A Universidade Federal de São Carlos – campus Lagoa do Sino – deu início às suas atividades no ano de 2014 (confira aqui). Um dos principais objetivos do campus mais recente da UFSCar, localizado na cidade de Buri, interior de São Paulo, é aproximar os moradores das cidades próximas ao ensino superior público, gratuito e de qualidade, através de projetos como os de extensão, por exemplo.

As aulas dadas pelo Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus ocorrem em uma escola municipal da cidade de Campina do Monte Alegre que fica a 6km de distância do campus. Porém, durante a pandemia da COVID-19, as aulas deixaram de ser presenciais e passaram a ocorrer de forma remota para garantir a segurança dos educandos e educadores. Nesse contexto, os materiais são disponibilizados online através de plataformas como o Google Classroom e o Google Drive, além da realização de plantões de dúvidas por meio de redes sociais do cursinho.

Convidamos o André Pereira da Silva – um dos responsáveis pela criação do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus – para falar mais sobre o projeto. Confira a entrevista:

Como se deu a ideia de iniciar esse projeto? Quem foram os responsáveis?

R: Quando chegamos aqui, no final de 2015, eu e o Leonardo Paes Niero, ambos aprovados no concurso para Técnico de Laboratório, pensamos em iniciar esse projeto. Nós dois já nos conhecíamos de São Carlos, pois estudamos na mesma turma de biologia e fizemos mestrado no mesmo laboratório da UFSCar. Ambos éramos intimamente envolvidos com educação popular há muitos anos e sabíamos que cursinhos populares são uma ferramenta imprescindível para a garantia de que egressos de escolas públicas possam acessar o ensino superior. Assim, nos primeiros meses de 2016, escrevemos o projeto juntamente com dois discentes do curso de Engenharia Ambiental da Lagoa do Sino: Vinicius Rainer e Reginaldo Coutinho. Fizemos um esforço para agregar voluntários e, nesse mesmo ano, iniciamos as atividades do projeto.

Você acha que os moradores das cidades próximas ao campus se interessaram mais pela universidade com a chegada do projeto?

R: Antes de iniciar o projeto, fizemos um estudo a respeito do perfil educacional. Percebemos que a educação superior não era uma regularidade na região e que grande parte das pessoas viam a universidade mais como uma chance de geração de empregos, por meio dos contratos terceirizados e de possíveis aproximações de empresas. Desde que iniciamos o processo, temos uma grande procura. Com o passar dos primeiros anos, ex-alunos do cursinho que ingressaram na Lagoa do Sino passaram a compor a equipe do projeto. Isso fez com que a região pudesse se apropriar mais da possibilidade de ingresso.

Visto que o projeto não possui fins lucrativos, como é garantido o espaço físico para a realização das aulas presenciais?

R: Em 2016, nós funcionamos em duas salas emprestadas da Escola Estadual de Campina do Monte Alegre. A prefeitura de Buri fez uma parceria conosco pelo fornecimento de transporte gratuito diário para as aulas. Naquele ano, fornecíamos lanches para os educandos por meio de doações locais e da parceria com a comunidade na montagem dos lanches. Em 2017, fizemos novas parcerias com dois outros municípios, Angatuba e Campina do Monte Alegre. Para cada cidade atendemos cerca de 40 educandos por ano. Em contrapartida, Angatuba e Buri fornecem transporte gratuito diário para seus educandos e Campina do Monte Alegre fornece as salas de aula de uma escola municipal e a merenda. Todos os municípios contribuem com impressão de simulados. Outras necessidades de gastos, como pagamentos de inscrições em vestibulares e de viagens para as provas de educandos são atendidos por meio de doações.

O cursinho é composto por quantos voluntários(as) educadores?

R: O cursinho é composto de cerca de 100 membros divididos em 13 grupos: 9 associados às disciplinas, um de bedéis (uma espécie de agentes escolares) e três comissões (comunicação e finanças, secretaria e pedagógica). Cada grupo tem dois coordenadores bolsistas que compõem a coordenação geral, um espaço de formação em educação popular e de desenvolvimento do projeto.

Como fazer para entrar no cursinho como aluno?

R: No início de cada ano abrimos um formulário de inscrição em nosso site. Fazemos uma seleção socioeconômica e, em abril, as aulas se iniciam. Os educandos não selecionados podem ser chamados para as aulas presenciais durante todo o ano.

Como fazer para entrar no cursinho como voluntário(a)/professor(a)?

R: Para atuar no projeto basta entrar em contato com a coordenação. Normalmente conseguimos um espaço para atuação.

O projeto recebe apoio financeiro de alguma instituição?

R: Não recebe.

Quais as maiores dificuldades enfrentadas ao coordenar o cursinho durante a pandemia da COVID-19?

R: Para as pessoas em maior condição de vulnerabilidade, especialmente os advindos de escola pública, é extremamente difícil o desenvolvimento sem a presença física de um espaço educacional. Ir para o cursinho é um motivador para os educandos e educadores, especialmente ne educação popular, em que o contato e o diálogo próximo são elementos imprescindíveis para o desenvolvimento de uma metodologia crítica. Soma-se a tal fato a falta de estrutura para que nossos educandos possam acompanhar as atividades, seja por causa da falta de espaço físico, seja por falta de acesso à internet e ao computador. Sem contar os conflitos domésticos.

Caso ainda não tenha sido respondido, como os alunos têm respondido às atividades realizadas de forma online durante a quarentena?

R: A participação é quase nula durante esse período excepcional. Tentamos uma série de atividades de contato, todas sem sucesso pleno até o momento. Os conteúdos continuam a ser postados e estamos testando uma nova metodologia no momento, mas é certo que a pandemia agravou as desigualdades sociais.

Você tem uma ideia de quantos alunos o projeto ajudou a entrar na universidade? E no ENCCEJA?

R: Em universidades, mais de 100 educandos. No ENCCEJA já não temos dados.

Caso algo não tenha sido abordado, fique à vontade para falar sobre.

R: A educação popular vai muito além do ensino de disciplinas. Nossa metodologia busca, tendo o educando e sua realidade como força motriz, desenvolver uma série de combates à discriminação. Por isso, nosso projeto realiza, todas as sextas feiras, rodas de conversa para dialogar sobre a valorização das pessoas em sua diversidade de características e expressões de mundo. Nossa metodologia e espaços buscam levar nossos educandos a se enxergarem no mundo como pessoas ativas e proponentes do diálogo, valorizadas. Nesse sentido, temos um artigo e um capítulo de livro publicados que explicitam essa lógica disponíveis em nosso site. Isso quer dizer que o acesso às universidades e aos concursos não são o nosso único foco. Nosso espaço de ensino e aprendizagem busca fortalecer nossos educandos para que, seja qual for a trajetória que sigam, se tornem pessoas donas de suas histórias. Esse contexto faz com que os membros do projeto estejam em constante processo de aprendizagem, ou seja, os educadores são educandos e os educandos são educadores. Nossos membros passam por processos de formação que se balizam na prática pedagógica e, assim, muitas estruturas preconceituosas são quebradas.

 

Recentemente o cursinho recebeu uma incrível contribuição a esse excelente trabalho educacional realizado por voluntários, discentes e servidores técnico-administrativos do campus Lagoa do Sino. O escritor brasileiro Raduan Nassar, grande apoiador e incentivador da educação, doou um terreno e surgiu a ideia de uma associação voltada às atividades educativas gratuitas no município. O intuito é de que essa associação sem fins lucrativos esteja intimamente ligada ao Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus.

Por essa razão, uma campanha solidária foi iniciada para que a documentação exigida seja criada para, posteriormente, a associação seja fundada. Caso tenha interesse em saber mais e contribuir, acesse o link da campanha abaixo.

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