O grupo temático de Saúde Indígena do InformaSUS apresenta a sua segunda entrevista da série “De parente para parente”. Nesta série, indígenas buscam ouvir outros indígenas em suas vivências relacionadas à saúde de seu povo. Nesta entrevista, a estudante de graduação do curso de Educação Física, Guanilce Falcão Soares, indígena do Povo Tariana, conversa com Ana Rosa Xavier Soares, também do povo Tariana e técnica de enfermagem na Casa de Saúde Indígena (CASAI[1]) do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira – AM. A entrevista aconteceu no dia 24 de setembro de 2020, por meio do recurso de áudio pelo aplicativo WhatsApp.

Ana Rosa fala sobre sua trajetória pessoal e profissional com a pandemia COVID-19, relata o trabalho na CASAI e nos conta as orientações que são feitas, os desafios, as dificuldades presentes e os impactos desde o primeiro caso confirmado naquele local. Por fim, Ana Rosa conta sua experiência pessoal com a COVID-19, tanto no trabalho como por ter também adoecido. Ela ainda narra os enfrentamentos com a perda de parentes e amigos, além da luta permanente pelas políticas públicas relacionadas à Saúde Indígena na região, que é considerada mais indígena do Brasil.

São Gabriel da Cachoeira fica na região do Noroeste Amazônico, na fronteira com a Venezuela e a Colômbia, com uma população de mais de 40 mil indígenas, de 23 etnias do Rio Negro, configura-se como uma região de alta agro biodiversidade, conhecida como “Cabeça do Cachorro”, devido aos contornos geográficos.

Fonte: https://www.ecoamazonia.org.br/

É nesta região que vivem os Tariana, povo conhecido pelos povos do Rio Uaupés como filhos do sangue do trovão, devido a origem mítica Tariana. O seu lugar de origem fica na Cachoeira de Uapui, localizada no Alto Curso do Rio Aiari, originalmente falantes de uma língua do tronco Aruak, mas que atualmente falam em sua maioria a língua Tukano, que é a língua mais usada para comunicação entre os povos da região.

Atualmente, o povoado de Iauaretê concentra a grande maioria da população Tariana, na extensão do médio e alto curso do rio Uaupés. Eles também estão distribuídos em centros urbanos no Rio Negro, Santa Isabel e Barcelos. O povo Tariana possui suas próprias características histórico-culturais, seja como agricultores, ou em caça e pesca, no trabalho de artesanatos, na arte de pinturas, danças míticas, comidas históricas, e o meios de curas que se encontram em remédios de plantas medicinais com os pajés que são anciãos da comunidade (ISA, 2020).

Nas palavras de Guanilce: “os Tariana, povo trabalhador, plantador de sonhos, de muitas lágrimas, da esperança viva, na força de seu amor a essência da vida, enraizadas em ti, na beleza do mistério da natureza, o coração da Amazônia”. Depois de ser entrevistada pelo InformaSUS – UFSCar no mês de agosto, Guanilce entrevistou Ana Rosa. A entrevista conferimos na sequência.

Guanilce: Você poderia ser apresentar e contar para a gente onde você trabalha?

Ana Rosa:  Eu me chamo Ana Rosa Xavier Soares, sou técnica de enfermagem da etnia Tariana. Nasciem Marabitana, comunidade indígena ribeirinha no Uaupés (rio), próximo ao distrito de Iauarete, São Gabriel da Cachoeira-AM. Eu trabalho na saúde indígena desde 2000 até hoje em dia. Trabalhei viajando, no começo, em 2000 e 2001. Depois trabalhei na Casa de Saúde Indígena (CASAI) em Manaus. Até 2008, fui viajar para as comunidades do interior daqui de Manaus. Depois vim para São Gabriel e comecei a viajar nas comunidades. Em 2015 parei de viajar e fui para CASAI daqui de São Gabriel da Cachoeira. A CASAI, acolhe os pacientes que são referenciados das comunidades. Tem a equipe que fica na comunidade, médicos, enfermeiros, técnicos, dentista e o auxiliar dele. Ali eles atendem o povo, e os que eles não conseguem resolver referenciam para o HGU [Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira]. Só que eles não vão diretamente para o HGU, a primeira parada quando eles chegam aqui em São Gabriel é na Casa de Saúde Indígena. Na CASAI o meu serviço é externo. Eu e outra colega pegamos os pacientes que chegam de resgate no porto, no aeroporto, em qualquer lugar. A gente pega e os leva para o HGU, onde eles são avaliados pelos médicos, clínicos, ortopedista, ginecologista, dependendo da situação do paciente. Então a CASAI é isso, Casa de Saúde Indígena, que acolhe todos os pacientes que são referenciados.

Guanilce: Como tem sido a situação da pandemia de COVID-19 na sua região e na CASAI, onde você trabalha?

Ana Rosa: Então, eu acho que não só para mim, mas para todos nós que trabalhamos na CASAI, foi muito, muito intenso. A gente estava esperando que essa pandemia não chegasse aqui em São Gabriel. Mesmo assim, nós, como profissionais, juntamente com os outros profissionais do DSEI, estávamos preparados para quando chegasse aqui, a gente ter como combater.  Mas foi muito difícil, muito difícil mesmo. Quando surgiu o primeiro caso, foi desesperador para todos. Imagine para os que não são profissionais de saúde. Eu, particularmente, fiquei com muito medo. Mas mesmo assim, como profissionais, não podemos demonstrar esse medo para os nossos pacientes, para os nossos parentes.

Guanilce: E quais foram as estratégias que vocês usaram para tentar controlar a pandemia? O que vocês orientaram?

Ana Rosa: O que a gente orientava para o pessoal da comunidade é que não era mais para sair das aldeias e descer para São Gabriel. Era para equipe encaminhar para a cidade só os pacientes que não tinham mesmo jeito de resolver nas comunidades. Quando chegou essa pandemia, a CASAI se isolou, não recebia mais visita de ninguém, e também paramos de receber os pacientes. Naquela época, só atendia emergência mesmo. Como estava ocorrendo muitos casos, eu tive que me afastar, porque eu e outras colegas fomos as primeiras a adquirir essa doença [COVID-19]. Então eu fiquei mais de 40 dias afastada do meu trabalho, só retornei depois que passou o tempo de isolamento.

Guanilce: E como você se sentiu quando teve COVID-19? Tiveram muitos outros casos entre os outros indígenas?

Ana Rosa: Foi um pânico enorme, tive medo, muito medo mesmo de voltar para o trabalho. Mas, com ajuda de Deus, a gente que é profissional tem que encarar e seguir a luta. Foi o que eu fiz. Como você sabe a minha trajetória é mais no HGU. E lá até hoje ainda continuam os casos. Fiquei com muito medo de pisar novamente naquele hospital, ver os pacientes, ver nossos parentes ali e não poder ficar com eles. Todos tinham que ficar sozinho, em isolamento. Perdemos muita gente, muitos parentes. Também o pessoal da comunidade não podia ter acompanhante lá dentro do HGU. Foi… eu vou dizer para você que foi muito triste não poder velar um parente, um amigo que perdeu. Não poder despedir, sabe? [silêncio] Desculpa Nilce… [entrevistada se emociona]. Sempre quando eu lembro dos amigos que eu perdi nessa pandemia, dói, viu.

 

Autores:

Guanilce Falcão Soares

Dênis Delgado da Silva

Vanusa Vieira Gomes

 

Revisão:

Larissa Campgna Martini Barbosa

Willian Fernandes Luna

 

Referências:

Brasil. Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. 2ª ed. Brasília: Funasa, Ministério da Saúde; 2002. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_saude_indigena.pdf

Povos Indígenas no Brasil. Povo Tariana. Disponível em https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tariana

 

[1] Segundo a Política Nacional de Saúde Indígena, as Casas de Saúde Indígena (CASAI) estão localizadas em municípios de referência e são responsáveis por receber, alojar e alimentar pacientes encaminhados e acompanhantes, prestar assistência de enfermagem 24 horas por dia, marcar consultas, exames complementares ou internação hospitalar, providenciar o acompanhamento dos pacientes nessas ocasiões e o seu retorno às comunidades de origem, acompanhados das informações sobre o caso.

 

Crédito da imagem: Ana Rosa Xavier Soares

Veja também:

Categoria: Saúde indígena

Envie suas dúvidas sobre COVID-19 para nós!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *