Durante os últimos cinco meses temos vivenciado o isolamento social como uma das principais estratégias de controle da infecção pelo novo coronavírus. Com isso, muitos serviços de saúde sofreram alterações em suas formas de funcionamento, desde mudanças em aspectos organizacionais até a oferta de atendimentos. Nesse contexto, a possibilidade de utilização das diferentes modalidades em telessaúde ganhou novas discussões e diretrizes pelos conselhos profissionais e os teleatendimentos passaram a ser implementados.

É importante destacar que a telessaúde não é um conceito ou uma prática que surgiu mediante a pandemia pelo novo coronavírus. Trata-se da prestação remota de cuidados de saúde por meio de ferramentas de telecomunicação; sendo que, no Brasil, encontramos o programa “Telessaúde Brasil Redes”, que teve suas diretrizes estabelecidas por meio do Decreto nº 9795, de 17 maio de 2019 e tem por principal objetivo a expansão dos serviços assistenciais, principalmente aqueles voltados à Atenção Primária à Saúde (HARZHEIM, et al 2017). Entretanto, é inegável que a pandemia pelo novo coronavírus trouxe à tona essa questão da telessaúde e exigiu o contato mais intenso com o tema e suas possíveis implicações.

 

Design por Ana Paula de Lima

 

Um estudo publicado por Caetano e colaboradores (2020), teve por objetivo discutir os espaços de contribuição da telessaúde para o enfrentamento da epidemia da COVID-19 no Brasil. Dentre os principais resultados apresentados, destacam-se as possibilidades e vantagens do uso da telessaúde no combate a COVID-19, principalmente em função da  diminuição de circulação de indivíduos em estabelecimentos de saúde, reduzindo, portanto, o risco de contaminação de pessoas e maior propagação da doença. Além disso, as estratégias de telessáude permitem alcançar lugares de difícil acesso ou com estrutura deficitária e podem garantir o atendimento de pacientes com doenças e comorbidades preexistentes à pandemia. Por outro lado, alguns desafios principais também são identificados, tais como: a integração da telessaúde nas diretrizes nacionais para preparação em saúde pública, indo ao encontro do Regulamento Sanitário Internacional e planos nacionais de contingência à epidemia; definição e padronização de procedimento e protocolos para monitoramento remoto, educação em saúde e compartilhamento de dados.

 

Design por Amanda Penetta

 

Para além da relação direta entre a telessaúde e as ações direcionadas unicamente à pacientes infectados pela COVID-19, é fundamental lembrar que esse formato de assistência também contribui de maneira significativa para a manutenção de serviços clínicos, como os serviços de reabilitação. Embora em muitos países essas ações de reabilitação tenham sido interrompidas em um primeiro momento, essa estratégia de suspensão não pode ser sustentada por tempo indefinido, principalmente devido às condições de saúde de alguns pacientes que apresentam comorbidades e não podem interromper as terapias de reabilitação sob risco de evoluírem em relação a habilidades já conquistadas. Nesse sentido, um grupo importante  é composto pelos pacientes que possuem algum tipo de afecção neurológica.

 

Design por Amanda Penetta

 

Embora a percepção dos profissionais de saúde seja fundamental para o estabelecimento de práticas em telessaúde mais efetivas, não podemos nos esquecer da importância da percepção dos próprios pacientes e de seus cuidadores em relação a esse tipo de assistência, tendo em vista que a utilização de abordagens em saúde que considerem a real necessidade e desejo dos usuários, tem papel imprescindível na elaboração e lapidação de ações em diferentes níveis.

Diante disso, convidamos alguns pacientes e cuidadores que estão recebendo atendimento por alguma modalidade de telessaúde, por meio de ações vinculadas ao Projeto denominado “Estratégias da terapia ocupacional em disfunção física do adulto para atendimento à distância durante a pandemia do coronavírus – Covid-19”, que está ocorrendo na Unidade Saúde Escola (USE), para que relatassem como está sendo essa experiência, incluindo seus pontos positivos e negativos. Este Projeto, vigente desde maio de 2020, tem vinculação direta com o Departamento de Terapia Ocupacional e a Pró-Reitoria de Extensão da UFSCar. O Projeto é desenvolvido com a participação de duas docentes e 11 alunos de graduação. Até junho de 2020 o Projeto realizou 175 teleatendimentos individuais para 68 usuários e três atendimentos grupais para três usuários.

A partir dos relatos coletados, percebe-se que tanto os pacientes quanto os cuidadores relatam sentir as diferenças entre o atendimento presencial e o atendimento remoto, como demonstram as seguintes falas:

 

O atendimento online, pelo áudio, não é a mesma coisa quando a gente ia na USE. Não tô dizendo que é 100%, porque não é… Digamos que é 50 ou 60%. Mas só de vocês ligarem, mandarem um áudio, mandarem um vídeo, a gente (ter a possibilidade de) falar online já é bastante gratificante.” – Cuidadora.

Não é a mesma coisa de quando a gente estava aí na Federal, devido a essa doença que apareceu (referindo-se a pandemia).” – Paciente A.

Não é a mesma coisa, mas uns 50% já ajuda.” – Paciente A.

 

Entretanto, é possível perceber em alguns relatos que a manutenção do contato e da assistência é positiva, gerando sentimentos de bem-estar, acolhimento e gratidão.

 

Eu tô muito feliz de você estar auxiliando a gente o tempo todo porque a gente precisa, porque isso significa que vocês não abandonaram.” – Cuidadora

 “E vocês nos ajudam muito, muito obrigada por tudo.” – Paciente A

Cá estava eu triste e desanimada, só escutando histórias de horrores (…) Esse atendimento à distância que estão me proporcionando está sendo de grande importância. Além do alívio das dores está servindo também de terapia (…) Me escuto com paciência e vou melhorando a cada dia.” – Paciente B.

A vida estava muito triste, com a pandemia  que estamos vivendo. Me vi em casa, sem fazer exercícios, sem trabalhar e com muito medo de pegar o vírus do Covid-19.  Recebi uma ligação, oferecendo atendimento online de terapia de mão. É um atendimento de grupo, o qual eu já havia participado na USE da UFSCar, e que muito me ajudou. Aceitei prontamente pois chegou em boa hora. Estou muito feliz em participar, pois está me ajudando muito. Só tenho a agradecer  pelo cuidado e pela troca de experiências.” – Paciente D.

 

Encontramos relatos bastante positivos que, inclusive, pontuam e fortalecem a perspectiva de continuidade das modalidades de atendimento em telessaúde como práticas integrantes da rotina profissional. O relato abaixo, de uma das pacientes atendidas, reforça esse aspecto:

 

Tem sido ótimo o atendimento (…) até os meus filhos estão encantados com isso. Tá sendo melhor até do que ir lá na USE. Tô muito feliz (…) é um horário maravilhoso que já colocamos como as terças da alegria.” – Paciente C.

 

Além disso, alguns pacientes também apontam como um fator positivo proveniente dos teleatendimentos, a criação de uma rede de suporte importante nesse momento em que o isolamento social é tão impactante no cotidiano dos sujeitos. O relato da paciente B, apresentado abaixo, ilustra esse apontamento, sendo que vale dizer que essa paciente encontra-se em atendimento em abordagem grupal. 

 

A oportunidade de nova amizade com a alegre e simpática C. (referindo-se a outra participante do grupo). A C. é tão falante, tem lindas coisas para contar (…) D. tão prestativa (referindo-se ainda a uma terceira participante do grupo), tem carinho e muita bondade.” – Paciente B

 

Acredita-se fortemente que após esse período de pandemia, as ações em telessaúde sejam fortalecidas e incentivadas, aumentando sua aceitação pública e governamental. É fundamental ressaltar que as ações nesse campo não se caracterizam como substitutivas ao atendimento em saúde presencial, mas sim como complemento para as práticas em saúde. Além disso, não se pode esquecer da necessidade ainda emergente de sistematização das ações em telessaúde, sendo este um passo fundamental para sua operacionalização nos diferentes espaços possíveis.

 

REFERÊNCIAS

CAETANO, R.; SILVA, A. B.; GUEDES, A. C. C. M.; PAIVA, C. C. N.; RIBEIRO, G. R.; SANTOS, D. L.; SILVA, R. M. Desafios e oportunidades para telessaúde em tempos da pandemia pela COVID-19: uma reflexão sobre os espaços e iniciativas no contexto brasileiro. Cadernos de Saúde Pública. v.36, n.5, 2020, p. 1-16.

BRASIL. Programa Telessaúde Brasil Redes. Disponível em: https://www.saude.gov.br/telessaude

OSHIDA, M. M.; BRANDÃO, M. M.; TACADA, I.; PIOVEZAN, C. E. R. A.; SANT’ANA, D. M. G.; SANTOS, A. G. A. Percepções sobre o aplicativo telemedicina Paraná como ferramenta para teleatendimento. Rev. Aproximação. v.2, n.4, 2020, p. 14-18.

 

Créditos da imagem: Freepik no Freepik

Veja também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *