Se os medicamentos nos ajudam a enfrentar as múltiplas doenças que podem ocorrer com o envelhecimento, é importante saber como usá-los de modo correto, pois o tratamento correto de condições de saúde que já existem ajudam a diminuir os efeitos ou agravamento da manifestação da COVID19.

A polifarmácia ou o uso de muitos medicamentos diferentes é comumente observada entre idosos, a princípio, devido à grande incidência de múltiplas condições crônicas nessa população. 

É importante destacar que o uso inadequado dos medicamentos pode resultar em agravo à saúde e em visitas evitáveis aos serviços de saúde, como por exemplo, decorrentes de doenças não controladas (1) ou de intoxicações. 

A seguir, serão listadas algumas ações que visam tornar a terapia medicamentosa da pessoa idosa mais segura e efetiva, principalmente através de ações que melhorem a adesão e a compreensão de pontos gerais importantes sobre as medicações. 

 

1. Doenças crônicas podem ser silenciosas! 

As doenças crônicas requerem uso de medicações sem interrupções para manter o quadro sob controle, visando impedir ou tornar mais lenta a progressão da enfermidade. Diabetes e hipertensão são exemplos de doenças crônicas.

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Por exemplo, alguns remédios para diabetes podem causar hipoglicemia (queda do nível de açúcar no corpo de modo rápido), ou alguns indicados para hipertensão podem gerar hipotensão (queda da pressão de modo abrupto), provocando um aumento no risco de quedas. Nesses casos, é importante a adoção de ações para prevenir as quedas, como se levantar devagar, ou se sentar imediatamente em caso de mal estar(2). O idoso e seus familiares terem uma compreensão sobre o quadro de saúde e sobre a finalidade do medicamento pode auxiliar não apenas em ter ciência das doses e duração do tratamento, bem como a identificar possíveis eventos indesejáveis e em alguns casos estabelecer formas de tentar evitá-los ou então minimizá-los. 

Além do médico que acompanha o caso, ou do farmacêutico, a bula pode fornecer alguns esclarecimentos sobre a medicação, como a finalidade do remédio, interações com outros medicamentos ou substâncias.

 

Você sabia ?

→  A Lei 14.028, que entrou em vigor no final de julho deste ano, mantém a validade de receitas/ prescrições de medicamentos de uso contínuo, enquanto houver as medidas de isolamento para contenção da COVID-19.  A lei vale tanto para receitas médicas como odontológicas, com exceção dos antibióticos ou medicamentos controlados ( tarja preta).

Fonte: Agência Senado (https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/07/28/sancionada-a-lei-que-suspende-prazo-de-receita-medica-durante-a-pandemia)

 

2.  Leia sempre a bula ao iniciar o uso de um medicamento.

Fazer essa leitura é uma forma de reforçar as orientações médicas e conhecer mais detalhadamente diversas informações sobre a medicação. 

Após ler a bula, não a jogue fora! Mantenha ela na caixa do medicamento correspondente para consultá-la sempre que surgir alguma dúvida.

Mas quais informações podem ser obtidas pela leitura da bula?

  As bulas atualmente apresentam o formato de perguntas e respostas, contendo as seguintes informações :

  • Como este medicamento funciona?
  •  Por que este medicamento foi indicado?
  •  Quando não devo usar este medicamento?
  •  Como devo usar este medicamento?
  •  Quais os males que este medicamento pode causar?
  • O que fazer se alguém usar uma grande quantidade deste medicamento de uma só vez?
  • Onde e como devo guardar este medicamento?

3. Como armazenar corretamente os medicamentos.

Armazenar os medicamentos de forma correta evita que ocorram alterações em sua composição que podem afetar sua efetividade ou segurança.

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*** Sobre o descarte correto de medicamentos durante a pandemia: você sabia que medicamentos podem poluir o meio ambiente?

 

“Como, então, promover o descarte consciente dos medicamentos durante a pandemia e no período de quarentena? Uma boa iniciativa é separar os medicamentos vencidos e que, portanto, não serão mais usados, dos comprados indevidamente e também daqueles que serão realmente usados; colocá-los em recipientes separados e identificados de forma adequada. Assim, ao final do isolamento, deve ser procurado um ponto de coleta para dispensar esses medicamentos, de forma que tenham o destino correto. Em hipótese alguma o medicamento deve ser descartado em lixos comuns ou recicláveis, pias, ralos e vasos sanitários”

 

Fonte: http://www.uff.br/?q=uso-e-descarte-de-medicamentos-na-pandemia-do-covid-19

4. Manter uma rotina é importante.  

Os medicamentos devem ser tomados sempre nos mesmos horários estipulados pelo médico, favorecendo assim a solidificação de um hábito e reduzindo, consequentemente, as chances de esquecimentos.

Pergunte se pode tomar medicações ao mesmo tempo! Para algumas é preciso esperar um intervalo de tempo!

5. Evite tomar a medicação com bebidas alcoólicas, refrigerantes, chás, café, bebidas quentes em geral, leite e sucos. 

Essas bebidas podem interagir com as medicações. Na dúvida, faça a ingestão dos medicamentos sempre com água.

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Siga sempre a orientação do médico e faça a leitura da bula para saber o melhor momento de tomar suas medicações e evitar possíveis interações, seja com alimentos, bebidas ou outras substâncias.

6. A importância do papel do paciente e dos seus familiares.

Envelhecimento não é sinônimo de incapacidade e de doenças. Os idosos devem ser estimulados a assumirem a responsabilidade em seu tratamento, entretanto, a participação ativa dos familiares potencializa a manutenção do tratamento (3,4).

É preciso estar atento e verificar se há a presença dos seguintes fatores que podem estar ligados a dificuldades na adesão ao  tratamento medicamentoso:
  • Diminuição da audição,
  • Visão prejudicada,
  • Déficit cognitivo, como dificuldade de seguir orientações e memória de curto prazo reduzida,
  • Limitações financeiras para comprar a medicação e
  • Dificuldade em abrir frascos à prova de crianças para quem tem as mãos enfraquecidas.


7. Não utilize  medicamentos indicados por outras pessoas, como parentes, amigos ou vizinhos.

Mesmo que alguma medicação tenha servido para uma pessoa, não quer dizer que será efetiva para outra, inclusive se apresentarem sintomas semelhantes.

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Cuidado com as notícias falsas sobre receitas ou medicamentos “milagrosos” para prevenir a COVID-19!
  • Ainda não existe comprovação científica de que algum medicamento ou substância  possa atuar na prevenção do contágio pelo novo coronavírus.
  • As únicas formaa de se prevenir  é através do distanciamento social, da adoção da etiqueta de higiene e do uso de máscaras quando for essencial sair de casa.

8. Medicamentos “de marca”,  genéricos e similares:

Os medicamentos genéricos costumam ser mais acessíveis e não representam qualquer prejuízo ao tratamento! Saiba a diferença entre genéricos e outros tipos de medicamentos

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Portanto, a saúde do idoso deve ser vista de modo integrado, contemplando além do uso correto das medicações, a prática de hábitos de vida saudáveis como uma alimentação balanceada, sono adequado, atividades físicas.

É importante destacar que a  terapia medicamentosa é apenas uma das frentes de intervenção na saúde da pessoa idosa. A Organização Mundial de Saúde (OMS) traz que a saúde não se trata apenas da ausência de doença ou enfermidade, mas deve compreender também além do bem-estar físico, o completo bem-estar mental e social. (7) 

Por fim, é de extrema importância promover uma rotina que permita ao idoso desenvolver e manter laços e papéis sociais e sua máxima autonomia e independência, sendo que, durante a pandemia, com adaptações ao distanciamento social que preservem a pessoa idosa de riscos evitáveis. 

 

Créditos da imagem: Love photo created by rawpixel

 

Referências Bibliográficas:

(1) FREIRE, Claudia. Adesão e Condições de Uso de Medicamentos por Idosos. 2009. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2009. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/22/22132/tde-09032010-162351/publico/ClaudiaCamaraFreire.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

(2) PINHEIRO, Marília. Dificuldade de adesão do idoso ao tratamento farmacológico para hipertensão arterial. 2009. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Atenção Básica e Saúde da Família) – Universidade Federal de Minas Gerais, Campos Gerais, 2009. Disponível em: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/2326.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

(3) VASCONCELOS, Francisca; VICTOR, Janaína; MOREIRA, Thereza; ARAÚJO, Thelma. Utilização medicamentosa por idosos de uma Unidade Básica de Saúde da Família de Fortaleza – CE. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, vol. 18, n. 2, p. 178-183. jun. 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-21002005000200010&script=sci_arttext. Acesso em: 24 ago. 2020.

(4) CINTRA, Fernanda; GUARIENTO, Maria Elena; MIYASAKI, Lilian. Adesão medicamentosa em idosos em seguimento ambulatorial. Ciência & Saúde Coletiva, n. 15. p. 3507-3515. 2010. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csc/2010.v15suppl3/3507-3515/. Acesso em: 24 ago. 2020.

(5) MOURA, Mirian; REYES, Felix. Interação fármaco-nutriente: uma revisão. Revista de Nutrição, Campinas, vol. 15, n. 2, p. 223-238. maio/ago. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732002000200011&lng=pt&tlng=pt. Acesso em: 24 ago. 2020.

(6) BRASIL. Saiba a diferença entre medicamentos de referência, similares e genéricos. ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Brasília-DF, 29 abr. 2016. Disponível em:  http://portal.anvisa.gov.br/resultado-de-busca?p_p_id=101&p_p_lifecycle=0&p_p_state=maximized&p_p_mode=view&p_p_col_id=column-1&p_p_col_count=1&_101_struts_action=/asset_publisher/view_content&_101_assetEntryId=2662139&_101_type=content&_101_groupId=219201&_101_urlTitle=saiba-a-diferenca-entre-medicamentos-de-referencia-similares-e-genericos&inheritRedirect=true. Acesso em: 24 ago. 2020.

(7) OPAS – ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Indicadores de Saúde: Elementos Conceituais e Práticos (Capítulo 1). In: OPAS – ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. https://www.paho.org/pt. Disponível em: https://www.paho.org/hq/index.php?option=com_content&view=article&id=14401:health-indicators-conceptual-and-operational-considerations-section-1&Itemid=0&limitstart=1&lang=pt. Acesso em: 24 ago. 2020.

ABRASS, Itamar B. Fundamentos de Geriatria Clínica. 7ª Edição. São Paulo, Saraiva, 2015.

ATLAS DA SAÚDE. Conselhos para a medicação na terceira idade. Disponível em: https://www.atlasdasaude.pt/publico/content/conselhos-para-medicacao-na-terceira-idade. Acesso em: 24 ao. 2020.

BRASIL. Entra em vigor lei que retira prazo de validade de receita de medicamento durante pandemia. Câmara dos Deputados. Brasília-DF, 28 jul. 2020. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/679519-entra-em-vigor-lei-que-retira-prazo-de-validade-de-receita-de-medicamento-durante-pandemia/. Acesso em: 24 ago. 2020.

BRASIL. Idosos: Orientação para organizar melhor a rotina de medicamentos. Ministério da Saúde. Brasília-DF, 24 jan. 2017. Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/index.php/promocao-da-saude/52260-idosos-orientacao-para-organizar-melhor-os-medicamentos-que-precisa-tomar#:~:text=01%2F17%2016h20-,Idosos%3A%20Orienta%C3%A7%C3%A3o%20para%20organizar%20melhor%20a%20rotina%20de%20medicamentos,ou%20de%20oito%20em%20oito. Acesso em: 24 ago. 2020.

CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DE MATO GROSSO DO SUL. Qual a diferença entre medicamento de referência, similar e genérico? Disponível em: https://www.crfms.org.br/noticias/similar-com-status-de-generico/2604-qual-a-diferenca-entre-medicamento-de-referencia-similar-e-generico. Acesso em: 24 ago. 2020.

CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Cuidado farmacêutico ao idoso. Disponível em: http://www.crfsp.org.br/images/cartilhas/idoso.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

DRAUZIO. Abuso de medicamentos | Entrevista. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/abuso-de-medicamentos-entrevista/. Acesso em: 24 ago. 2020.

Medicamentos potencialmente inadequados para idosos. Boletim ISMP Brasil, v. 7, n. 3, p. 1-8, Ago. 2017. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org/site/wp-content/uploads/2017/09/is_0006_17a_boletim_agosto_ismp_210x276mm_v2.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

MORAES, Edgar Nunes de. Atenção à saúde do Idoso: Aspectos Conceituais. Brasília: Organização. Pan-Americana da Saúde, 2012.

PINHEIRO, Chloé. Alimentos podem atrapalhar a ação de remédios bastante usados. Veja Saúde. 3 jul. 2019. Disponível em: https://saude.abril.com.br/alimentacao/alimentos-podem-atrapalhar-a-acao-de-remedios-bastante-usados/. Acesso em: 24 ago. 2020.

Polifarmácia: quando muito é demais? ISMP Brasil, v. 7, n. 3, p. 3-8, Nov. 2018. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org/site/wp-content/uploads/2018/12/BOLETIM-ISMP-NOVEMBRO.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

SEBASTIÃO, Elza. Uso racional de medicamentos. Ouro Preto: Editora da UFOP, 2019. Disponível em: https://ufop.br/sites/default/files/16420_uso_racional_de_medicacao_revisado_2.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

SOUZA, Rosely et al. Funcionalidade familiar de idosos com sintomas depressivos. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, p. 469-476. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/reeusp/v48n3/pt_0080-6234-reeusp-48-03-469.pdf. Acesso em: 24 ago. 2020.

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