Este é o primeiro material da série “Rompendo o ciclo da violência contra a mulher” que aborda os tipos de violência e o ciclo da violência.

Para ajudar pessoas que estejam sofrendo violência doméstica é importante relembrar que você pode compartilhar essas informações,  mesmo que você não esteja passando por uma situação como essa. Divulgue essas informações, elas podem salvar uma vida!

Boa leitura!

Violência contra a mulher: quais os tipos?

Existem 5 tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher previstas na Lei Maria da Penha de acordo com o Capítulo II do Art. 7, incisos I, II, III, IV e V: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial.

A violência física é entendida como qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher. Ela envolve espancamento, arremesso de objetos com a intenção de machucar, sacudir ou apertar os braços, estrangulamento ou sufocamento, lesões com objetos cortantes ou perfurantes, ferimentos causados por queimaduras ou armas de fogo, tortura.

Ainda que seja de difícil identificação, a violência psicológica é muito comum. Ela é considerada como qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima da mulher, prejudicando e perturbando o seu pleno desenvolviment, ou que vise degradar e/ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões. Essa violência inclui ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento ( como proibir de estudar, viajar ou de falar com amigos e parentes), vigilância constante, perseguição reincidente contumaz, insultos, chantagem, exploração, limitação do direito de ir e vir, ridicularização, distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida sobre sua memória e sanidade (gaslighting).

A violência sexual consiste em qualquer conduta que submeta a mulher a presenciar, manter ou a participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso de força. Esse tipo de violência envolve estupro, atos sexuais que causam desconforto ou repulsa a ela,  o empedimento de métodos contraceptivos ou forçá-la a abortar, matrimônio forçado, gravidez ou prostituição por meio de coação bem como limitar ou anular o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher.

A violência patrimonial é entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos aspirando satisfazer as necessidades do agressor. Ela engloba o controle de dinheiro como não a pagar pensão alimentícia, furto, extorsão, estelionato, privação de bens, valores ou recursos econômicos.

A violência moral é considerada qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Ela inclui acusar a mulher de traição, emitir juízos morais sobre sua conduta, expor a vida íntima, rebaixar a mulher por meio de xingamentos que incidem sobre a sua índole e desvalorizar a vítima pelo seu modo de se vestir.

Todas essas formas de agressão não ocorrem isoladamente, são complexas, perversas e têm graves consequências para a mulher. Qualquer uma delas constitui ato de violação dos direitos humanos e deve ser denunciada!

 

Design por Ana Paula de Lima

 

Ciclo da violência 

A psicóloga americana Lenore Walker (1979) fez um dos achados mais importantes no estudo sobre a violência contra a mulher. Ela chefiou uma pesquisa que ouviu 1500 mulheres em situação de violência doméstica e a partir disso percebeu que tal violência apresentava um padrão, o qual foi chamado de “Ciclo da Violência”. De acordo com esse modelo, a violência entre homens e mulheres em suas relações afetivas e íntimas apresenta três fases: a Acumulação da tensão;a Explosão e a Lua de mel.

Na primeira fase, a de acumulação da tensão, há uma escalada gradual de violência através de atos discretos, gerando um aumento da tensão que desencadeia agressões verbais, provocações e discussões, podendo evoluir para agressões físicas leves. O agressor expressa insatisfação e hostilidade, mas não de maneira extrema. Nessa fase, a mulher busca evitar a violência com atitudes voltadas a agradar e acalmar o parceiro. Tal estratégia funciona por um tempo, mas logo a tensão se restabelece e aumenta, fazendo com que a mulher se sinta mais assustada em relação ao perigo iminente, já que qualquer acontecimento pode se tornar disparador da fase de explosão.

 A segunda fase, a de explosão, é caracterizada pela perda de controle do agressor e, consequentemente, uma agressão física grave, podendo ou não ser acompanhada de violência verbal. O encerramento dessa fase é sinalizado pelo fim da agressão, que proporciona ao agressor uma sensação de alívio da tensão. Por vezes é nesse momento que a vítima chama a polícia, denuncia a violência na delegacia ou foge para um abrigo. Infelizmente, a maioria das vítimas não procura ajuda durante este período, a menos que as lesões sejam tão graves que demandem cuidados médicos.

A terceira fase se inicia quando a vítima mantém contato com o agressor, a “lua de mel”. Nesse estágio o agressor costuma pedir desculpas, mostra gentileza e remorso, além de oferecer diversos presentes e/ou promessas nas quais a vítima tende a acreditar. Porém, o comportamento calmo e amoroso  dá lugar a novos pequenos incidentes de agressão, reiniciando a fase de acumulação de tensão e, portanto o Ciclo de Violência que reincide com mais violência podendo culminar no feminicídio. Outros desfechos trágicos são possíveis, como a mulher em situação de violência cometer suicídio, ou mesmo assassinar seu agressor.

 

Design por Amanda Penetta

 

Agora você já conhece os tipos de violência e sabe que muitas vezes a violência doméstica acontece em ciclos. Desse modo, caso identifique alguém que esteja passando por alguma situação como essa, não se cale, denuncie! Oferecer apoio e um espaço para ouvir essa pessoa pode ser um bom caminho para ajudá-la.

Na próxima postagem apresentaremos uma entrevista com profissionais do Consultório na Rua para abordar a violência contra as mulheres em situação de rua. Não percam!

 

Referências:

Walker, L. E. (2009). The Battered Woman Syndrome. Springer Publishing Company. 3ª ed. rev. Nova Iorque: Springer Publishing Company, 2009. Disponível em <http://yunus.hacettepe.edu.tr/~cin/Criticism%20of%20the%20Western%20Society%20&%20Civilization%20-%20Collection%205/Domestic%20Violence/Walker%20-%20The%20Battered%20Woman%20Syndrome%20(2009).pdf>

INSTITUTO MARIA DA PENHA. Tipos de violência. Disponível em: https://www.institutomariadapenha.org.br/lei-11340/tipos-de-violencia.html

 

Texto produzido por:

Ana Beatriz de Moura

Camila Felix Rossi

 

Equipes envolvidas:

PET-Saúde/Interprofissionalidade – São Carlos – UFSCar

Cristina Helena Bruno

Jair Borges Barbosa Neto

Júlia Caltabiano Porto

Liliane Tiemy Yanaguizawa Pacca

 

Grupo Temático Diversidade e Cidadania

Amanda Lélis Angotti Azevedo

Andressa Soares Junqueira

Beatriz Barea Carvalho

Carla Regina Silva

Carolina Serrati Moreno

Flávio Adriano Borges

Glieb Slywitch Filho

Jhonatan Vinicius de Sousa Dutra

Larissa Campagna Martini

Letícia de Paula Gomes

Natália Pressuto Pennachioni

Natália Stofel

Uma Reis Sorrequia

 

Crédito da imagem: Melanie Wasser em Unsplash

 

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Categoria: Diversidade e Cidadania

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