Autoria: Leandro Costa.

Descrição da obra: Perdendo abruptamente o noivo por causa da COVID-19, Tersa deprime e isola-se na casa que havia planejado para uma vida longa e próspera. Na contemplação da natureza que visualiza da janela, ela encontra um novo sentido para ressignificar o luto e a vida.

Expressão: Literatura.

 

TERSA

 

           O céu pesado trouxe leveza ao peito de Tersa. A luz, matiz do entardecer e amanhecer, aquietou-lhe os pensamentos acelerados e arrefeceu o calor do sofrimento.

           A chuva digitou, no telhado, o consolo que os familiares não conseguiram mensurar pelo WhatsApp. Em sua linguagem inefável, entregou palavras que lhe encheram de um alívio eficaz.

           Um luto, à queima-roupa, abriu uma chaga que nada conseguia sanar. A companhia dos amigos, mensagens de otimismo, livros de autoajuda, medicamentos e terapias, sequer funcionaram como placebo. Acordava no desespero e dormia na exaustão da dor.

           Nos últimos quinze dias, refugiou-se na casa que traduzia todo o absurdo para o qual não encontrava resposta. Não havia contado a ninguém sobre ela. Seria uma surpresa para eles e suas famílias, assim que chegassem da volta ao mundo que planejaram.

           Nenhum detalhe dela era ocasional. Tudo fora programado em função de uma vida cheia de significados. Por ironia, a construtora a entregou antes do prazo e ela teve que receber logo o projeto autossustentável que desenhou durante anos. 

           A mata preservada, os pequenos geradores eólicos, as placas solares, a mobília feita com madeira reciclada, o enxoval vegano, o quarto com teto para observar as estrelas, a máquina de café espresso, a cozinha com sua pequena horta e a fonte térmica do quintal, até aquela manhã, só lhe falavam de ausência e ruptura violenta. 

          O vento, cantando nas frestas das janelas e nos canais de ventilação, encheu a casa com tanta presença e sentido que o sofrimento pareceu um susto do qual se ri. Tudo estava leve e respirava ares saudáveis.

          A disposição, que havia lhe abandonado há meses, animou-lhe o corpo e a mente com uma saúde que lhe encheu o âmago e acordou o estômago. Não lembrava a última vez que cozinhara com tanta alegria e criatividade. Cantarolou La vie en rose involuntariamente e sorriu quando a máquina de café encheu uma caneca e não uma xícara. Dispensou a etiqueta.

          Tomou café defronte a enorme janela da sala, assistindo ao balé da chuva. Sentiu vontade de ser livre como as gotas d’água que valsavam com o vento.

          Bafejando-lhe o rosto e os cabelos, elas convidaram-lhe a dançar: Por que não? Venha! Venha sim — disseram-lhe em sua língua livre e refrescante.

          Unidas a ela, correram por seu corpo como pequenos rios que sabiam, com uma precisão divina, quando, onde e como lhe acariciar.

          Com o espírito de uma criança que simplesmente se entrega, ela deixou, pelo caminho, os pedaços do casulo e entrou no palco pluvial. Serenamente, as gotas beijaram a sua pele, fazendo correr, por todo o seu corpo, a energia de bons arrepios que a fundiram na leveza.

          Quando a última gota a deixou e escorreu pelos mistérios da terra, levou o último traço da lagarta.

          Envolta na névoa, teve a pele perfumada pelo mato, enquanto gozava de uma satisfação sem culpas, medos e dúvidas. 

          Com cheiro herbal suave, entrou em casa refeita, e o roupão quentinho, pendurado em um cabide, convidou-lhe para um abraço demorado no sofá da sala.

          Deitada, sentiu um calor confortável que não vinha somente dos tecidos. Os braços e o coração que a continha: um espaço onde ela encaixava-se perfeitamente. Nele, o tempo corria tão devagar que parecia não existir.

          Naquele enlevo, só um incômodo a desafiava: não saber que presença lhe acolhia. Passou pela memória todas as referências e nenhuma se encaixava naquele amor que ultrapassava os padrões.

          Gastou tanto a mente naquele cismar, que decidiu não mais querer prender aquela presença com a razão. Silenciou, fechou os olhos, respirou fundo e encontrou alguém de quem fugira durante vinte anos de uma história que já durava trinta e seis.

          Correu ao encontro dela, lançou-se ao pescoço e demorou-se no clímax do abraço que sarava feridas, revogava sentenças, declarava paz e fechava brechas.

          Quando tudo aquietou-se novamente, a grande amiga, tomando a sua mão esquerda, pôs-lhe, no anelar, a aliança que trazia o nome do grande amigo. Em seu juramento, ela lhe disse:

          — Ágape. Ágape. Ágape.

         Selando-o com um ósculo, uniram as partes, de um mesmo hálito, em laço de fio dourado que, estendido no rumo do céu, parecia ter a tensão dos que sustentam uma pipa. Segurando-o, sentiu a tensão diminuir vertiginosamente até o completo repouso.

          Puxando a ponta que não estava no seu controle, foi abrindo a pesada cortina de suas pálpebras sonolentas.

          Brilhando em um dedo de sua mão esquerda, o sol a despertou para um dia de um outro tempo, projetando nas paredes da sala as palavras inscritas no anel: se um dia o amor me chamar de volta, não te entristeças! Sou contigo, minha vida.

          Aquiles não havia partido. Ele era amor nela.

One thought on “Tersa

  1. Jerfesson Santos says:

    Pelas palavras para esse tempo tão sombrio que estamos vivendo, mesmo que tudo esteja parecendo o fim, devemos sempre acreditar em nossos sentimentos e pensar que algo sempre pode mudar para melhor. Lindo texto!

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