O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é considerado um “Problema de Saúde Pública Mundial” pela OMS. No dia 2 de abril comemoramos o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em dezembro de 2007, para alertar a sociedade, diminuir o preconceito e esclarecer dúvidas sobre o autismo.

O TEA se caracteriza por alteração no neurodesenvolvimento que dificulta a organização de pensamentos/sentimentos/emoções, com reflexos no comportamento frente a diversas situações da vida diária, gerando prejuízo nas interações sociais e na comunicação (American Psychiatric Association, 2013).

 

Design por Ana Paula de Lima

 

A expressão “espectro” foi incorporada ao nome do transtorno autista, em função da variedade de sintomas diferentes que os indivíduos podem apresentar. Nem todas as pessoas que têm TEA terão exatamente as mesmas manifestações do transtorno.

Segundo as diretrizes do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria), os critérios para o diagnóstico clínico do TEA foram divididos em dois grandes grupos:

(1) déficits persistentes na comunicação e na interação social verbal e não verbal em múltiplos contextos e

(2) padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

Entre os déficits se incluem abordagem social anormal, dificuldade para estabelecer uma conversa coerente, compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto, bem como dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais.

Embora não saibamos exatamente como o comportamento humano se instala, sabemos que ele é naturalmente aprendido. Pessoas aprendem e incorporam novos comportamentos segundo uma capacidade teoricamente inata de imitação, seguida por reforçamento.

Verifica-se que pessoas com autismo podem apresentar dificuldade no aprendizado natural de determinadas habilidades e desenvolvem padrões atípicos de comportamento, comprometendo sua capacidade de manter relacionamentos interpessoais consistentes.

Pessoas com TEA podem apresentar déficit na compreensão e aprendizado de gestos e expressões faciais (face de alegria, tristeza, raiva ou medo), necessitando de ensinamento formal para essas percepções e habilidades.

Pode ocorrer fragmentação do contato visual, ou seja, incapacidade de mantê-lo por um período prologado de tempo e, quando solicitados a fazê-lo, relatam certo desconforto. O “olhar nos olhos” é uma ação mediadora das relações sociais interpessoais que pode ser percebido nos seres humanos desde muito jovens, como nos bebes típicos, durante o aleitamento materno.

Pessoas com TEA podem apresentar déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, o que inclui dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos, compartilhar brincadeiras imaginativas, fazer amigos e interesse por pares. Isto pode estar relacionado a capacidade prejudicada de selecionar estímulos relevantes para compreensão do todo.

 

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Movimentos repetitivos, fala estereotipada, estereotipias motoras simples (alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas) podem estar presentes nas pessoas com TEA. As estereotipias são definidas como movimentos repetitivos e rítmicos, geralmente emitidos para gerar alguma sensação de bem-estar ou equilíbrio (organização) em seu comportamento.

As estereotipias mais frequentemente observadas são balanços das mãos ao lado do corpo ou da cabeça, bater palmas e movimentos cíclicos do tronco para frente e para trás. Podem ocorrer estereotipias dinâmicas, envolvendo movimentos mais amplos – como andar ou correr de forma repetitiva. Também podem ocorrer ecolalias, que correspondem a um uso não funcional da fala, na qual o indivíduo repete a fala de terceiros.

Pessoas com autismo podem apresentar insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal que, ao serem modificados, podem gerar sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças. Dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente também podem estar presentes entre pessoas com TEA.

A inflexibilidade comportamental e o apego rígido às rotinas podem trazer prejuízos significativos e socialmente relevantes a estas pessoas, reduzindo suas oportunidades de convívio social, estudo e trabalho.

Pessoas no TEA podem apresentar seletividade alimentar, que também pode ser explicado por uma rigidez no comportamento natural de experimentar novos alimentos. Pessoas com seletividade alimentar geralmente apresentam tanto a inflexibilidade quanto as alterações de percepção sensorial.

Pessoas com autismo podem manifestar interesses fixos e altamente restritos que são diferentes em intensidade ou foco (por exemplo, forte apego a objetos incomuns ou preocupação com eles, bem como interesses excessivamente circunscritos ou perseverantes). Trata-se do hiperfoco, que é uma característica muito frequente em pessoas com autismo. Muitas vezes ele traz prejuízos significativos ao aprendizado global, já que o indivíduo passa a negligenciar outros conteúdos em detrimento do aprendizado de um único tema.

Uma grande parcela das pessoas com autismo apresenta alterações nas percepções sensoriais visuais, auditivas, táteis, gustativas, olfativas, cinestésicas e vestibulares. Estas alterações podem explicar parte dos comportamentos de seletividade alimentar extrema, bem como as alterações comportamentais frente a estímulos auditivos e visuais que, habitualmente, não trariam desconforto a pessoas de desenvolvimento típico.

Pode ocorrer hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (como indiferença aparente à dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimentos).

 

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Para classificar a gravidade do TEA, a Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5) utiliza como critério o nível de dependência de apoio indivíduos com TEA.

Nível 1 (leve) – Pessoas no TEA com necessidade de pouco apoio, cujos déficits na comunicação social provocam pouca repercussão em suas relações interpessoais. Estes indivíduos, habitualmente, têm dificuldade para iniciar interações sociais ou mantê-las com boa qualidade. As dificuldades provocadas pela inflexibilidade cognitiva podem ser evidentes nestas pessoas, além de problemas relacionados à organização e ao planejamento.

Nível 2 (moderado) – Pessoas no TEA com necessidade de apoio substancial, por apresentarem déficit severos nas suas habilidades de comunicação social (verbal e não verbal).

Nível 3 (severo) – Pessoas no TEA com necessidade de apoio muito substancial.

 

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Embora não exista cura para autismo, existe tratamento não farmacológico e farmacológico. O tratamento não farmacológico é feito por meio de intervenções terapêuticas comportamentais, realizada por psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, médicos, enfermeiros, professores, profissionais de educação física, familiares entre outros. Em algumas situações, medicações específicas serão prescritas pelo médico.

As intervenções são realizadas para o indivíduo com TEA, junto à família, no ambiente escolar e de trabalho. Estas intervenções visam identificar e desfazer barreiras, treinar habilidades do indivíduo com TEA, treinar as outras pessoas que convivem com o indivíduo com TEA, de modo a tornar possível e harmônica a convivência, troca e aprendizados entre todos.

Atualmente, o diagnóstico precoce de TEA em crianças e as intervenções precoces, reduzem em muito o sofrimento destas e de suas famílias. Em relação aos adolescentes, adultos e idosos, mais recentemente vem crescendo o número de pessoas que buscam avaliação e são diagnosticadas com TEA.

Observa-se que as características de TEA se modificam com o passar da idade. Adultos com TEA, ao enfrentar diversos desafios, com bastante sofrimento, tem suas características camufladas, reduzidas ou modificadas, por desenvolverem estratégias de sobrevivência e enfrentamento de demandas, ainda que de modo lento e com muito esforço pessoal.

É possível que adolescentes, adultos e idosos com TEA sejam algumas daquelas pessoas consideradas esquisitas, diferentes, como o problema da família, fora do eixo, fora da curva, alcóolatras, dependentes químicos, que não param no emprego e que não souberam como cultivar amigos e família.

A avaliação de pessoas com características de TEA geralmente é realizada por profissionais especializados e sensibilizados para o espectro – médico psiquiatra ou neurologista, psicólogo de base comportamental e terapeuta ocupacional, entre outros especialistas. O TEA pode ter múltiplas causas, desde causas ambientais até genéticas. Sempre que possível, as causas associadas ao TEA devem ser identificadas para a orientação familiar.

No que se refere a intervenção, esta deve ser realizada por uma equipe interprofissional, a fim de identificar habilidades sociais que não foram naturalmente adquiridas para que a pessoa com autismo possa ser “aceita”, desempenhar seu papel na sociedade e seguir aprendendo e ensinando.

A intervenção deve ser realizada por vários profissionais das áreas da saúde e da educação para que objetivos específicos e personalizados, relacionados ao seu desenvolvimento sejam alcançados.

No que se refere à criança com TEA, esta se desenvolve, aprende e se socializa. No ambiente escolar, o aluno com autismo, recebe o Atendimento Educacional Especializado (AEE), através da Sala de Recursos Multifuncionais (SRM) da escola e apoio do professor especializado que trabalha juntamente com o professor da sala regular, no caráter do Ensino Colaborativo. É importante respeitar a singularidade e a individualidade de cada um.

Pessoas com TEA precisam de acolhimento, avaliação, intervenção, treinamento em habilidades específicas, desenvolvimento de autonomia e habilidades sociais, aceitação, paciência e amor.

 

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Para saber mais, acesse:

– Como funciona o cérebro da pessoa com autismo?

https://www.youtube.com/watch?v=t7i5LzSuCCY, acesso em 01/04/2021

– Como é feito o diagnóstico do autismo em adultos? | Live NeuroSaber

https://www.youtube.com/watch?v=ZuE2peVMa-Q, acesso em 01/04/2021

– O problema dos GRAUS do Autismo

https://www.youtube.com/watch?v=FNS71Dk63qI, acesso em 01/04 2021

– Violência não educa. Precisamos proteger nossas crianças.

https://www.youtube.com/watch?v=STIIdeujZV8, acesso em 01/04/2021

– Revista Autismo

https://www.revistaautismo.com.br/. acesso 01/04/2021

– A liberdade é azul, Renata Tibyriçá

https://aliberdadeehazul.com/, acesso em 01/04/2021

 

Referências consultadas

Manual diagnóstico e estatístico de transtorno 5 DSM-5 / [American Psychiatnc Association, traduç .Maria Inês Corrêa Nascimento … et al.]; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli… [et al.]. – . e .Porto Alegre: Artmed, 2014. xliv, 948 p. http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico-e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf.pdf, acesso 01/04/2021.

Liberalesso, P.; Lacerda, L.  Autismo: compreensão e práticas baseadas em evidências. 1. ed. Curitiba, 2020. https://mid.curitiba.pr.gov.br/2021/00312283.pdf, acesso 01/04/2021.

Chang, J., Gilman, S., Chiang, A. et al. Genotype to phenotype relationships in autism spectrum disorders. Nat Neurosci 18, 191–198 (2015). https://doi.org/10.1038/nn.3907. https://www.nature.com/articles/nn.3907, acesso em 01/04 2021

Matheus Eugênio de Sousa Lima, Levi Coelho Maia Barros, Gislei Frota Aragão. Could autism spectrum disorders be a risk factor for COVID-19? Hipóteses médicas 144 (10223), Maio/2020. DOI: 10.1016 / j.mehy.2020.109899. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0306987720310719?dgcid=api_sd_search-api-endpoint#!, acesso 01/04/2021.

 

Autores – Vanessa da Costa Rezende e Vera Regina Lorenz

Revisão – Grupo de trabalho Cuidado sem limites

Crispim Antonio Campos

Débora Gusmão Melo

Jacqueline Denubila Costa

Júlia Andreza Gorla

Larissa Campagna Martini

Mariana de Almeida Prado Fagá

Vanessa da Costa Rezende

Vera Regina Lorenz

Crédito da imagem: Caleb Woods em Unsplash

 

Veja também:

Categoria: Pessoa com deficiência

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