava-o, apesar do seu esforço, da
sua vontade. Tinha os ouvidos abafados por alguma vaidade.
Poucos dias depois, quando outros prazeres me abandonaram, comecei a sentir uma
angústia conhecida. Devia ser ansiedade. Um vazio crescia no meu peito. Precisava
voltar ao trabalho o mais breve possível. Pensei na minha ex-mulher, Renata. Por vezes
a solidão nos enfraquece, nos mata. Tolices da emoção.
Uma gaveta do criado-mudo roubou-me muito tempo. Havia muitas memórias naquele
pequeno espaço. Cartas, presentes, objetos, todos carregados de muitas lembranças.
Como se revivesse tudo aquilo. Impressionei-me com a quantidade de sentimentos que
rodeavam os fatos. Eu amava-a de verdade. Mesmo que tenha sido por pouco tempo, eu
amava-a. Eu ainda…

Estranhamente, o que trazia-me lembranças boas, também me trazia sofrimentos.
Desejei queimar todas as provas, não consegui.
Lá fora o pássaro cantava.
Um canto surdo sob as minhas angústias.
O pássaro cantava.
A grama e as hortaliças cresciam junto às frustrações.
As reservas começavam a se esgotar.
Insônia.
Covid-19.
Resolvi trancar a gaveta, as portas, as janelas. Desliguei o rádio, o celular. A vida voltou
a ser cinza. Foram dias penosos.
Um homem não pode viver do passado. Temos que aprender com ele, mas é difícil.
Muito difícil. Ela quem escolheu assim, não tive culpa. Há quem diga que fui eu quem
escolheu essa vida. Que a culpa é minha. Não posso deixar isso derrubar-me. Danem-se.
Danem-se todos.

Lá fora o pássaro cantava, ainda podia ouvi-lo sob os soluços, no travesseiro
encharcado. Ele insistia em cantar, não desistiu de mim. Tão logo desiste. Renata
também desistiu. Não antes de tentar inúmeras conversas. Nunca gostei de abrir-me,
aprofundar-me no problema. A vida tinha que ser igual à matemática, exata. Errou, pede
desculpa, perdoa-se. Não sei o porquê de remexer nas feridas. Ela chegou a sugerir
terapia de casal, não iria desperdiçar o meu tempo nem o meu dinheiro, disse a ela.
Amargo mais esse equivoco. Mesmo não acreditado às vezes temos que ceder, mas é
difícil. Muito difícil.
O pássaro continuava a cantar. Uma hora ele cansa-se, assim como essa quarentena uma
hora acaba, assim como Renata. O canto se cessou. Acredito que o pássaro ainda
entoava belas melodias, mas eu já não as ouvia mais.
Aos poucos a vida vai retomando, alguns estabelecimentos vão se abrindo. Equilibrei-
me. Foquei na retomada. Novos projetos, novos desafios. Precisava preparar-me para o
mercado. Perdi muito tempo com coisas inúteis, e remoendo o passado. Bobagens.
Ainda tenho muito para conquistar no campo profissional.
Rendi-me à internet, fiz alguns cursos on-line. Estudei com afinco. Elaborei novas
estratégias, busquei novos campos. Sentia-me vivo de novo. Impressionante como um
objetivo e um bom café são revigorantes. Estava pronto para o futuro. Pelo menos,
assim pensava.
Alguma coisa ainda me incomodava, não a ponto de derrubar-me. Seria esmagada pelas
novas aspirações. Mas ainda sentia um pouco de angústia. Raras lembranças de Renata.
Hoje fui ao centro da cidade para ver como estava a retomada. Ansiando para quando
chegasse a minha vez. Sentei-me no banco da praça, em frente à igreja. Fiquei contente
com o pouco movimento nas calçadas e comércios. Antes era tudo um vazio. Parecia
filme apocalíptico.

Havia algumas árvores entre as construções. Notei um canto de pássaro sob os ruídos da
civilização, sob o meu entusiasmo e a minha angústia. Tinha o canto distorcido pela
confusão, silenciado pela indiferença. Aquele pássaro não se importava se seria ouvido
ou não, cantava sem se importar com o ronco dos carros passando, o barulho das
pessoas, das construções, do sino da igreja. Creio que não cantava para mim nem para
ninguém. Cantava porque era aquilo que nasceu para fazer, aquilo que acreditava.
Surgiu-me uma ideia tola, pensei que era assim que devíamos fazer as coisas, sem se
importar com o barulho das opiniões alheias, e fazer o que acreditávamos.
Lembrei-me do pássaro que ia todos os dias em casa. Aquele sim, tenho certeza que
cantava para mim. Entristeci-me.
Quando os meus pensamentos voaram até o pássaro, comecei a sentir um desconhecido
remorso me acusando de coisas que nunca me importei. Como se, de repente, eu não
fosse a pessoa que eu julgava ser. O peito apertou mais forte. Temo estar a ficar mais
velho, mais fraco.

Lembrei-me do pássaro cantando, comendo, voando, me alegrando. Lembrei-me da
horta, do gosto diferente daquelas alfaces e rúculas. Lembrei-me de Renata. Quantos
momentos bons. Ela era mesmo um ser incrível. Decepcionei-a. Desperdicei a minha
chance. Fui um tolo. Quantas brigas à toa, quantos descasos, vaidades. Quantas coisas
poderiam ser evitadas; quantas, feitas. Um tolo. Um tolo.
Sentado no banco, lamentei as minhas escolhas erradas. Fui a correr para casa, não tinha
colocado comida de manhã para o Théo. Mas, tenho certeza que ele estaria lá me
esperando.
Passei por cima da grama alta, das flores murchas, das alfaces velhas, na intenção de
ouvi-lo uma vez mais… mas… ele não estava mais lá.
Tinha voado para longe, para outro quintal.
Fiquei triste, chorei de raiva.
Angustiei um arrependimento silencioso.
Amaldiçoei aquele pássaro por ter-me abandonado quando devia estar ali, depois e tudo
o que eu fiz.
Entrei na minha casa.
As coisas estavam se normalizando, em poucos dias, voltaria a viajar.
Quero trabalhar, esquecer-me desses meses ruins.
Tomei um café, esqueci.
“Maldito pássaro. Maldita solidão”

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